Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 90 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fase efetora

citocinas característico, conta com um perfil de marcadores de superfície

exclusivo e desempenha diferentes papéis na doença. Essas características

estão resumidas na Tabela 7.2. Alguns potentes fármacos anti-inflamatórios

bloqueiam o receptor de IL-2, prevenindo, assim, a proliferação linfocitária

(ver Capítulo 27).

O conhecimento da relação existente entre os subgrupos de células T,

seus respectivos perfis de citocinas e as condições patológicas pode ser

usado para manipular as respostas imunes, com a finalidade de prevenir e

tratar doenças. Atualmente, existem numerosos modelos experimentais em

que a modulação do equilíbrio Th1/Th2 com as citocinas recombinantes ou

antagonistas de citocinas altera o desfecho da doença.

 

FASE EFETORA

Na fase efetora, os linfócitos B e T se diferenciam tanto em plasmócitos

como em células de memória. As células B plasmáticas produzem

anticorpos específicos que, embora sejam eficazes no líquido extracelular,

são incapazes de neutralizar patógenos junto às células. Os mecanismos

imunológicos mediados pela célula T sobrepujam esse problema ao ativar

os macrófagos ou destruir diretamente as células do hospedeiro infectadas

por vírus. As células de memória antígeno-sensíveis são formadas quando o

clone de linfócitos programados para responder ao antígeno é amplamente

expandido após o primeiro contato com o microrganismo. Conferem maior

rapidez e eficácia à resposta por exposição subsequente ao mesmo antígeno.

Em certos casos, essa resposta é tão rápida e eficiente que, após a

exposição, o patógeno jamais consegue recuperar uma posição segura. Os

procedimentos de vacinação e imunização fazem uso desse fenômeno

inestimável.

Resposta mediada por anticorpos (humoral)

Existem cinco classes principais de anticorpos – IgG, IgM, IgE, IgA e IgD

– que diferem entre si quanto a certos aspectos estruturais. São todas

gamaglobulinas (imunoglobulinas), que tanto reconhecem e interagem de

forma específica com os antígenos (proteínas ou polissacarídios estranhos

ao hospedeiro) quanto ativam um ou mais componentes dos sistemas de

defesa do hospedeiro.

 

Figura 7.4 Ativação de uma célula T por uma célula apresentadora de antígeno

(APC). A. A APC encontra uma proteína estranha e a processa proteoliticamente em fragmentos peptídicos. O processo de ativação, então, se desenrola em três estágios. (i) Interação do complexo constituído pelos fragmentos peptídicos de antígeno derivado do patógeno com a molécula do complexo principal de histocompatibilidade (MHC) de classe II, e o receptor antígeno-específico presente na célula T. B. (ii) Interação do correceptor CD4 expresso na célula T com uma molécula de MHC presente na APC. (iii) A proteína B7 na superfície da célula APC se liga ao CD28 na célula T, gerando um sinal coestimulatório. O correceptor CD4, aliado a um receptor para quimiocina da célula T, constitui os principais

pontos de ligação para o vírus HIV (ver Figura 53.3).

 

Tabela 7.2 Subgrupos de linfócitos, respectivos papéis na

defesa do hospedeiro e na relação com

doenças inflamatórias.

 

Principais

Citocina Principal papel na resposta

Subgrupo citocinas Papel na doença

estimuladora adaptativa

produzidas

Células precursoras para nova

Th0 IL-2 – –

diferenciação

“Imunidade mediada por células”

Diabetes melito dependente

* As citocinas liberadas por essas de insulina (ver Capítulo 32),

células: ativam macrófagos para esclerose múltipla, úlcera

fagocitose e destruição de péptica induzida por microrganismos, e destruição de IFN-γ, IL-2 e Helicobacter pylori (ver

Th1 IL-2 células tumorais; conduzem a TNF-α Capítulo 31), anemia

proliferação e a maturação do clone aplásica (ver Capítulo 26) e

em células T citotóxicas que matam artrite reumatoide (ver

as células hospedeiras infectadas Capítulo 27). Rejeição de

por vírus; de forma recíproca, aloenxerto inibem a maturação de células Th2

“Imunidade humoral”

* As citocinas liberadas por essas

células: estimulam as células B a

proliferar e amadurecer em Asma (ver Capítulo 29) e

plasmócitos produtores de alergia.

