Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 665 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos utilizados para tratar tuberculose

por outras razões.

 

FÁRMACOS UTILIZADOS PARA TRATAR TUBERCULOSE

Durante séculos, a TB foi uma doença fatal, mas a introdução da

estreptomicina no fim dos anos 1940, seguida da isoniazida e, nos anos

1960, da rifampicina e do etambutol revolucionou o tratamento, e a TB

chegou a ser vista como uma doença de tratamento fácil. Infelizmente, já

não o é. As espécies com maior virulência ou com resistência a vários

fármacos são agora comuns (Bloom e Small, 1998), e a TB atualmente

provoca mais mortes do que qualquer outro agente isolado, embora as taxas

de infecção estejam decaindo lentamente. Foi estimado que um terço da

população mundial (2 bilhões de pessoas) seja portadora de Mycobacterium

tuberculosis; desse total, 10% irão desenvolver a doença a certa altura de

sua vida. Em 2015, a OMS estimou que 10,4 milhões de pessoas (incluindo

1 milhão de crianças) contraíram a doença e cerca de 1,8 milhão morreu

como resultado da infecção. De forma alarmante, quase meio milhão de

pessoas desenvolveu TB multidrogarresistente (MDR). Os países mais

pobres da África e da Ásia carregam o fardo da doença, em parte devido a

uma sinergia sinistra entre as micobactérias (p. ex., M. tuberculosis, M.

avium-intracellulare) e o HIV. As infecções com este último aumentam o

risco de contrair a doença em 20 a 30 vezes, e cerca de 25% das mortes

associadas a HIV são causadas por TB.

Os tratamentos são liderados pelos fármacos de primeira linha:

isoniazida, rifampicina, rifabutina, etambutol e pirazinamida. Os

fármacos de segunda linha incluem capreomicina, ciclosserina,

estreptomicina (raramente usada no Reino Unido), claritromicina e

ciprofloxacino. Esses são utilizados para tratar infecções provavelmente resistentes aos fármacos de primeira linha ou quando os agentes de primeira

linha não podem ser usados devido a efeitos adversos. Dois novos

fármacos, bedaquilina e delamanida, foram recentemente introduzidos

para uso em casos de TB multirresistente, normalmente em conjunto com

outros agentes.

Para diminuir a probabilidade de surgimento de microrganismos

resistentes, é geralmente obrigatório o tratamento combinado de fármacos,

o qual costuma envolver:

 

• Fase inicial (cerca de 2 meses) com uma combinação de isoniazida,

rifampicina e pirazinamida (mais etambutol, no caso de suspeita de se

tratar de um microrganismo resistente)

• Segunda fase (cerca de 4 meses) de tratamento com isoniazida e

rifampicina. São necessários tratamentos mais prolongados em

pacientes com meningite, problemas nas articulações, ósseos ou

infecção resistente.

 

Isoniazida

A atividade antibacteriana da isoniazida está limitada às micobactérias. Ela

interrompe o crescimento dos microrganismos em repouso (i. e.,

bacteriostáticos), mas também pode eliminar as bactérias que se dividem. A

isoniazida penetra livremente nas células dos mamíferos e, por isso, revela-

se eficaz contra microrganismos intracelulares. A isoniazida é um

profármaco que deve ser ativado pelas enzimas bacterianas antes de poder

exercer sua atividade inibitória na síntese dos ácidos micólicos,

constituintes importantes da parede celular específica das micobactérias.

Pode ocorrer resistência ao fármaco, pela penetração reduzida na

micobactéria, mas não se verifica resistência cruzada com outros fármacos

tuberculostáticos.

▼ Aspectos farmacocinéticos.A isoniazida é rapidamente absorvida

pelo sistema digestório e apresenta ampla distribuição nos tecidos e

líquidos corporais, incluindo o LCR. Um ponto importante é a boa

penetração nas lesões tuberculosas “caseosas” (i. e., nas lesões

necróticas com consistência tipo queijo). O metabolismo, que envolve

acetilação, depende de fatores genéticos que determinam se uma pessoa

é um acetilador lento ou rápido do fármaco (ver Capítulo 12); os

inativadores lentos apresentam uma resposta terapêutica melhor. A

meia-vida nos inativadores lentos é de 3 horas, e de 1 hora nos

inativadores rápidos. A isoniazida é excretada na urina – uma parte

inalterada e outra sob a forma acetilada ou outra forma inativa.

