Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 143 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

12 Variação Individual, Farmacogenômica e Medicina Personalizada

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Este capítulo aborda as fontes de variação entre indivíduos (variação

interindividual) em suas respostas a fármacos. São descritos importantes

fatores, incluindo etnia, idade, gravidez, doença e interação de fármacos (i.

e., a modificação da ação de um fármaco por outro). É introduzido o

conceito de individualização da farmacoterapia à luz da informação

genômica (“medicina personalizada”) – uma área da farmacologia clínica

em rápido desenvolvimento. Explicam-se conceitos relevantes de genética

elementar e são descritos resumidamente alguns distúrbios

farmacogenéticos de gene único que afetam as respostas a fármacos.

Abordam-se, posteriormente, os testes farmacogenômicos, incluindo testes

para variações nos genes do antígeno leucocitário humano (HLA; do inglês,

human leukocyte antigen), em genes que influenciam o metabolismo de

fármacos e codificantes de alvos farmacológicos.

 

INTRODUÇÃO

A terapia seria bem mais fácil se a mesma dose de fármaco produzisse

sempre a mesma resposta. Na realidade, a variabilidade inter e

intraindividual é muitas vezes substancial, e este fato pode conduzir a

diferenças importantes no equilíbrio entre os benefícios e os malefícios do

tratamento. É necessário que os médicos estejam atentos para as fontes de

tal variação para prescreverem fármacos de maneira segura e efetiva. A

variação pode ser causada por diferentes concentrações nos locais de ação

do fármaco ou por diferentes respostas à mesma concentração de fármaco.

O primeiro tipo é chamado de variação farmacocinética e pode ocorrer em

virtude de diferenças em absorção, distribuição, metabolismo ou excreção

(ADME; ver Capítulos 9 e 10). O segundo tipo é denominado variação

farmacodinâmica. As respostas a alguns agentes terapêuticos, por exemplo,

a maioria das vacinas e contraceptivos orais (ver Capítulo 36), são

suficientemente previsíveis para possibilitar uma posologia padronizada,

enquanto os tratamentos com lítio (ver Capítulo 48), fármacos anti-

hipertensivos (ver Capítulo 23), anticoagulantes (ver Capítulo 25) e muitos

outros fármacos são individualizados; suas doses são ajustadas de acordo

com o monitoramento da concentração do fármaco no plasma ou uma

resposta como a alteração da pressão sanguínea, juntamente com qualquer

efeito adverso.

A variação interindividual na resposta a alguns fármacos é um problema

sério; se não for levada em consideração, pode resultar em falta de eficácia

ou efeitos adversos inesperados. Embora os ensaios clínicos de grandes

dimensões possam prever o efeito médio dos fármacos, a comunidade

médica reconhece que existem subgrupos de indivíduos que apresentam

maior potencial de resposta benéfica do que outros. A variação é causada,

em parte, por fatores ambientais, mas estudos comparando gêmeos

idênticos e não idênticos sugerem que muito da variação da resposta ao fármaco é geneticamente determinado; por exemplo, as meias-vidas de

eliminação da antipirina, um detector da oxidação hepática de fármacos, e

da varfarina, um anticoagulante oral (ver Capítulo 25), diferem muito

menos entre gêmeos idênticos do que entre gêmeos fraternos. Contudo,

mesmo para fármacos com um componente genético conhecido como a

varfarina (ver p. 161 e Capítulo 25), a adição de informação

farmacogenética a um algoritmo de dosagem incorporando outras fontes

clínicas de variação (idade, sexo e outras) não melhora significativamente

os resultados. No entanto, quando comparada com uma estratégia de

dosagem inicial padronizada (i. e., tentativa e erro), a estratégia de iniciação

de dose geneticamente orientada resulta em maior fração de tempo na gama

terapêutica durante as primeiras semanas de tratamento (ver Zineh et al.,

2013 e Stergiopoulos et al., 2014, para uma discussão de ensaios clínicos

controlados randomizados de farmacogenética e dosagem de varfarina).

Os genes influenciam a farmacocinética, alterando a expressão de

proteínas envolvidas na ADME de fármacos; a variação farmacodinâmica

reflete diferenças nos alvos farmacológicos, proteínas G ou outras vias a

jusante; a suscetibilidade individual a reações adversas (ver Capítulo 58)

distintas qualitativamente incomuns pode resultar de diferenças

geneticamente determinadas em enzimas ou mecanismos imunes. Espera-se

que, à medida que nosso conhecimento do genoma humano aumente,

juntamente com a introdução de métodos mais simples para identificação de

diferenças genéticas entre indivíduos, seja possível usar a informação

genética específica de um paciente individual para pré-selecionar um

fármaco que seja efetivo e não cause toxicidade, em vez de recorrer ao

método de tentativa e erro com base em dados fisiológicos, como

atualmente – uma esperança referida como medicina personalizada. Até

agora, essa abordagem (que foi inicialmente superestimada) teve um rendimento relativamente baixo no âmbito de benefícios clínicos. No

entanto, a investigação mantém-se a uma velocidade alucinante, e a U.S.

Food and Drug Administration (FDA) aprovou mais de 200 biomarcadores

farmacogenômicos a serem incluídos na informação da rotulagem dos

fármacos – o dobro desde a última edição deste livro. O Genetic Testing

Registry nos EUA aceita a submissão por laboratórios de qualquer parte do

mundo de testes genéticos disponibilizados para fins de rastreamento,

diagnóstico, monitoramento de fármacos/doenças e resposta ao tratamento.

Desde abril de 2017 esse órgão registrou informação de 49.500 testes,

cobrindo 16.233 genes que estão associados a 10.733 doenças (Khoury,

2017). Entretanto, o uso de testes farmacogenômicos não é apoiado

consistentemente pela evidência de resultados melhorados em ensaios

clínicos (Zineh et al., 2013; Phillips, 2017) e, de fato, a abordagem da FDA

quanto à informação farmacogenética foi criticada (Shah e Shah, 2012). É

provável, no entanto, que os testes farmacogenéticos venham a representar

uma contribuição importante para a terapia, ainda que a certo custo.

Neste capítulo, descrevemos primeiramente as mais importantes fontes

epidemiológicas de variação na resposta a fármacos, antes de uma breve

revisão da genética elementar como base para a compreensão de doenças

genéticas caracterizadas por respostas anormais a fármacos, e concluiremos

com uma breve descrição de testes farmacogenômicos atualmente

disponíveis e de como estes começam sendo aplicados à individualização

da farmacoterapia (farmacogenômica).

A variação é geralmente quantitativa, à medida que o fármaco produz

um efeito maior ou menor, ou atua por um período mais prolongado ou

mais curto, exercendo qualitativamente o mesmo efeito. Há que se salientar

que o efeito pode ser qualitativamente diferente em indivíduos suscetíveis,

muitas vezes devido a diferenças genéticas ou imunológicas. Exemplos incluem a hemólise induzida por primaquina em indivíduos com