Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 697 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Amebíase e fármacos amebicidas

escassez do fármaco.

As perspectivas de uma vacina eficaz contra a malária também têm

aumentado significativamente na última década, e alguns candidatos

(especialmente para P. falciparum) têm sido submetidos a ensaios clínicos

organizados pela OMS e outras instituições. A discussão vai além do

âmbito do presente capítulo, mas recomenda-se a leitura de Hoffman et al.

(2015) e Matuschewski (2017) para mais informações.

 

AMEBÍASE E FÁRMACOS AMEBICIDAS

A amebíase é causada por infecção com uma ou mais cepas de organismos

Entamoeba. A infecção pode ser assintomática ou provocar uma série de

sintomas GI, alguns dos quais podem ser graves. O principal organismo em

questão é a Entamoeba histolytica, o agente causal da disenteria amebiana,

que pode produzir uma colite grave (disenteria) e, algumas vezes, abscessos

hepáticos.

▼ A infecção é encontrada em todo o mundo, embora seja mais

frequente nos climas mais quentes, e está associada a más condições

sanitárias. Acredita-se que aproximadamente 500 milhões de pessoas

tenham a doença, resultando em cerca de 40.000 a 100.000 mortes por

ano. Considera-se que essa seja a segunda principal causa de morte por

doenças parasitárias em todo o mundo.

O microrganismo tem ciclo de vida simples, e os seres humanos são os

hospedeiros principais. A infecção, em geral disseminada por falta de

higiene, segue-se à ingestão dos cistos maduros na água ou no alimento

contaminado com fezes humanas. Os cistos infectantes passam para o

cólon, em que se desenvolvem em trofozoítos. Esses microrganismos

móveis aderem às células epiteliais do cólon, utilizando lecitina que

contém galactose na membrana da célula do hospedeiro, onde os

trofozoítos alimentam-se, multiplicam-se, tornam-se císticos e,

eventualmente, saem nas fezes, completando, assim, seu ciclo de vida.

Alguns indivíduos são “portadores” assintomáticos e abrigam o parasito

sem desenvolver a doença, mas os cistos estão presentes em suas fezes e

podem infectar outros indivíduos. Os cistos podem sobreviver fora do

corpo por pelo menos 1 semana em ambiente úmido e fresco.

O trofozoíto lisa as células da mucosa do cólon (por isso “histolítica”),

usando proteases, os amebaporos (peptídios que formam poros nas

membranas celulares), ou por induzir a apoptose da célula do

hospedeiro. O microrganismo, então, invade a submucosa, onde secreta

fatores que modificam a resposta do hospedeiro, o que, se assim não

fosse, seria fatal para o parasito. É esse processo que produz a diarreia

sanguinolenta característica e a dor abdominal, embora a infecção

abdominal crônica possa estar presente na ausência de disenteria. Em

alguns indivíduos, um granuloma amebiano (ameboma) pode estar

presente na parede intestinal. Os trofozoítos também podem migrar

através do tecido intestinal lesionado para o sangue portal e, assim, para

o fígado, dando origem ao sintoma extraintestinal mais comum da

doença: os abscessos hepáticos amebianos.

Fármacos antimaláricos

 

• A cloroquina é um esquizonticida sanguíneo que é concentrado no parasito e inibe a

heme-polimerase. Ativa por via oral; tem meia-vida de 50 horas. Efeitos adversos:

alterações GI, tonturas e urticária. As injeções em bolus intravenoso podem causar

arritmias. Atualmente, a resistência é comum

A quinina é um esquizonticida sanguíneo. Pode ser administrada por via oral ou

• intravenosa; tem meia-vida de 10 horas. Efeitos adversos: alterações do trato GI, zumbido,

visão turva e, em doses maiores, arritmias e alterações do SNC. Em geral, é administrada

em tratamento combinado com:

– Pirimetamina, antagonista do folato que age como esquizonticida sanguíneo lento

(oralmente ativo; meia-vida de 4 dias) e também

– Dapsona, sulfona (oralmente ativa; meia-vida de 24 a 48 horas) ou

– Sulfadoxina, sulfonamida de ação prolongada (oralmente ativa; meia-vida de 7 a 9

dias)

• O proguanil, um antagonista do folato, é um esquizonticida sanguíneo lento com alguma

ação nas formas hepáticas primárias do P. vivax. Oralmente ativo; meia-vida de 16 horas

