Rang e Dale: Farmacologia
Estrutura e função do sistema vascular
específico do que no músculo estriado voluntário ou cardíaco (ver Capítulo
4). Os vasoconstritores e vasodilatadores atuam aumentando ou reduzindo a
[Ca2+]i e/ou alterando a sensibilidade da maquinaria contrátil a [Ca2+]i. A
Figura 4.10 (ver Capítulo 4) resume os mecanismos celulares envolvidos no
controle de contração e relaxamento da musculatura lisa. O controle do
tônus muscular liso vascular por diferentes mediadores é descrito em outros
capítulos (norepinefrina, no Capítulo 15; 5-HT, no Capítulo 16;
prostanoides, no Capítulo 18; óxido nítrico [NO], no Capítulo 21; peptídios
natriuréticos cardíacos, no Capítulo 22; e hormônio antidiurético, no
Capítulo 34). Aqui focaremos em primeiro lugar os mediadores derivados
do endotélio e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, para depois
observarmos as ações dos fármacos vasoativos e seus usos no tratamento de
alguns problemas clínicos (hipertensão, insuficiência cardíaca, choque,
doença vascular periférica e doença de Raynaud).
ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA VASCULAR
O sangue é ejetado a cada batimento cardíaco do ventrículo esquerdo para a
aorta, de onde flui rapidamente para os órgãos por meio de grandes artérias
de condução. Sucessivas ramificações levam, por meio de artérias
musculares, a arteríolas (endotélio cercado por uma camada de músculo liso
com apenas uma célula de espessura) e capilares (tubos desprovidos de
endotélio), em que ocorrem trocas gasosas e de nutrientes. Os capilares
coalescem para formar vênulas pós-capilares, vênulas e veias cada vez
maiores, levando, por meio da veia cava, ao coração direito. O sangue
desoxigenado ejetado do ventrículo direito percorre a artéria pulmonar, os
capilares pulmonares e as veias pulmonares de volta ao átrio esquerdo.1
Pequenas artérias musculares e arteríolas são os principais vasos de resistência, enquanto as veias são vasos de capacitância que contêm uma
grande fração do volume sanguíneo total. Em termos de função cardíaca,
portanto, as artérias e as arteríolas regulam a pós-carga, enquanto as veias e
os vasos pulmonares regulam a pré-carga dos ventrículos (ver Capítulo 22).
As propriedades viscoelásticas das grandes artérias determinam a
complacência arterial (p. ex., o grau em que o volume do sistema arterial
aumenta quando a pressão se eleva). Esse é um fator importante em um
sistema circulatório impulsionado por uma bomba intermitente, como o
coração. O sangue ejetado do ventrículo esquerdo é acomodado pela
distensão da aorta, que absorve as pulsações e oferece um fluxo
relativamente constante aos tecidos. Quanto maior a complacência da aorta,
maior a eficácia em amortecer as flutuações2 e menores as oscilações da
pressão arterial com cada batimento cardíaco (i. e., a diferença entre a
pressão sistólica e a diastólica, conhecida como “pressão diferencial”). A
reflexão3 da onda de pressão a partir dos pontos de ramificação na árvore
vascular também sustenta a pressão arterial durante a diástole. Em pessoas
jovens, isso auxilia a preservar uma perfusão constante de órgãos vitais,
como os rins, durante a diástole.
Figura 23.1 Mediadores derivados do endotélio. O esquema mostra alguns dos mediadores mais importantes para contração e relaxamento derivados do endotélio; muitos (ou até mesmo todos) os vasoconstritores também causam mitogênese do músculo liso, enquanto os vasodilatadores comumente inibem a mitogênese. 5-HT, 5-hidroxitriptamina; A, angiotensina; ECA, enzima conversora de angiotensina; ACh, acetilcolina; AT1, receptor AT da angiotensina; BK, bradicinina; CNP, peptídio natriurético C; DAG, diacilglicerol; 1
EDHF, fator hiperpolarizante derivado do endotélio; EET, ácido epoxieicosatetraenoico; ET-1, endotelina-1; ET , receptores A (e B) de endotelina; G , proteína G; IL-1, interleucina-A/(B) q 1; IP, receptor de prostanoide I; IP , 1,4,5-trifosfato de inositol; K , canal de potássio 3 IR
retificador de entrada; + + Na /K-ATPase, bomba eletrogênica; NO, óxido nítrico; NPR, receptor de peptídio natriurético; PG, prostaglandina; TP, receptor de prostanoide T.
No entanto, a reflexão excessiva pode aumentar patologicamente a
pressão sistólica na aorta porque, quanto menos complacente for a aorta,
maior a velocidade da onda de pulso. Consequentemente, as ondas de
pressão retornadas (refletidas) colidem com a onda de pulso do batimento
cardíaco seguinte mais cedo no ciclo cardíaco. Isso resulta do endurecimento da aorta pela perda de elastina durante o envelhecimento,