IL-4, IL-5, TGF-

Th2 A progressão da AIDS está IL-4 β - diferenciação e a ativação de anticorpos; intensi cam a

eosinó los; e inibem, de forma - associada à perda de células

Th1 e é favorecida pelas

recíproca, as funções Th1/Th17. Por

respostas Th2

esse motivo, são muitas vezes

consideradas como tendo uma ação

predominantemente anti-

in amatória

Th17 TGF-β, IL-6 e IL- Tipo especializado de célula Th1 IL-17 Resposta à infecção,

21 respostas imunes órgão-

especí cas e na patogênese

de doenças como artrite

reumatoide e esclerose

múltipla

 

Trega FOX P3 A falha desse mecanismo prevenindo a autoimunidade e IL-10 e TGF-β IL-10 e TGF-β ou Restrição da resposta imune,

pode provocar in amação

Amadurecida no exacerbada reduzindo respostas in amatórias

potencialmente lesivas

timo

a Duas populações são comumente encontradas: células Treg indutíveis (iTreg) e Treg naturais (nTreg).

IFN, interferona; IL, interleucina; TGF, fator de crescimento transformador (transforming growth factor); TNF, fator de necrose

tumoral.

 

▼ Um anticorpo é uma molécula de proteína em forma de Y (ver

Capítulo 5), na qual os braços do Y (o fragmento de ligação ao antígeno

[do inglês, antigen binding fragment] – porção Fab) incluem um local

de reconhecimento variável para antígenos específicos, e o pé invariável

do Y (a porção Fc “constante”) ativa as defesas do hospedeiro. As

células B, responsáveis pela produção de anticorpos, reconhecem as

moléculas estranhas por intermédio dos receptores de superfície, que

são similares à imunoglobulina finalmente produzida por todo o clone

dessas células B. Os mamíferos abrigam um vasto número de clones de

células B que produzem diferentes anticorpos com pontos de

reconhecimento para os diferentes antígenos.

 

A indução das respostas mediadas por anticorpos varia de acordo com o

tipo de antígeno. Para a maioria dos antígenos, em geral, é necessário haver

um processo de cooperação entre as células Th2 e B para que a resposta seja produzida. As células B também podem apresentar antígenos às células

T, as quais, em resposta, liberam citocinas atuantes ainda sobre as próprias

células B. Os glicocorticoides anti-inflamatórios (ver Capítulos 27 e 34) e o

fármaco imunossupressor ciclosporina (ver Capítulo 27) afetam os eventos

moleculares cruciais para a indução. Os fármacos imunossupressores

citotóxicos (ver Capítulo 27) inibem a proliferação tanto das células B

como das T. Os eicosanoides participam do controle desses processos, uma

vez que as prostaglandinas da série E podem inibir a proliferação

linfocitária, provavelmente por inibição da liberação de IL-2.

Como você já pode ter concluído, a capacidade de produzir anticorpos

tem valor significativo para a sobrevivência. Crianças nascidas sem essa

capacidade9 sofrem infecções de repetição, como pneumonia, infecções

cutâneas e tonsilites. Antes do advento dos antibióticos, essas crianças

morriam no início da infância, sendo que, até hoje, elas necessitam de uma

terapia de reposição regular com imunoglobulinas. Além de sua capacidade

de neutralizar os patógenos, os anticorpos conseguem potencializar a

eficácia e a especificidade das reações de defesa do hospedeiro de diversas

formas.

 

■ Anticorpos e complemento

A formação do complexo antígeno-anticorpo expõe um local de ligação

para o complemento no domínio Fc. Essa ligação ativa a sequência do

complemento e determina a série de efeitos biológicos resultantes (ver

Figura 7.1). Essa via para ativação de C3 (via clássica) fornece uma via

especialmente seletiva de ativação do complemento em resposta a um

patógeno em particular, pois a reação antígeno-anticorpo iniciada não só

constitui um evento de reconhecimento altamente específico como também

ocorre em íntima associação ao patógeno. A propriedade lítica do complemento pode ser empregada no aspecto terapêutico: anticorpos

monoclonais (mAb; do inglês, monoclonal antibodies) e complemento

podem ser empregados em associação para livrar a medula óssea de células

cancerosas, complementando a quimioterapia ou a radioterapia (ver

Capítulo 57).

 

■ Anticorpos e fagocitose de bactérias

Quando os anticorpos se ligam aos respectivos antígenos presentes nos

microrganismos por meio de suas porções Fab, o domínio Fc é exposto. As

células fagocíticas (neutrófilos e macrófagos) expressam receptores de

superfície para essas porções Fc projetadas, os quais atuam como uma

ligação altamente específica entre o microrganismo e o fagócito.