• A me oquina é um agente esquizonticida sanguíneo ativo contra o P. falciparum e o P.

vivax, e age inibindo a heme-polimerase parasitária. Oralmente ativa; tem meia-vida de

30 dias. O início da ação é lento. Efeitos adversos: alterações GI, neurotoxicidade e

problemas psiquiátricos

• A primaquina é efetiva contra os hipnozoítos hepáticos, além de ativa contra os

gametócitos. Oralmente ativa; tem meia-vida de 36 horas. Efeitos adversos: alterações do

trato GI e, com doses maiores, metemoglobinemia. Hemólise eritrocítica nos indivíduos

com de ciência genética de glicose-6-fosfato desidrogenase

• Os derivados da artemisinina são amplamente usados em combinação com outros

fármacos, como a lumefantrina. São agentes esquizonticidas sanguíneos de rápida

atuação, efetivos tanto contra P. falcifarum quanto contra P. vivax

• O artesunato é hidrossolúvel e pode ser administrado por via oral ou por vias

intravenosa, intramuscular ou retal. Os efeitos adversos são raros. A resistência até o

momento é incomum

• A atovaquona (em combinação com o proguanil) é usada para prevenção e tratamento

de malária aguda, não complicada pelo P. falcifarum. A combinação de fármacos é efetiva

por via oral. É administrada em intervalos regulares durante 3 a 4 dias. Efeitos adversos:

diarreia, náuseas e vômitos. A resistência à atovaquona desenvolve-se rapidamente se

for administrada de forma isolada.

 

O uso de fármacos para tratar essa situação depende amplamente do

local e do tipo de infecção. Os fármacos de escolha para as várias formas de

amebíase são os seguintes:

 

• Metronidazol (ou tinidazol), seguido de diloxanida para a amebíase

intestinal invasiva aguda, que resulta em disenteria amebiana grave

aguda

• Diloxanida para amebíase intestinal crônica

• Metronidazol, seguido de diloxanida, para amebíase hepática

• Diloxanida para o estado sintomático de “portador”.

 

Esses agentes são frequentemente usados em combinação.

 

Metronidazol

O metronidazol destrói os trofozoítos da E. histolytica, porém não tem

efeito sobre os cistos. Trata-se do fármaco de escolha para a amebíase

invasiva do intestino ou do fígado, porém mostra-se menos efetivo contra

os microrganismos no lúmen do intestino. O metronidazol é ativado pelos microrganismos anaeróbicos para um composto que danifica o DNA,

provocando, então, apoptose em células parasitárias.

Em geral, o metronidazol é administrado por via oral e é completamente

absorvido. Preparações retais e intravenosas também estão disponíveis. É

rapidamente distribuído pelos tecidos, alcançando concentrações elevadas

nos líquidos corporais, incluindo o líquido cerebrospinal. Uma parte é

metabolizada, porém a maior parte é eliminada na urina.

Os efeitos adversos são leves. O fármaco deixa um sabor metálico e

amargo na boca, porém, em doses terapêuticas, provoca poucos efeitos

adversos. Foram relatadas alterações GI menores, bem como sintomas do

SNC (tonturas, cefaleia, neuropatias sensitivas). O fármaco provoca reação

semelhante ao dissulfiram com o álcool (ver Capítulo 50), o qual deve ser

estritamente evitado. O metronidazol não deve ser usado na gestação.

O tinidazol é similar ao metronidazol em seu mecanismo de ação e nos

efeitos adversos, porém é eliminado mais lentamente, com meia-vida de 12

a 14 horas.

 

Diloxanida

A diloxanida ou, mais comumente, seu éster insolúvel, o furoato de

diloxanida, é o fármaco de escolha no caso do paciente infectado

assintomático e, com frequência, é administrada preventivamente, após a

doença ter sido revertida com o metronidazol. Ambos os fármacos têm ação

amebicida direta, afetando os parasitos antes do encistamento. O furoato de

diloxanida é administrado por via oral e age sem ser absorvido. Tem

excelente perfil de segurança, mas pode haver efeitos gastrintestinais

adversos ou outros efeitos.

Outros fármacos que eventualmente são usados incluem o antibiótico

paromomicina (ver Leitura recomendada para mais informação). TRIPANOSSOMÍASE E FÁRMACOS TRIPANOSSOMICIDAS