Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 396 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Papel do intestino e de hormônios na regulação do peso corporal

forte influência genética sobre a suscetibilidade à doença, e estudos de

mutações raras em camundongos (e, mais recentemente, no homem) têm

levado à descoberta e à elucidação das vias neuroendócrinas que reúnem a

ingestão alimentar e o gasto calórico. Por sua vez, esses estudos chegaram

ao conceito de que são as alterações desses sistemas de controle que são

altamente responsáveis pelo início e pela manutenção da obesidade.

 

PAPEL DO INTESTINO E DE HORMÔNIOS NA REGULAÇÃO DO PESO CORPORAL

No começo do século XX, observou-se que os pacientes com lesão do

hipotálamo tendiam a ganhar peso. Na década de 1940, também se verificou

que lesões específicas nessa região do cérebro de roedores faziam com que

se tornassem obesos ou exibissem comportamento alimentar diferente. Com

base nas observações iniciais em ratos, Kennedy (1953) propôs que um

hormônio liberado do tecido adiposo atuava sobre o hipotálamo para

regular a gordura corporal e a ingestão alimentar. Esses produtivos achados

estabeleceram o parâmetro para futuras descobertas nessa área.

Também foi observado que os camundongos se tornaram obesos em

decorrência de mutações em certos genes, e pelo menos cinco deles já estão

caracterizados, incluindo os genes Ob (obesidade), Tub (de tubby,

rechonchudo), Fat e Db (de gordura e diabetes). Os camundongos que são

homozigóticos para formas mutantes desses genes (Ob/Ob e Db/Db)

comem excessivamente, têm baixo gasto de calorias, tornando-se

visivelmente obesos, e apresentam inúmeras anomalias metabólicas e de

outros tipos. O ganho de peso no camundongo Ob/Ob é suprimido se sua

circulação estiver ligada à de um camundongo normal, sugerindo que a

obesidade seja causada por falta de um fator hematogênico de nascimento.

Ocorreu uma inovação conceitual importante em 1994, quando

Friedman et al. (Zhang et al., 1994) clonaram o gene Ob e identificaram seu

produto proteico como polipeptídio leptina.2 Quando foi administrada

leptina recombinante sistêmica a camundongos Ob/Ob, reduziram-se

notavelmente a ingestão alimentar e o peso corporal. Obteve-se efeito

semelhante quando ela foi injetada diretamente no ventrículo lateral ou no

terceiro ventrículo, sugerindo sua atuação sobre as regiões do cérebro que

controlam a ingestão alimentar e o balanço calórico. A leptina recombinante

apresenta efeitos semelhantes no homem (Figura 33.1).

O RNA mensageiro (mRNA) da leptina é expresso nos adipócitos; sua

síntese aumenta com glicocorticoides, insulina e estrógenos, e se reduz com

agonistas dos receptores β-adrenérgicos. Em indivíduos normais, a

liberação de leptina é pulsátil e varia de acordo com o estado dos depósitos

de gordura e com o IMC. A insulina (ver Capítulo 32) pode também

estimular a liberação de leptina, embora a relação entre esses dois

hormônios seja complexa.

Além da leptina e da insulina, diversos outros mediadores, originários

principalmente do trato gastrintestinal (TGI) e do hipotálamo,

desempenham um papel crucial na ingestão de alimentos, no tamanho da

refeição e na produção da sensação de satisfação (saciedade).3 Os

hormônios peptídicos secretados pelas células da parede do intestino

delgado, em resposta à chegada de alimentos (ver Capítulo 31), são

importantes nessa conexão. A Tabela 33.1 e a Figura 33.2 resumem as

principais características desses mediadores.

A maioria desses peptídios é liberada tanto durante quanto em

antecipação ao ato do comer, e muitos são de natureza inibitória,

produzindo tanto a sensação de saciedade quanto a de satisfação. Duas

exceções, porém, são: o hormônio gástrico, grelina, que promove a fome; e a própria leptina, que controla a quantidade de tecido adiposo e, portanto,

está mais envolvida com o estado de energia do indivíduo a longo prazo. Os

principais alvos para esses hormônios são receptores nas fibras aferentes

vagais ou no interior do hipotálamo ou em algum outro lugar do sistema

nervoso central (SNC), onde modulam a liberação de neurotransmissores

que exercem a regulação fina sobre o comportamento alimentar, o gasto de

energia e o peso corpóreo. Outras ações desses hormônios peptídicos

incluem a liberação de insulina pelas incretinas (ver Capítulo 32), que

incluem o peptídio glucagon-símile-1 (GLP-1; do inglês, glucagon-like

peptide-1) e o peptídio inibidor gástrico (GIP; do inglês, gastric inhibitory

peptide).

