Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 515 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Patogênese da doença de Parkinson

Figura 41.4 Diagrama simplificado da organização do sistema motor extrapiramidal

e os defeitos que ocorrem na doença de Parkinson (DP) e na doença de Huntington. Em geral, a atividade dos neurônios dopaminérgicos nigroestriatais provoca excitação dos neurônios estriatonigrais e inibição dos neurônios do estriado, que se projetam para o globo pálido. Por causa das diferentes vias envolvidas, a atividade dos neurônios GABAérgicos na substância negra é suprimida, liberando a restrição sobre o tálamo e sobre o córtex, causando estimulação motora. Na DP, a via dopaminérgica da substância negra (parte compacta) até o estriado está comprometida. Na doença de Huntington, a via GABAérgica estriadopalidal está comprometida, produzindo efeitos opostos às alterações na DP.

 

PATOGÊNESE DA DOENÇA DE PARKINSON

Assim como nas outras alterações neurodegenerativas, a lesão neuronal na

DP é causada por enoveladura proteica errada e agregação proteica,

ajudadas e incitadas por outros vilões familiares, especificamente

excitotoxicidade, disfunção mitocondrial, estresse oxidativo, inflamação e

apoptose. Os aspectos da patogênese e dos modelos animais da DP são

descritos por Duty e Jenner (2011).

 

■ Neurotoxinas

Uma nova luz foi lançada sobre a possível etiologia da DP por um evento

acidental. Em 1982, um grupo de jovens viciados na Califórnia desenvolveu

subitamente uma forma excepcionalmente grave de DP (conhecida como a

síndrome do “viciado congelado”), e a causa foi rastreada até o composto 1-

metIL-4-fenIL-1,2,3,6-tetra-hidropiridina (MPTP), que era um

contaminante na preparação ilegal de um substituto da heroína (Langston,

1985). A MPTP causa destruição irreversível dos neurônios dopaminérgicos

nigroestriados em várias espécies e produz um estado DP-símile nos

primatas. A MPTP é convertida em um metabólito tóxico, MPP+, pela

enzima monoamina oxidase (MAO, especificamente por intermédio do

subtipo MAO-B localizado nas células gliais; ver Capítulos 15 e 48). A MPP+ é captada pelo sistema de transporte da dopamina e, assim, age

seletivamente nos receptores dopaminérgicos; ela inibe as reações de

oxidação mitocondrial, produzindo estresse oxidativo. A MPTP parece ser

seletiva na destruição dos neurônios nigroestriados e não afeta neurônios

dopaminérgicos em nenhum outro lugar – a razão para isso é desconhecida.

Também é menos eficaz nos ratos do que nos primatas; no entanto, os ratos

apresentaram alguma suscetibilidade. A selegilina, um inibidor seletivo da

MAO-B, impede a neurotoxicidade induzida pela MPTP, bloqueando sua

conversão a MPP+. A seleginina é também usada no tratamento da DP (p.

526); ao inibir a metabolização da dopamina, ela também poderia bloquear

a ativação metabólica de uma substância MPTP-símile putativa endógena

ou ambiental, envolvida na causa da DP. É possível que a própria dopamina

seja a culpada, porque a oxidação da dopamina origina metabólitos

potencialmente tóxicos. Independentemente de a ação da MPTP refletir ou

não a patogênese natural da DP, o modelo MPTP é uma ferramenta

experimental muito útil para testar possíveis tratamentos.

O comprometimento da função mitocondrial é uma característica da

doença nos seres humanos. Vários herbicidas, como a rotenona, que

inibem seletivamente a função mitocondrial, causam uma síndrome DP-

símile nos animais. A DP em seres humanos é mais comum nas áreas

agrícolas do que nas cidades, sugerindo que toxinas ambientais possam ser

um fator na sua causa.

