Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos para doença intestinal crônica
contêm caulim, pectina, greda, carvão, metilcelulose e atapulgita ativada
(silicato de alumínio e magnésio). Sugere-se que esses agentes possam atuar
adsorvendo microrganismos ou toxinas, alterando a flora intestinal ou
revestindo e protegendo a mucosa do intestino, mas não há evidências
sólidas sobre isso. Por vezes, o caulim é oferecido misturado com a morfina
(p. ex., a mistura de caulim e morfina, British Pharmacopoeia).
FÁRMACOS PARA DOENÇA INTESTINAL CRÔNICA
Essa categoria compreende a síndrome do intestino irritável (SII) e as
doenças inflamatórias intestinais (DII). A SII é caracterizada por crises de
diarreia, constipação intestinal ou dor abdominal. Sua etiologia é incerta,
mas fatores psicológicos podem ter alguma participação. O tratamento é
sintomático, usando-se uma dieta rica em fibras mais loperamida ou um
laxativo, se necessário.
A eluxadolina é um agonista misto dos receptores opioides μ e κ e um
antagonista do receptor δ que foi recentemente autorizado para o tratamento
da SII com diarreia. Atua nos receptores opioides em neurônios entéricos
que regulam a motilidade e a sensação visceral no trato GI, resultando na
desaceleração do trânsito intestinal e na melhora da consistência das fezes.
A eluxadolina apresenta baixa biodisponibilidade oral, considerando-se ter
um potencial limitado para efeitos adversos nos receptores opioides no SNC
(Corsetti e Whorwell, 2016).
A linaclotida recebeu recentemente aprovação regulamentar para o
tratamento sintomático da SII moderada a grave com obstipação em
adultos. É um peptídio sintético estruturalmente relacionado com os
peptídios de guanilina endógenos. A linaclotida é um agonista do receptor
da guanilato ciclase C na superfície luminal do epitélio intestinal, aumentando a concentração de monofosfato de guanosina cíclico (cGMP)
nas células intestinais. Isso resulta em maior secreção de íons cloro,
bicarbonato e fluido intestinal, além de um trânsito intestinal mais rápido.
Os ensaios clínicos demonstraram melhora nos movimentos intestinais, bem
como redução do desconforto abdominal, embora a diarreia seja um efeito
adverso reconhecido (Corsetti e Whorwell, 2016).
A colite ulcerativa e a doença de Crohn são doenças inflamatórias
intestinais que afetam o cólon ou o íleo. Trata-se de distúrbios inflamatórios
autoimunes, que podem ser graves e progressivos. Por isso, necessitam de
tratamento com fármacos anti-inflamatórios e imunossupressores (ver
Capítulo 27) e, ocasionalmente, ressecção cirúrgica. Para o tratamento,
frequentemente são usados os agentes a seguir.
Glicocorticoides
Os glicocorticoides são potentes anti-inflamatórios e estão comentados
detalhadamente nos Capítulos 27 e 34. Os fármacos de escolha são, em
geral, prednisolona ou budesonida, embora outros possam ser usados. São
administrados por via oral ou localmente no intestino, por supositórios ou
enemas.
Aminossalicilatos
Embora os glicocorticoides sejam úteis para as crises agudas de DII, eles
não são ideais para o tratamento a longo prazo devido aos seus efeitos
colaterais. Por isso, a manutenção da remissão tanto na colite ulcerativa
quanto na doença de Crohn, em geral, é obtida com os aminossalicilatos,
apesar de serem menos úteis nesta última condição.
A sulfassalazina consiste no sulfonamídico sulfapiridina ligado ao
ácido 5-aminossalicílico (5-ASA). Este último constitui a parte ativa quando liberado no cólon. Seu mecanismo de ação é obscuro; pode reduzir
a inflamação por remoção de radicais livres, inibindo a produção de PG e
leucotrienos e/ou por diminuição da quimiotaxia dos neutrófilos e da
produção de superóxidos. Seus efeitos adversos são diarreia,
hipersensibilidade aos salicilatos e nefrite intersticial. O 5-ASA não é
absorvido, mas a parte sulfapiridina, que parece terapeuticamente inerte
nesse caso, é absorvida, e seus efeitos adversos são aqueles associados às
sulfonamidas (ver Capítulo 52).
Compostos mais novos nessa classe, que presumivelmente
compartilham um mecanismo de ação semelhante, incluem mesalazina (o
próprio 5-ASA), olsalazina (um 5-ASA ligado por uma ponte que é
hidrolisada por bactérias residentes no cólon) e balsalazida (um
profármaco a partir do qual o 5-ASA também é liberado após hidrólise da
ligação diazo).
Outros fármacos
O metotrexato e os imunossupressores ciclosporina, tacrolimo,
azatioprina e 6-mercaptopurina (ver Capítulo 27) também são usados,
por vezes, em pacientes com DII grave. Os biofármacos infliximabe,
adalimumabe e golimumabe, anticorpos monoclonais direcionados contra
o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) (ver Capítulo 27), também têm sido
usados com sucesso. Esses fármacos são caros, e sua principal indicação é
para a doença de Crohn moderada e grave, não responsiva a
glicocorticoides ou imunomoduladores.
Novos agentes biofarmacêuticos foram desenvolvidos para alvos
alternativos na via inflamatória. O vedolizumabe é um anticorpo
monoclonal humanizado com propriedades de ligação específica para a
integrina α4β7 nos linfócitos T-auxiliares que migram para o intestino. A inibição da integrina α4β7 interrompe a interação desses linfócitos com a