Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 748 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Desenvolvimento clínico

adicional antes de conceder a aprovação.

O trabalho de desenvolvimento não clínico continua por todo o período

dos ensaios clínicos, quando muito mais dados têm de ser gerados,

particularmente em relação à toxicidade em longo prazo e reprodutiva nos

animais. A falha de um composto neste estágio é muito dispendiosa, e

realizam-se esforços consideráveis, com o intuito de eliminar os compostos

potencialmente tóxicos, muito mais precocemente no processo de

descoberta do fármaco pelo uso dos métodos in vitro ou até mesmo in

silico.

 

DESENVOLVIMENTO CLÍNICO

O desenvolvimento clínico prossegue ao longo de quatro fases sobrepostas

distintas de ensaios clínicos (ver Capítulo 8). Para informação detalhada,

ver Friedman et al. (2010).

 

• Estudos de fase I são realizados em um grupo pequeno de voluntários

(em geral, 20 a 80), frequentemente em jovens saudáveis do sexo

masculino, mas por vezes em pacientes; o seu objetivo é procurar por

sinais de quaisquer potenciais efeitos perigosos; por exemplo, na função

cardiovascular,5 respiratória, hepática ou renal; tolerância (o fármaco

produz algum sintoma desagradável; p. ex., cefaleia, náuseas e

sonolência?) e propriedades farmacocinéticas (o fármaco é bem

absorvido? A absorção é afetada pelos alimentos? Qual a curva de

concentração plasmática? Existe evidência de acumulação ou de

cinética não linear?). Os estudos de fase I podem, ainda, testar efeitos

farmacodinâmicos em voluntários, por vezes chamados de estudos

“prova de conceito” (p. ex., um novo composto analgésico bloqueia a

dor induzida de forma experimental em humanos? Como o efeito

desejado varia com a dose?). Da mesma forma que as autoridades

reguladoras requerem estudos GLP, os ensaios clínicos têm de ser

realizados sob condições igualmente restritas de Boa Prática Clínica

(GCP; do inglês, Good Clinical Practice)

• Estudos de fase II são realizados em um grupo de pacientes (em geral

100 a 300), sendo desenhados para determinar os efeitos

farmacodinâmicos clinicamente benéficos nos participantes e, se tal for

confirmado, para estabelecer o regime de dose a ser utilizado nos

estudos definitivos de fase III. Muitas vezes, tais estudos vão abranger

distúrbios clínicos distintos (p. ex., depressão, estados de ansiedade e

fobias) para identificar as possíveis indicações terapêuticas para o novo

composto e a dose necessária. Quando novos alvos terapêuticos estão

sendo estudados, apenas após completar esta fase II de ensaios é que a

equipe descobre se a sua hipótese inicial estava ou não correta, sendo

que a falta do efeito esperado é uma razão frequente de insucesso

• Os estudos de fase III são os ensaios clínicos definitivos, aleatórios e

duplos-cegos, realizados comumente como ensaios multicêntricos em

milhares de pacientes, visando à comparação do novo fármaco com as

alternativas ou placebos comumente usados. Esses estudos são

extremamente dispendiosos, difíceis de organizar, e costumam levar

anos para se completarem, particularmente se o tratamento tiver como

objetivo retardar a progressão de doença crônica. Não é incomum que

um fármaco aparentemente muito efetivo nos grupos limitados de

pacientes, testado na fase II, pareça bem menos impressionante sob as

condições mais rigorosas dos ensaios clínicos de fase III.

 

▼ Como mencionado anteriormente, a condução do processo deve

estar de acordo com um código conhecido como GCP, que cobre cada

detalhe do grupo de pacientes, dos métodos de coleta de dados, do

registro da informação, da análise estatística e da documentação.6

Cada vez mais, na atualidade, é necessária a inclusão de análise

farmacoeconômica nos estudos de fase III (ver Capítulo 1), de modo

que sejam analisados, além dos benefícios clínicos, também os

benefícios econômicos do novo tratamento.

No final da fase III, o fármaco será submetido à autoridade reguladora

relevante para o licenciamento. O relatório exigido para isso é uma

compilação maciça e detalhada dos dados pré-clínicos e clínicos. A

avaliação pela autoridade reguladora geralmente demora 1 ano ou mais,

e atrasos adicionais frequentemente surgem quando aspectos da

submissão devem ser esclarecidos ou se mais dados forem exigidos.

Eventualmente, cerca de 2/3 das submissões conseguem aprovação para

o mercado. Em geral, apenas 11,5% dos compostos que entram na fase I

são eventualmente aprovados (Munos, 2009). O aumento dessa

proporção por intermédio de melhor seleção dos compostos no estágio

laboratorial é um dos principais desafios para a indústria farmacêutica.

 

• Os estudos de fase IV compreendem o acompanhamento pós-

comercialização obrigatório, destinado a detectar quaisquer efeitos

adversos raros e em longo prazo que resultem do uso do fármaco em

cenário clínico com muitos milhares de pacientes. Tais eventos podem

limitar o uso do fármaco a grupos particulares de pacientes, ou até

mesmo levar à sua suspensão.7

 

■ Divulgação e publicação de dados dos ensaios

Recentemente, tem se manifestado preocupação de que os ensaios clínicos

que mostram resultados negativos ou inconclusivos têm menos probabilidade de ser publicados do que os que têm resultados positivos,