Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 31 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Enzimas

Figura 3.1 Tipos de alvos para a ação de fármacos.

 

A seguir, apresenta-se um resumo dos diferentes grupos de canais iônicos

e de suas funções.

 

ENZIMAS

Vários fármacos têm como alvo enzimas (Figura 3.1C). Com frequência, a

molécula do fármaco é um substrato análogo que age como um inibidor

competitivo da enzima (p. ex., o captopril, agindo sobre a enzima conversora

de angiotensina; ver Capítulo 23); em outros casos, a ligação é irreversível e

não competitiva (p. ex., o ácido acetilsalicílico, agindo na ciclo-oxigenase;

ver Capítulo 27). Os fármacos podem também agir como falsos substratos,

em que a molécula do fármaco sofre transformações químicas, dando origem

a um produto anômalo que perturba a via metabólica normal. Um bom

exemplo é o fármaco antineoplásico fluoruracila, que substitui a uracila

como intermediário na biossíntese das purinas, mas não pode ser convertido

em timidilato, bloqueando, assim, a síntese do DNA e impedindo a divisão

celular (ver Capítulo 57).

Deve-se mencionar também que os fármacos podem exigir degradação

enzimática para convertê-los, da forma inativa, um profármaco (ver Capítulo

10), para a forma ativa (p. ex., o enalapril é convertido em enalaprilato por

esterases, que inibem a enzima de conversão da angiotensina). Além disso,

como discutido no Capítulo 58, a toxicidade do fármaco frequentemente

resulta da conversão enzimática da molécula do fármaco para um metabólito

reativo. O paracetamol (ver Capítulo 27) causa dano ao fígado por esta via.

No que concerne à ação primária do fármaco, é um efeito colateral

indesejável, mas de enorme importância prática.

 

TRANSPORTADORES

Em geral, a movimentação de íons e pequenas moléculas polares orgânicas

através das membranas celulares ocorre por meio dos canais ou da ação de

uma proteína transportadora (Figura 3.1D), visto que as espécies permanentes

são, em geral, insuficientemente lipossolúveis para penetrar nas membranas

lipídicas por si mesmas. Muitos desses transportadores são conhecidos;

exemplos de alguns com importância farmacológica em particular incluem

aqueles responsáveis pelo transporte de íons e muitas moléculas orgânicas

pelo túbulo renal, pelo epitélio intestinal e pela barreira hematencefálica, o

transporte de Na+ e Ca2+ para fora das células e a captação dos precursores de

neurotransmissores (como a colina) ou dos próprios neurotransmissores

(como as aminas e os aminoácidos) pelos terminais nervosos, bem como o

transporte de moléculas de fármacos e seus metabólitos através de

membranas celulares e barreiras epiteliais. Haverá mais discussões a respeito

de transportadores nos próximos capítulos.

Em muitos casos, a hidrólise do ATP fornece a energia necessária para o

transporte de substâncias contra seu gradiente eletroquímico. Tais proteínas

transportadoras incluem um local para ligação de ATP distinto e são

denominadas transportadores ABC (cassete de ligação de ATP). Exemplos

importantes incluem a bomba de sódio (Na+-K+-ATPase; ver Capítulo 4) e os

transportadores de resistência a múltiplos fármacos (RMF), que ejetam

fármacos citotóxicos de células cancerígenas e microbianas, conferindo

resistência a esses agentes terapêuticos (ver Capítulo 57). Em outros casos,

incluindo os transportadores neurotransmissores, o transporte de moléculas

orgânicas está associado ao transporte de íons (geralmente Na+), ambos na

mesma direção (simporte) ou na direção oposta (antiporte), e, portanto, se

baseia no gradiente eletroquímico de Na+ gerado pela bomba de sódio

dependente de ATP. As proteínas transportadoras incorporam um local de

reconhecimento que as torna específicas para uma espécie particular a ser

transportada, e esses locais de reconhecimento também podem ser alvos para fármacos cujo efeito é bloquear o sistema de transporte (p. ex., a cocaína