Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 433 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos que afetam a função reprodutora

Além de controlar o ciclo menstrual, os esteroides sexuais afetam o

comportamento sexual. Dois tipos de controle são reconhecidos: o

organizacional e o ativacional.

O controle organizacional refere-se ao fato de a diferenciação sexual do

cérebro poder ser permanentemente alterada pela presença ou ausência de

esteroides sexuais em estágios-chave do desenvolvimento. Em ratos, a

administração de andrógenos a fêmeas poucos dias após o nascimento

resulta na virilização do comportamento a longo prazo. Por outro lado, a

castração neonatal de ratos-machos causa o desenvolvimento de

comportamento feminino. O desenvolvimento do cérebro, na ausência de

hormônios sexuais, segue a linha feminina, mas assume o padrão masculino

quando o hipotálamo é exposto a andrógenos em um estágio-chave do

desenvolvimento. Tem sido demonstrado que a virilização do

comportamento de ninhadas de primatas fêmeas não humanas, após a

administração de andrógenos, é similar, mas pouco completa, e

provavelmente também ocorre em humanos se mulheres grávidas forem

expostas a excesso de andrógenos.

O efeito ativacional dos esteroides sexuais refere-se à sua habilidade em

modificar o comportamento sexual após o desenvolvimento completo do

cérebro. Em geral, os estrógenos e os andrógenos aumentam a atividade

sexual no sexo apropriado. A ocitocina, que é importante durante o parto

(ver adiante), também tem um papel nos comportamentos de acasalamento

e maternidade, e sua ação no sistema nervoso central é regulada pelos

estrógenos (ver Capítulo 34).

 

FÁRMACOS QUE AFETAM A FUNÇÃO REPRODUTORA

 

ESTRÓGENOS

Os estrógenos são sintetizados pelo ovário e pela placenta e, em pequenas

quantidades, pelos testículos e pelo córtex da suprarrenal. A substância

inicial para a sua síntese e de outros esteroides é o colesterol. Os

precursores imediatos para os estrógenos são substâncias androgênicas –

androstenediona ou testosterona (ver Figura 36.3). Há três estrógenos

endógenos principais nos humanos: estradiol, estrona e estriol (ver Figura

36.3). O estradiol é o principal e mais potente estrógeno secretado pelo

ovário. No começo do ciclo menstrual, sua concentração plasmática é de

0,2 nmol/ℓ, aumentando para cerca de 2,2 nmol/ℓ na metade do ciclo.

 

Ações

Os estrógenos agem junto com a progesterona, induzindo a síntese de

receptores de progesterona no útero, na vagina, na adeno-hipófise e no

hipotálamo. Por outro lado, a progesterona diminui a expressão de

receptores de estrógenos no trato reprodutor. A prolactina (ver Capítulo 34)

também influencia a ação dos estrógenos, aumentando o número de

receptores desses hormônios na glândula mamária, mas não tem efeito na

expressão de receptores de estrógeno no útero.

Os efeitos dos estrógenos exógenos nas mulheres dependem do estágio

de maturidade sexual quando de sua administração:

• No hipogonadismo primário: os estrógenos estimulam o

desenvolvimento de características sexuais secundárias e aceleram o

crescimento

• Em adultas com amenorreia primária: os estrógenos, administrados

clinicamente com um progestógeno, induzem um ciclo artificial

• Em mulheres sexualmente maduras: os estrógenos (com a progesterona)

são contraceptivos • Durante ou após a menopausa: a reposição de estrógeno previne os

sintomas da menopausa e a perda óssea.

Os estrógenos têm várias ações metabólicas, incluindo mineralocorticoides

(retenção de sais e água) e ações anabólicas discretas. Eles aumentam as

concentrações plasmáticas de lipoproteínas de alta densidade, um efeito

potencialmente benéfico (ver Capítulo 24) que pode contribuir para o risco

relativamente baixo de doenças ateromatosas em mulheres em pré-

menopausa, comparadas com homens da mesma idade. Entretanto, os

estrógenos também aumentam a coagulação sanguínea e o risco de

tromboembolia.

