Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 379 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos para doença intestinal crônica

contêm caulim, pectina, greda, carvão, metilcelulose e atapulgita ativada

(silicato de alumínio e magnésio). Sugere-se que esses agentes possam atuar

adsorvendo microrganismos ou toxinas, alterando a flora intestinal ou

revestindo e protegendo a mucosa do intestino, mas não há evidências

sólidas sobre isso. Por vezes, o caulim é oferecido misturado com a morfina

(p. ex., a mistura de caulim e morfina, British Pharmacopoeia).

 

FÁRMACOS PARA DOENÇA INTESTINAL CRÔNICA

Essa categoria compreende a síndrome do intestino irritável (SII) e as

doenças inflamatórias intestinais (DII). A SII é caracterizada por crises de

diarreia, constipação intestinal ou dor abdominal. Sua etiologia é incerta,

mas fatores psicológicos podem ter alguma participação. O tratamento é

sintomático, usando-se uma dieta rica em fibras mais loperamida ou um

laxativo, se necessário.

A eluxadolina é um agonista misto dos receptores opioides μ e κ e um

antagonista do receptor δ que foi recentemente autorizado para o tratamento

da SII com diarreia. Atua nos receptores opioides em neurônios entéricos

que regulam a motilidade e a sensação visceral no trato GI, resultando na

desaceleração do trânsito intestinal e na melhora da consistência das fezes.

A eluxadolina apresenta baixa biodisponibilidade oral, considerando-se ter

um potencial limitado para efeitos adversos nos receptores opioides no SNC

(Corsetti e Whorwell, 2016).

A linaclotida recebeu recentemente aprovação regulamentar para o

tratamento sintomático da SII moderada a grave com obstipação em

adultos. É um peptídio sintético estruturalmente relacionado com os

peptídios de guanilina endógenos. A linaclotida é um agonista do receptor

da guanilato ciclase C na superfície luminal do epitélio intestinal, aumentando a concentração de monofosfato de guanosina cíclico (cGMP)

nas células intestinais. Isso resulta em maior secreção de íons cloro,

bicarbonato e fluido intestinal, além de um trânsito intestinal mais rápido.

Os ensaios clínicos demonstraram melhora nos movimentos intestinais, bem

como redução do desconforto abdominal, embora a diarreia seja um efeito

adverso reconhecido (Corsetti e Whorwell, 2016).

A colite ulcerativa e a doença de Crohn são doenças inflamatórias

intestinais que afetam o cólon ou o íleo. Trata-se de distúrbios inflamatórios

autoimunes, que podem ser graves e progressivos. Por isso, necessitam de

tratamento com fármacos anti-inflamatórios e imunossupressores (ver

Capítulo 27) e, ocasionalmente, ressecção cirúrgica. Para o tratamento,

frequentemente são usados os agentes a seguir.

 

Glicocorticoides

Os glicocorticoides são potentes anti-inflamatórios e estão comentados

detalhadamente nos Capítulos 27 e 34. Os fármacos de escolha são, em

geral, prednisolona ou budesonida, embora outros possam ser usados. São

administrados por via oral ou localmente no intestino, por supositórios ou

enemas.

 

Aminossalicilatos

Embora os glicocorticoides sejam úteis para as crises agudas de DII, eles

não são ideais para o tratamento a longo prazo devido aos seus efeitos

colaterais. Por isso, a manutenção da remissão tanto na colite ulcerativa

quanto na doença de Crohn, em geral, é obtida com os aminossalicilatos,

apesar de serem menos úteis nesta última condição.

A sulfassalazina consiste no sulfonamídico sulfapiridina ligado ao

ácido 5-aminossalicílico (5-ASA). Este último constitui a parte ativa quando liberado no cólon. Seu mecanismo de ação é obscuro; pode reduzir

a inflamação por remoção de radicais livres, inibindo a produção de PG e

leucotrienos e/ou por diminuição da quimiotaxia dos neutrófilos e da

produção de superóxidos. Seus efeitos adversos são diarreia,

hipersensibilidade aos salicilatos e nefrite intersticial. O 5-ASA não é

absorvido, mas a parte sulfapiridina, que parece terapeuticamente inerte

nesse caso, é absorvida, e seus efeitos adversos são aqueles associados às

sulfonamidas (ver Capítulo 52).

Compostos mais novos nessa classe, que presumivelmente

compartilham um mecanismo de ação semelhante, incluem mesalazina (o

próprio 5-ASA), olsalazina (um 5-ASA ligado por uma ponte que é

hidrolisada por bactérias residentes no cólon) e balsalazida (um

profármaco a partir do qual o 5-ASA também é liberado após hidrólise da

ligação diazo).

 

Outros fármacos

O metotrexato e os imunossupressores ciclosporina, tacrolimo,

azatioprina e 6-mercaptopurina (ver Capítulo 27) também são usados,

por vezes, em pacientes com DII grave. Os biofármacos infliximabe,

adalimumabe e golimumabe, anticorpos monoclonais direcionados contra

o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) (ver Capítulo 27), também têm sido

usados com sucesso. Esses fármacos são caros, e sua principal indicação é

para a doença de Crohn moderada e grave, não responsiva a

glicocorticoides ou imunomoduladores.

Novos agentes biofarmacêuticos foram desenvolvidos para alvos

alternativos na via inflamatória. O vedolizumabe é um anticorpo

monoclonal humanizado com propriedades de ligação específica para a

integrina α4β7 nos linfócitos T-auxiliares que migram para o intestino. A inibição da integrina α4β7 interrompe a interação desses linfócitos com a