Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 173 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Eventos elétricos da transmissão nas sinapses colinérgicas rápidas

liberação de outros mediadores.

 

EVENTOS ELÉTRICOS DA TRANSMISSÃO NAS SINAPSES COLINÉRGICAS RÁPIDAS

Ao agir sobre a membrana pós-sináptica de uma sinapse nicotínica

(neuromuscular ou ganglionar), a ACh provoca grande aumento na

permeabilidade dessa membrana a cátions, particularmente ao Na+ e ao K+

e, em menor grau, ao Ca2+. O influxo de Na+ resultante despolariza a

membrana pós-sináptica. Essa despolarização mediada por transmissor é

denominada potencial de placa terminal (ppt) em uma fibra muscular

esquelética, ou potencial excitatório pós-sináptico rápido (peps rápido) na

sinapse ganglionar. Em uma fibra muscular, um ppt localizado espalha-se

para as partes adjacentes eletricamente excitáveis da fibra muscular; quando

sua amplitude alcança o limiar de excitabilidade, inicia-se um potencial de

ação, que se propaga para o restante da fibra e desencadeia uma contração

(ver Capítulo 4).

Em uma célula nervosa, a despolarização do corpo celular ou de um

dendrito pelo peps rápido produz um fluxo de corrente local. Essa corrente

despolariza a região do cone axonal da célula, de onde se inicia um

potencial de ação se o peps for grande o suficiente. A Figura 14.3 mostra

que a tubocurarina, um fármaco que bloqueia os receptores pós-sinápticos

da nACh, reduz a amplitude do peps rápido até que ele não seja mais capaz

de dar início a um potencial de ação, embora a célula ainda seja capaz de

responder quando estimulada eletricamente. A maioria das células

ganglionares é alimentada por vários axônios pré-sinápticos, e é necessário

que exista atividade em mais que uma em simultâneo para formar a ação

celular pós-ganglionar (ação integrativa). Na junção neuromuscular, apenas uma fibra nervosa alimenta cada fibra muscular – tal como uma estação de

transmissão em uma linha de telégrafo, a sinapse assegura uma transmissão

1:1 confiável, apesar de a impedância defasada entre a fina fibra nervosa e a

fibra muscular ser muito maior. A amplitude do ppt é normalmente mais

que suficiente para dar início a um potencial de ação – de fato, a

transmissão ainda ocorre quando o ppt é reduzido em 70 a 80%, e apresenta

uma larga margem de segurança, de modo que flutuações na liberação do

transmissor (p. ex., durante uma estimulação repetitiva) não afetam a

transmissão.

▼ A transmissão que ocorre na sinapse ganglionar é mais complexa

que na junção neuromuscular. Embora o evento primário em ambas seja

a despolarização (o peps rápido ou o ppt) produzida pela ACh agindo

sobre os receptores nicotínicos, esta é seguida, no gânglio, por uma

sucessão de respostas pós-sinápticas muito mais lentas:

Figura 14.3 Transmissão colinérgica em uma célula ganglionar autônoma. Os

registros foram obtidos de uma célula ganglionar parassimpática de cobaia por meio de um microeletrodo intracelular. O artefato observado no início de cada traçado mostra o momento da estimulação do nervo pré-ganglionar. A tubocurarina (TC), um antagonista da acetilcolina, torna o potencial excitatório pós-sináptico (peps) menor. No registro (C), ele foi apenas o suficiente para desencadear o potencial de ação e, em (D), ficou abaixo do limiar. Após o bloqueio completo, a estimulação antidrômica (não mostrada) ainda produzirá um

potencial de ação (conferir bloqueio por despolarização, Figura 14.4). (De Blackman, J.G. et al., 1969. J Physiol 201, 723.)

• Um potencial inibitório (hiperpolarizante) pós-sináptico lento (pips lento) que dura de 2 a 5

s. Esse fenômeno reflete principalmente aumento da condutância ao K+ mediada por receptores muscarínicos (M ), mas outros transmissores, como a dopamina e a adenosina, 2

também contribuem

• Um peps lento, que dura cerca de 10 s. Esse fenômeno é produzido pela ACh agindo sobre

receptores M + , que fecham os canais de K

1

• Um peps lento tardio, que dura de 1 a 2 min. Acredita-se que esse fenômeno seja mediado por

um cotransmissor peptídico, a substância P em alguns gânglios, e um peptídio semelhante ao

hormônio liberador de gonadotrofinas em outros (ver Capítulo 13). Assim como o peps lento, o peps lento tardio é produzido por diminuição da condutância ao K+.