 

■ Aspectos moleculares

▼ A DP, bem como várias outras alterações neurodegenerativas, está

associada ao desenvolvimento de agregados proteicos intracelulares,

conhecidos como corpos de Lewy, em várias partes do cérebro. Eles

consistem, na sua maior parte, em α-sinucleína, uma proteína sináptica

presente em grandes quantidades nos cérebros normais. Fatos recentes

sugerem que a α-sinucleína pode atuar como uma proteína priônica e

que a DP é, na verdade, uma doença causada por príons (Olanow e

Brundin, 2013). A α-sinucleína normalmente apresenta uma estrutura

em hélice α. No entanto, em determinadas circunstâncias, tal como uma

duplicação ou triplicação genética ou mutação genética, pode sofrer

uma mudança conformacional e apresentar uma estrutura em folhas β

que é polimerizada e vai formar agregados tóxicos e placas amiloides.

Ocorrem mutações em tipos raros da DP hereditária (p. 523). Crê-se que

a alteração conformacional e a agregação tornem a proteína resistente à

degradação nas células, fazendo com que se acumule nos corpos de

Lewy. Os pacientes de Parkinson que receberam transplantes de

neurônios dopaminérgicos fetais (p. 527), com o passar do tempo,

desenvolveram corpos de Lewy nos neurônios transplantados. Presume-

se que a α-sinucleína alterada tenha migrado dos tecidos originais para

os tecidos transplantados.

É possível (Lotharius e Brundin, 2002) que a função normal da α-sinucleína

esteja relacionada com a reciclagem da vesícula sináptica e que a forma

alterada perca essa funcionalidade, o que resulta em comprometimento do

armazenamento vesicular da dopamina. Isso pode levar ao aumento na

dopamina citosólica, cuja degradação produz ERO e, com isso,

neurotoxicidade. Consistente com a hipótese da α-sinucleína, outra mutação

associada à DP (parquina) também envolve uma proteína que participa na

degradação intracelular das proteínas degeneradas.

▼ Outras mutações gênicas que foram identificadas como fatores de

risco para a DP de início precoce codificam proteínas envolvidas na

função mitocondrial, tornando as células mais suscetíveis ao estresse

oxidativo. Assim, quadro similar à patogênese da DA emerge

lentamente. A α-sinucleína com erro no enovelamento proteico,

facilitada pela superexpressão, pelas mutações genéticas ou

possivelmente por fatores ambientais, acumula-se na célula como

resultado do comprometimento da degradação proteica (resultado da

parquina defeituosa) na forma dos corpos de Lewy, os quais, por

mecanismos desconhecidos, comprometem a sobrevivência da célula.

Se o estresse oxidativo for aumentado, como resultado de isquemia,

venenos mitocondriais ou mutações de certas proteínas mitocondriais, o

resultado é a morte da célula.

 

Doença de Parkinson

 

• Doença degenerativa que compromete os núcleos da base, causando hipocinesia, tremor

em repouso e rigidez muscular, frequentemente acompanhada de demência e disfunção

autônoma

• Está associada a agregados de α-sinucleína (uma proteína normalmente envolvida com a

reciclagem de vesículas) na forma de corpos de Lewy característicos

• Frequentemente é idiopática, porém pode ser consequente a um AVE ou infecção viral;

pode ser induzida por fármacos (antipsicóticos). Podem também ocorrer, raramente,

formas hereditárias, em associação a diversas mutações genéticas, incluindo a α-

sinucleína

• Associada à degeneração dos neurônios dopaminérgicos da via nigroestriada que dá

origem aos sintomas motores, bem como a uma neurodegeneração mais generalizada

que resulta em demência e depressão

• Pode ser induzida por 1-metil-4-fenil-1,2,3,6-tetrahidropiridina (MPTP), uma

neurotoxina que afeta neurônios dopaminérgicos. Neurotoxinas ambientais similares,

assim como fatores genéticos, podem estar implicadas na doença de Parkinson humana. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA DOENÇA DE PARKINSON