 

Mecanismo de ação

Os estrógenos se ligam a receptores nucleares, como outros hormônios

esteroides (ver Capítulo 3). Existem pelo menos dois tipos adicionais de

receptores para estrógenos, chamados de ERα e ERβ. A ligação é seguida

pela interação dos complexos resultantes com pontos nucleares e efeitos

genômicos subsequentes. Além desses receptores intracelulares “clássicos”,

alguns efeitos estrogênicos, em particular suas ações vasculares rápidas, são

iniciados pela interação com receptores de membrana, incluindo o receptor

de estrógeno acoplado à proteína G (GPER; do inglês, G protein-coupled

[o]estrogen receptor), o qual foi clonado a partir de células endoteliais

vasculares e desempenha um papel na regulação do tônus vascular e

crescimento celular, assim como na homeostase de lipídios e glicose

(Barton e Prossnitz, 2015). A vasodilatação aguda causada por 17-β-

estradiol é mediada por óxido nítrico, e um estrógeno de origem vegetal

(fitoestrógeno) chamado de genisteína (seletivo para ERβ, além de exercer

efeitos bastante distintos de inibição da proteinoquinase C) é tão potente

quanto o 17β-estradiol nesse aspecto (Walker et al., 2001). Os moduladores de receptores de estrógenos (agonistas e antagonistas seletivos de receptor

de estrógeno) são mencionados adiante.

 

Preparações

Muitas preparações (oral, transdérmica, intramuscular, implantável e tópica)

de estrógenos são viáveis com ampla classe de indicações. Essas

preparações incluem estrógenos naturais (p. ex., estradiol, estriol) e

sintéticos (p. ex., mestranol, etinilestradiol, dietilestilbestrol). Os

estrógenos são apresentados como agentes isolados ou associados a

progestógenos.

 

Aspectos farmacocinéticos

Os estrógenos naturais, assim como os sintéticos, são bem absorvidos pelo

trato gastrintestinal (GI); no entanto, após a absorção, eles são rapidamente

metabolizados pelo fígado, enquanto os sintéticos são degradados mais

devagar. Ocorrem graus variáveis de recirculação êntero-hepática. Os

estrógenos são, em sua maioria, absorvidos depressa pela pele e pelas

mucosas. Eles podem ser administrados como cremes intravaginais ou

óvulos vaginais, para efeito local. No plasma, os estrógenos naturais ligam-

se à albumina e a uma globulina ligante de esteroides sexuais. Os

estrógenos naturais são eliminados na urina como glicuronídeos e sulfatos.

 

Efeitos adversos

Os efeitos adversos dos estrógenos variam desde os comuns e triviais até os

fatais, mas raros: sensibilidade da mama, náuseas, vômito, anorexia,

retenção de sal e água resultando em edema, e risco aumentado de

tromboembolia. Mais detalhes sobre os efeitos adversos dos contraceptivos

são assinalados a seguir.

Usados de modo intermitente para terapia de reposição hormonal na

pós-menopausa, os estrógenos causam sangramento semelhante ao da

menstruação. Eles também causam hiperplasia endometrial associada

clinicamente à progesterona. Quando administrados em machos, resultam

em feminização.

Existe uma preocupação atual com relação aos efeitos ambientais dos

estrógenos, incluindo vários pesticidas que atuam nos receptores de

estrógeno, assim como os excretados na urina. Qualquer uma dessas origens

pode poluir águas subterrâneas e prejudicar a vida aquática selvagem, bem

como constituir riscos para a saúde humana (Adeel et al., 2017; McLachlan,

2016).

A administração de estrógenos em mulheres grávidas pode causar

anomalias genitais no recém-nascido. O carcinoma da vagina era mais

comum em mulheres jovens cujas mães receberam, no início da gravidez,

dietilestilbestrol na tentativa mal orientada de evitar o aborto (ver Capítulo

58).

Os usos clínicos dos estrógenos e antiestrógenos encontram-se

resumidos no boxe clínico a seguir. Além disso, a seguir, encontra-se a

abordagem sobre a terapia de reposição hormonal pós-menopausa (TRH).

 

■ Modulador do receptor de estrógeno

O raloxifeno, um “modulador seletivo do receptor de estrógeno” (SERM;

do inglês, selective oestrogen receptor modulator), tem efeitos

antiestrogênicos na mama e no útero, mas efeitos estrogênicos nos ossos, no

metabolismo lipídico e na coagulação sanguínea. Ele é usado na prevenção

e no tratamento da osteoporose pós-menopausa (ver Capítulo 37) e reduz a

incidência do câncer de mama, positivo para receptor de estrógeno, de

maneira semelhante ao tamoxifeno, mas com menos eventos adversos (Barrett-Connor et al., 2006; Vogel et al., 2006). A Food and Drug