 

Bloqueio por despolarização

▼ O bloqueio por despolarização ocorre nas sinapses colinérgicas

quando os receptores nicotínicos excitatórios são ativados de modo

persistente, e resulta da diminuição da excitabilidade elétrica da célula

pós-sináptica. A Figura 14.4 ilustra esse processo. A aplicação de

nicotina a um gânglio simpático ativa os receptores nicotínicos

excitatórios e causa a despolarização da célula, que inicialmente leva à

descarga de potenciais de ação. Após alguns segundos, essa descarga

cessa, e a transmissão é bloqueada. A perda de excitabilidade elétrica é

demonstrada pelo fato de que estímulos elétricos também não são

capazes de produzir um potencial de ação. A principal razão para a

perda da excitabilidade elétrica durante um período de despolarização

mantida consiste no fato de que os canais de sódio sensíveis à voltagem

(ver Capítulo 4) se tornam inativados (i. e., refratários) e não são mais

capazes de se abrir em resposta a um estímulo despolarizante breve.

Um segundo tipo de efeito também pode ser visto no experimento

mostrado na Figura 14.4. Depois de a nicotina ter agido por vários

minutos, a célula se repolariza parcialmente, e sua excitabilidade

elétrica retorna; no entanto, apesar disso, a transmissão permanece

bloqueada. Esse tipo de bloqueio secundário, não despolarizante,

também ocorre na junção neuromuscular, quando são utilizadas doses

repetidas do fármaco despolarizante suxametônio2 (ver adiante). O

principal fator responsável pelo bloqueio secundário (conhecido

clinicamente como bloqueio de fase II) parece ser a dessensibilização

dos receptores (ver Capítulo 2). Essa dessensibilização faz com que a

ação despolarizante do fármaco bloqueador decline, mas a transmissão

permanece bloqueada porque os receptores estão dessensibilizados a

ACh.

Transmissão colinérgica

 

• A síntese da acetilcolina (ACh) requer:

– Colina, que penetra no neurônio com o auxílio de transportadores

– Acetilação da colina, que utiliza a acetil-coenzima A como fonte de grupos acetil e

envolve a colina acetiltransferase, uma enzima citosólica encontrada apenas em

neurônios colinérgicos

• A ACh é armazenada em concentrações elevadas no interior de vesículas sinápticas, e sua

entrada nessas vesículas é feita por intermédio de transportadores

• 2+ A liberação de ACh ocorre por exocitose mediada por Ca. Na junção neuromuscular, um

impulso nervoso pré-sináptico libera de 100 a 500 vesículas

• Na junção neuromuscular, a ACh age sobre receptores nicotínicos promovendo abertura de

canais de cátions. A abertura desses canais produz uma rápida despolarização (potencial

de placa terminal), que normalmente dá início a um potencial de ação na bra muscular.

A transmissão em outras sinapses colinérgicas “rápidas” (p. ex., ganglionares) é

semelhante

• Nas sinapses colinérgicas “rápidas”, a ACh é hidrolisada dentro de aproximadamente 1 ms

pela acetilcolinesterase; por essa razão, um potencial de ação pré-sináptico produz apenas

um potencial de ação pós-sináptico

• A transmissão mediada por receptores muscarínicos é muito mais lenta, e as estruturas

sinápticas não estão tão bem de nidas. Em muitas dessas situações, a ACh atua como um

modulador (i. e., no qual o mediador atua indiretamente alterando a e ciência da

transmissão em vez de agir como um transmissor direto – ver Capítulo 13)

• Principais mecanismos do bloqueio farmacológico: inibição da captação da colina, inibição

da liberação de ACh, bloqueio dos receptores pós-sinápticos ou dos canais iônicos e

despolarização pós-sináptica persistente.