Os efeitos adversos dependem da dosagem e ocorrem em cerca de 5%

dos pacientes, sendo o mais comum as reações alérgicas cutâneas.

Foram relatados outros efeitos adversos, incluindo febre,

hepatoxicidade, alterações hematológicas, artroses e vasculite. Efeitos

adversos que envolvem o sistema nervoso central ou periférico

resultam, majoritariamente, da deficiência em piridoxina e são comuns

em pacientes subnutridos, a menos que evitado por suplementação desta

vitamina. A isoniazida pode causar anemia hemolítica em pacientes

com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase e diminui o

metabolismo de antiepilépticos como fenitoína, etossuximida e

carbamazepina, resultando em aumento da concentração no plasma e

toxicidade desses fármacos.

 

Rifampicina

A rifampicina (também denominada, em alguns países, rifampina) atua

via ligação e inibição de RNA polimerase DNA-dependente nas células

procarióticas, mas não nas eucaróticas (ver Capítulo 51). Trata-se de um dos antituberculosos conhecidos mais ativos e também é ativo contra

hanseníase e grande parte das bactérias gram-positivas, bem como em

muitas espécies gram-negativas. Penetra nas células fagocitárias e elimina

os bacilos intracelulares da tuberculose. A resistência pode desenvolver-se

rapidamente em um processo único em que uma mutação cromossômica

modifica o alvo na RNA polimerase DNA-dependente (ver Capítulo 51).

▼ Aspectos farmacocinéticos.A rifampicina é administrada por via oral

e exibe boa distribuição nos tecidos e líquidos corporais (incluindo o

LCR), conferindo uma tonalidade laranja a saliva, expectoração,

lágrimas e suor. É parcialmente excretada na urina e parcialmente na

bile, parte da qual entra no ciclo êntero-hepático. O metabólito retém a

atividade antibacteriana, mas é mal absorvido pelo sistema digestório. A

meia-vida é de 1 a 5 horas e torna-se inferior durante o tratamento

devido à indução de enzimas microssômicas hepáticas.

Os efeitos adversos são relativamente pouco frequentes. Os mais

comuns são erupções cutâneas, febre e distúrbios GI. Foram relatados

danos no fígado acompanhados por icterícia, que, em uma proporção

muito pequena de pacientes, revelaram-se fatais; a função hepática deve

ser avaliada antes de iniciar o tratamento. A rifampicina acelera o

metabolismo dos hepatócitos (ver Capítulo 11), aumentando a

degradação de varfarina, glicocorticoides, analgésicos narcóticos,

hipoglicemiantes orais, dapsona e estrógenos (daí ser desaconselhado o

uso de contraceptivos orais).

 

Etambutol

O etambutol afeta apenas as micobactérias. É captado por estas e exerce

efeito bacteriostático 24 horas após, provavelmente pela inibição da síntese micobacteriana da parede celular. A resistência surge rapidamente se for

utilizado de forma isolada.

▼ Aspectos farmacocinéticos.O etambutol é administrado por via oral e

é bem absorvido; pode atingir concentrações terapêuticas no LCR, no

caso da meningite tuberculosa. No sangue, é captado pelos eritrócitos e

liberado lentamente. O etambutol é parcialmente metabolizado e

excretado na urina.

Os efeitos adversos são pouco comuns, e o mais significativo é a neurite

óptica, relacionada com a dosagem; há maior probabilidade no caso de

função hepática diminuída. Isso resulta em distúrbios visuais que se

manifestam inicialmente por alteração das cores, em particular do

vermelho e do verde, ocorrendo decréscimo progressivo da acuidade

visual. Aconselha-se a vigilância da visão das cores antes e durante os

tratamentos prolongados.

 

Pirazinamida

A pirazinamida é inativa em pH neutro, mas turbeculostática em pH ácido.

É eficaz contra os microrganismos intracelulares nos macrófagos porque,

após a fagocitose, os microrganismos ficam contidos em fagolisossomos,

em que o pH é baixo. O fármaco provavelmente inibe a síntese de ácidos

graxos. A resistência desenvolve-se rapidamente, mas a resistência cruzada

não ocorre com isoniazida.