 

■ Anticorpos e citotoxicidade celular

Em alguns casos, a exemplo dos vermes parasitos, o invasor pode ser

grande demais para ser ingerido pelos fagócitos. As moléculas de anticorpo

podem estabelecer uma ligação entre o parasito e os leucócitos do

hospedeiro (nesse caso, os eosinófilos), que, então, se tornam capazes de

danificar ou destruir o parasito. As células NK, aliadas aos receptores Fc,

também podem matar as células-alvo recobertas com anticorpos

(exemplificando a citotoxicidade celular dependente de anticorpos,

ADCC).

 

■ Anticorpos e mastócitos ou basófilos

Os mastócitos e os basófilos contêm receptores para IgE, que é uma forma

particular de anticorpo com capacidade de ligação (“fixação”) às

membranas dessas células. Quando o anticorpo fixo na célula reage com um

antígeno, um conjunto inteiro de mediadores farmacologicamente ativos é

secretado. Essa reação bastante complexa é observada com frequência em todo o reino animal e provavelmente é de valor para a sobrevivência do

hospedeiro. Mesmo diante dessa constatação, seu significado biológico

preciso não está completamente esclarecido, embora se admita que sua

importância possa estar associada à atividade do eosinófilo na defesa contra

os vermes parasitos. Quando indevidamente desencadeada por substâncias

que não propriamente causam danos ao hospedeiro, é envolvida em certos

tipos de reação alérgica, parecendo contribuir mais para a doença do que

para a sobrevivência no mundo moderno.

 

Resposta imune mediada por células

As células T citotóxicas (derivadas das células T CD8+) e as células Th1

(secretoras de citocinas) inflamatórias são atraídas para os pontos

inflamatórios de modo semelhante aos neutrófilos e macrófagos, e estão

envolvidas nas respostas mediadas por células (ver Figura 7.3).

 

■ Células T citotóxicas

As células T citotóxicas armadas destroem os microrganismos

intracelulares, como os vírus. Quando um vírus infecta uma célula de

mamífero, a resultante resposta defensiva produz dois aspectos. A primeira

etapa consiste na expressão de peptídios de superfície celular derivados do

patógeno, em associação com moléculas do MHC. A segunda etapa é o

reconhecimento do complexo peptídio-MHC por receptores específicos

presentes nas células T citotóxicas (CD8+) (a Figura 7.4 mostra um

processo semelhante envolvendo a célula T CD4+). As células T citotóxicas,

então, destroem as células infectadas por vírus ao programá-las para sofrer

apoptose. Para que o patógeno seja destruído, às vezes é necessária a

cooperação dos macrófagos.

 

■ Células Th1 CD4+ ativadoras de macrófagos Após serem ingeridos, alguns patógenos (p. ex., Mycobacteria, Listeria)

sobrevivem e, na verdade, multiplicam-se no interior dos macrófagos. As

células Th1 CD4+ armadas liberam citocinas que ativam os macrófagos para

destruir os patógenos intracelulares. As células Th1 também recrutam

macrófagos, liberando citocinas que atuam sobre as células do endotélio

vascular (p. ex., TNF-α), bem como quimiocinas (p. ex., fator quimiotáxico

de macrófagos-1; MCP-1) que atraem os macrófagos para os pontos de

infecção.

Um complexo formado por peptídios derivados do microrganismo e das

moléculas de MHC é expresso na superfície do macrófago, sendo

reconhecido pelas células Th1 secretoras de citocinas. Em seguida, essas

células Th1 geram citocinas que capacitam os macrófagos a empreenderem

seus mecanismos de destruição. Os macrófagos ativados (com ou sem

patógenos intracelulares) constituem verdadeiras fábricas de produção de

mediadores químicos, podendo gerar e secretar não só inúmeras citocinas,

como também metabólitos tóxicos do oxigênio e proteases neutras capazes

de matar os organismos extracelulares (p. ex., Pneumocystis jiroveci e

helmintos), componentes do complemento, eicosanoides, NO, um fator

estimulador de fibroblastos, pirogênios e o “fator tecidual”, que inicia a via

extrínseca da cascata de coagulação (ver Capítulo 25), além de vários

outros fatores de coagulação. A reação mediada por células é a principal

responsável pela rejeição de aloenxertos. Os macrófagos também são

importantes na coordenação dos processos de reparo que devem ocorrer

para permitir a resolução da inflamação.

A resposta imunológica específica mediada por células ou humoral se

sobrepõe às reações vasculares e celulares inatas inespecíficas já descritas,

tornando-as não só acentuadamente mais eficazes, como também significativamente mais seletivas para determinados patógenos em