Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 688 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Antibióticos antifúngicos

se faz necessário, esses agentes têm de ser usados frequentemente sob

supervisão médica estrita.

A Figura 54.1 mostra os locais de ação dos fármacos antifúngicos

comuns.

 

ANTIBIÓTICOS ANTIFÚNGICOS

 

■ Anfotericina

A anfotericina (também chamada de anfotericina B) é uma mistura de

substâncias antifúngicas derivadas de culturas de Streptomyces.

Estruturalmente, estas são moléculas muito grandes (“macrolídios”), que

pertencem ao grupo poliênico dos agentes antifúngicos.

Assim como ocorre com outros antibióticos poliênicos (ver Capítulo

52), o local de ação da anfotericina é a membrana celular fúngica. O centro

hidrofílico da molécula cria um canal iônico transmembrana, causando

graves alterações no equilíbrio iônico, incluindo perda de K+ intracelular,

alterando a permeabilidade celular e interrompendo os sistemas de

transporte. A anfotericina tem ação seletiva, ligando-se avidamente às

membranas dos fungos e de alguns protozoários, menos avidamente às

células dos mamíferos e não se ligando de forma alguma às bactérias. A

base dessa especificidade relativa é a grande avidez do fármaco pelo

ergosterol, um esterol da membrana fúngica que não é encontrado nas

células animais (onde o colesterol é o principal esterol). A anfotericina é

ativa contra a maioria dos fungos e das leveduras, e representa o padrão-

ouro no tratamento das infecções disseminadas causadas por

microrganismos, incluindo Aspergillus e Candida. A anfotericina também

reforça o efeito antifúngico da flucitosina, oferecendo combinação

sinérgica útil.

Aspectos farmacocinéticos

A anfotericina é muito pouco absorvida quando administrada oralmente, e

essa via é usada apenas para o tratamento das infecções fúngicas do trato

gastrintestinal (GI) superior. Pode ser utilizada topicamente, mas, no caso

das infecções sistêmicas, é, em geral, administrada por meio da formulação

em lipossomas, ou outras preparações que contenham lipídios, por infusão

intravenosa lenta. Isso melhora a farmacocinética e reduz o peso

(considerável) dos efeitos adversos.

A anfotericina está fortemente ligada à proteína, penetrando pouco nos

tecidos e nas membranas, embora seja encontrada em concentrações

bastante elevadas nos exsudatos inflamatórios e possa atravessar a barreira

hematencefálica mais prontamente quando as meninges estão inflamadas. A

anfotericina intravenosa é essencial no tratamento da meningite

criptocócica, muitas vezes com a flucitosina. É eliminada muito lentamente

através do rim, sendo seus traços encontrados na urina por 2 meses ou mais

após o fim da administração.

Figura 54.1 Locais de ação dos fármacos antifúngicos comuns. Os fungos são morfologicamente microrganismos muito diversos, e esse diagrama esquemático de uma célula fúngica “típica” não tem a intenção de ser estruturalmente preciso. Os principais locais de ação dos agentes antifúngicos mais importantes neste capítulo estão indicados como se vê acima nos quadros com bordas vermelhas.

Efeitos adversos

Os efeitos adversos mais comuns (na verdade, quase invariavelmente) da

anfotericina incluem calafrios, febre, tremores e cefaleia que ocorre durante

a infusão do fármaco; reações de hipotensão e de anafilaxia ocorrem nos

indivíduos mais gravemente afetados. As preparações encapsuladas em

lipossomas e complexadas em lipídios (consideravelmente mais caras) não

apresentam eficácia superior ao fármaco nativo, mas provocam reações de

infusão com muito menos frequência e com menos gravidade.

O efeito adverso mais grave da anfotericina é a toxicidade renal. Em

mais de 80% dos pacientes que recebem esse fármaco, ocorre algum grau de redução da função renal; embora isso, em geral, melhore com a

interrupção do tratamento, pode permanecer algum comprometimento da

filtração glomerular. A hipopotassemia ocorre em 25% dos pacientes

devido à ação primária do fármaco, no derrame fúngico, sobre as células

tubulares renais, o que leva à perda de potássio e, com frequência, requer

suplementação com cloreto de potássio. A hipomagnesemia também ocorre

pelo mesmo motivo. Os distúrbios acidobásicos e a anemia podem ser

problemas adicionais. Outros efeitos adversos incluem alteração da função

hepática e trombocitopenia. O fármaco é irritante para o endotélio das veias

e pode causar tromboflebite local. As injeções intratecais podem provocar

neurotoxicidade, e as aplicações tópicas causam exantema.

 

■ Nistatina

A nistatina (também chamada de fungicidina) é um antibiótico macrolídio

poliênico com estrutura similar à da anfotericina e com o mesmo

mecanismo de ação. É administrada por via oral, mas não é absorvida

através das membranas mucosas ou da pele, e seu uso é limitado

principalmente às infecções por Candida na pele, nas membranas mucosas

e no trato GI. Os efeitos adversos podem incluir náuseas, vômito e diarreia.

 

■ Griseofulvina

A griseofulvina é um agente antifúngico de espectro estreito, isolado das

culturas de Penicillium griseofulvum. Interfere na mitose pela ligação com

os microtúbulos fúngicos. Pode ser usada para tratar as infecções

dermatofíticas da pele ou das unhas, quando a administração local se

mostrar ineficaz, porém o tratamento precisa ser prolongado. Foi

amplamente superada por outros fármacos.

Aspectos farmacocinéticos A griseofulvina é administrada oralmente. É pouco hidrossolúvel, e a

absorção varia de acordo com o tipo de preparação e, em particular, com o

tamanho da partícula. É captada seletivamente pela pele recém-formada e

concentrada na queratina. A meia-vida plasmática é de 24 horas, porém fica

retida na pele por muito mais tempo. Potencialmente, induz as enzimas do

citocromo P450 e conduz a várias interações farmacológicas clinicamente

importantes.

Efeitos adversos

Os efeitos adversos com o uso de griseofulvina são infrequentes, porém o

fármaco pode causar alterações GI, cefaleia e fotossensibilidade. Reações

alérgicas (erupções cutâneas, febre) também podem ocorrer. O fármaco não

deve ser administrado a gestantes.

 

■ Equinocandinas

As equinocandinas compõem-se de um anel de seis aminoácidos ligados a

uma cadeia lateral lipofílica. Todos os fármacos nesse grupo são

modificações sintéticas da equinocandina B, que é encontrada

naturalmente no Aspergillus nidulans. Como grupo, as equinocandinas são

fungicidas para a Candida e fungistáticas para o Aspergillus. Esses

fármacos inibem a síntese do 1,3-betaglucano, um polímero de glicose

necessário à manutenção da estrutura da parede celular fúngica. Na

ausência desse polímero, as células fúngicas perdem a integridade,

ocorrendo, então, lise celular. Genes de resistência têm sido identificados na

Candida (Chen et al., 2011).

A caspofungina é ativa in vitro sobre uma grande variedade de fungos e

mostrou-se efetiva no tratamento da candidíase e de formas da aspergilose

invasiva que se revelam refratárias à anfotericina. A absorção oral é

pequena e a administração é realizada por via intravenosa, uma vez/dia. A anidulafungina é utilizada principalmente no tratamento de candidíase