Rang e Dale: Farmacologia
Seção 6 Tópicos Especiais
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Este capítulo aborda os efeitos nocivos dos fármacos, tanto no contexto de
uso terapêutico – as chamadas reações adversas medicamentosas – quanto
na superdosagem deliberada ou acidental. Estamos preocupados aqui com
os efeitos adversos graves, por vezes ameaçadores da vida ou irreversíveis,
algo bem diferente dos efeitos adversos menores que praticamente todos os
fármacos produzem, como descrito ao longo do livro. Considera-se a
classificação das reações adversas, seguida pelos aspectos tóxicos do
fármaco: testes de toxicidade no desenvolvimento dos fármacos,
mecanismos gerais de lesão e de morte celular induzidos por toxinas,
mutagênese e carcinogênese, teratogênese e reações alérgicas.
INTRODUÇÃO
É de Paracelso, alquimista do século XVI, o crédito pelo aforismo de que
todos os fármacos são venenosos: “(…) a dosagem faz com que seja veneno
ou remédio.” Atualmente, os efeitos tóxicos dos fármacos continuam a ser
clinicamente relevantes no contexto da superdosagem (o autoenvenenamento corresponde a aproximadamente 10% dos casos de
atendimento de emergência no Reino Unido; em contraste, o
envenenamento homicida é extremamente raro). Alguns indivíduos
suscetíveis podem experimentar toxicidade associada à dosagem, inclusive
na dosagem terapêutica, e algumas dessas suscetibilidades são determinadas
pela genética. Existe agora uma ampla gama de testes genéticos para
identificação e predição do risco de indivíduos suscetíveis, embora
relativamente poucos destes testes sejam usados por rotina na prática clínica
atual (ver Capítulo 12).
Testes rigorosos em animais (p. 740), incluindo testes de
carcinogenicidade, teratogenicidade e de toxicidade órgão-específica, estão
sendo realizados com os novos fármacos em potencial durante seu
desenvolvimento (ver Capítulo 60), o que, em muitos casos, leva ao
abandono do composto antes de seu teste em seres humanos. Esses estudos
de toxicidade integram um conjunto de informações, rotineiramente
submetido às agências reguladoras pela indústria farmacêutica quando
procura aprovar a comercialização de um novo fármaco. Apesar disso,
efeitos nocivos são muitas vezes encontrados após a comercialização de um
fármaco para uso humano, devido à emergência de efeitos adversos não
detectados em animais. Em geral, esses danos são referidos como “reações
adversas aos fármacos” (RAF) e representam motivo de grande
preocupação pelas autoridades reguladoras dos medicamentos, as quais são
encarregadas de zelar pela segurança, bem como pela eficácia dos
fármacos. Eventos imprevisíveis são particularmente preocupantes.
Algumas RAF são previsíveis como consequência do principal efeito
farmacológico do fármaco e são relativa e facilmente reconhecidas, mas
algumas (p. ex., reações imunológicas) são imprevisíveis e, por vezes, até
mesmo graves, podendo ocorrer apenas em alguns pacientes.