▼ Aspectos farmacocinéticos.O fármaco é bem absorvido após

administração oral e é distribuído por todo o corpo, penetrando nas

meninges. É excretado pelos rins, principalmente por filtração

glomerular.

Os efeitos adversos incluem gota, associada às altas concentrações de

uratos no plasma. Também foram relatados transtornos GI, mal-estar e

febre. Os danos graves, em nível hepático, decorrentes das elevadas

dosagens, já foram problemáticos, mas são menos prováveis devido aos

tratamentos com baixas dosagens/períodos curtos que agora são

utilizados; no entanto, a função hepática deve ser avaliada antes do

tratamento.

 

Capreomicina

A capreomicina é um antibiótico de ligação peptídica administrado por

injeção intramuscular. Acredita-se que o seu principal mecanismo de ação

consista na sua ligação à unidade ribossômica 70S, inibindo, assim, a

síntese proteica bacteriana, mas pode ter outros efeitos na membrana celular

bacteriana.

Fármacos antituberculosos

 

Para evitar o surgimento de microrganismos resistentes, empregam-se tratamentos

combinados (p. ex., três fármacos inicialmente e, em seguida, um regime de dois fármacos).

Fármacos de primeira linha

• A isoniazida elimina as micobactérias que se reproduzem ativamente nas células do

hospedeiro. Administrada por via oral, penetra nas lesões necróticas e também no LCR. Os

“acetiladores lentos” apresentam boa resposta. Baixa toxicidade. A de ciência de

piridoxina acentua o risco de neurotoxicidade. Não existe resistência cruzada com outros

agentes

• A rifampicina é um fármaco potente, administrado por via oral, que inibe a RNA

polimerase bacteriana. Penetra no LCR. Os efeitos adversos são pouco frequentes (mas

podem ocorrer lesões graves no fígado). Induz as enzimas hepáticas metabolizadoras dos

fármacos. A resistência pode desenvolver-se rapidamente

Etambutol inibe o crescimento das micobactérias. É administrado por via oral e penetra

• no LCR. Os efeitos adversos não são comuns, mas pode ocorrer neurite oftalmológica. A

resistência pode desenvolver-se rapidamente

• A pirazinamida tem ação tuberculostática nas micobactérias intracelulares.

Administrada por via oral, penetra no LCR. A resistência pode desenvolver-se rapidamente.

Os efeitos adversos incluem aumento dos uratos plasmáticos e toxicidade hepática em

dosagens elevadas.

Fármacos de segunda linha

• A capreomicina é administrada por via intramuscular. Os efeitos adversos incluem danos

nos rins e no nervo vestibulococlear

• A ciclosserina é um agente de amplo espectro. Inibe a síntese do peptidoglicano em uma

fase inicial. Administrada por via oral, penetra no LCR. Os efeitos adversos alteram

principalmente o SNC

A estreptomicina, um antibiótico aminoglicosídio, atua por meio da inibição da síntese

•

proteica bacteriana. É administrada por via intramuscular. Os efeitos adversos são

ototoxicidade (principalmente vestibular) e nefrotoxicidade.

 

▼ Os efeitos adversos são muitos, e o fármaco deve ser usado com extremo

cuidado. Incluem lesões nos rins e no nervo vestibulococlear, com

consequentes surdez e ataxia. O fármaco não deve ser administrado em

combinação com estreptomicina ou outros fármacos que possam causar

surdez.

 

Ciclosserina

A ciclosserina é um antibiótico de amplo espectro que inibe o crescimento

de muitas bactérias, incluindo coliformes e micobactérias. É hidrossolúvel e

destruída em pH ácido. Atua via inibição competitiva da síntese da parede

celular bacteriana; isso acontece ao prevenir a formação da D-alanina e do

dipeptídio D-Ala-D-Ala, o qual é adicionado à cadeia lateral inicial do

tripeptídio no ácido N-acetilmurâmico, ou seja, impede a finalização da

construção do bloco principal de peptidoglicano (ver Capítulo 51; Figura

51.3). É absorvida por via oral e distribuída nos tecidos e líquidos corporais,

incluindo LCR. Seu uso está limitado à TB resistente a outros fármacos.