Outro fator, a nesfatina 1, tem atraído a atenção recentemente como um

potencial regulador importante do comportamento alimentar e da

homeostase energética (Ramesh et al., 2017). Trata-se de um peptídio de 82

aminoácidos produzido por uma molécula precursora, a nucleobindina 2.

Ao contrário de muitos hormônios já discutidos, a nefastina 1 pode ser

produzida por muitos tecidos periféricos e centrais e atua centralmente para

provocar um efeito anoréxico pela modulação de neuropeptídios nos

circuitos hipotalâmicos, descritos mais adiante. Pode ter também ações

adicionais no pâncreas, assim como na função gastrintestinal e mesmo no

sistema cardiovascular.

Figura 33.1 Efeito da leptina recombinante sobre o peso corporal em uma criança

de 9 anos de idade gravemente obesa com deficiência de leptina endógena em razão de mutação com quadro de alteração no gene da leptina. Apesar do peso normal ao nascimento, a criança começou a engordar aos 4 meses de idade e estava constantemente exigindo alimento. Antes do tratamento, ela pesava 94,4 kg. A perda de peso começou depois de 2 semanas de tratamento, e seu padrão alimentar voltou ao normal. Ela havia perdido 15,6 kg de gordura corporal depois de 1 ano de tratamento. (Dados e figura adaptados de Farooqi et al., 1999.)

 

Tabela 33.1 Alguns hormônios periféricos que regulam o

comportamento alimentar.

Estímulo para

Hormônio Fonte Alvo Efeito

liberação

Durante a refeição ou Limita o tamanho da

CCK TGI Aferentes vagais

imediatamente antes refeição

Amilina, insulina, Durante a refeição ou Limita o tamanho da

Pâncreas Aferentes vagais

glucagon imediatamente antes refeição

Tronco encefálico, Adia a necessidade da

PYY 3-36 Íleo, cólon Após a refeição

hipotálamo próxima refeição

Tronco encefálico, Adia a necessidade da

GLP-1 Estômago Após a refeição

hipotálamo próxima refeição

Tronco encefálico, Adia a necessidade da

Oxintomodulina Estômago Após a refeição

hipotálamo próxima refeição

Regulação a longo

Tronco encefálico,

Leptina Tecido adiposo “Estado” adiposo prazo do consumo de

núcleo arqueado

alimentos

Aumenta a ingestão

de alimentos por meio

Grelina Estômago Fome, ato de comer Vagal, hipotálamo do aumento do

tamanho e do número

de refeições

Hipotálamo, pâncreas, Neurônios orexígenos

Nesfatina 1 Ingestão alimentar Diminui o apetite

tecido adiposo e TGI NPY

CCK, colecistocinina; TGI, trato gastrintestinal; GLP-1, peptídio glucagon-símile-1; NPY, neuropeptídio Y; PYY3-36, peptídio YY.

Figura 33.2 Representação simplificada do papel dos hormônios periféricos e

outros mediadores na regulação do equilíbrio energético e dos depósitos de gordura. O nível primário de controle hipotalâmico é realizado por dois grupos de neurônios com ações opostas no núcleo arqueado (ARC). Em um grupo, estão colocalizados os neuropeptídios Y (NPY) e o peptídio agouti-relacionado (AgRP); o outro contém os polipeptídios pró-opiomelanocortina (POMC) e os transcritos relacionados com cocaína ou anfetamina (CART), que liberam o hormônio melanócito-estimulante alfa (MSH-α . Hormônios circulantes originados do trato gastrintestinal (TGI) ou do tecido adiposo são detectados por receptores vagais ou por outros receptores aferentes, e isso é retransmitido através do núcleo do trato solitário (NTS), com a intenção de modificar a atividade desses circuitos neuronais. A influência dos hormônios em cada grupo neuronal está indicada. Alguns (p. ex., leptina) chegam por intermédio do sangue periférico e influenciam os neurônios do ARC direta ou indiretamente por meio de sinais neuronais; já outros (p. ex., 5-hidroxitriptamina [5-HT], orexina) se originam de dentro do próprio sistema nervoso central (SNC). A ativação do grupo NYP/AgRP, por exemplo, devido à queda dos níveis de leptina ou à elevação dos níveis de grelina, resulta no aumento do consumo de alimentos e na redução do gasto energético. No grupo de neurônios POMC/CART, o aumento dos níveis de leptina ou de outro hormônio ativado pelo excesso de alimentos produz efeito predominantemente inibitório sobre o comportamento alimentar. Vários outros hormônios, como a colecistocinina (CCK) e a amilina, também alteram as propriedades dos neurônios do ARC, embora o mecanismo ainda não seja conhecido. O fator recentemente descoberto, nesfatina 1, não é mostrado. GLP-1, peptídio glucagon-símile-1; PYY , 3-36