Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 383 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Controle da glicemia

associa à obesidade. O diabetes melito, conhecido desde os tempos antigos,

é assim denominado devido à excreção de grandes quantidades de açúcar

por meio da urina, causada pela ação diurética osmótica da alta

concentração de glicose na urina. O diabetes tem aumentado rapidamente

para proporções epidêmicas (a par com a obesidade, ver Capítulo 33), e

suas consequências são terríveis – acelera a aterosclerose (infarto cerebral e

do miocárdio, gangrena e amputação de membros), insuficiência renal,

neuropatias e cegueira.

Neste capítulo será descrito, em primeiro lugar, o controle do açúcar no

sangue. A segunda parte será dedicada aos diferentes tipos de diabetes

melito e o papel dos fármacos no seu tratamento. O diabetes, em conjunto

com a obesidade (ver Capítulo 33), a hipertensão (ver Capítulo 23), a

dislipidemia (ver Capítulo 24) e a infiltração gordurosa do fígado,

englobam a síndrome metabólica, um conjunto de patologias comuns e um

problema crescente associado a muitas condições fatais. Diante disso, foram

desenvolvidos fármacos que atuam em alguns dos muitos mecanismos que

ficam alterados na síndrome metabólica, incluindo vários dirigidos ao

controle do açúcar sanguíneo. Contudo, por enquanto, o sucesso clínico tem

sido apenas modesto.

 

CONTROLE DA GLICEMIA

A glicose é a fonte obrigatória de energia para o cérebro no adulto, e o

controle fisiológico da glicemia reflete as necessidades de manter o aporte

adequado de combustível em face de uma ingestão intermitente de

alimentos e de uma demanda metabólica variável. Com a alimentação estão

disponíveis quantidades superiores ao que é necessário imediatamente, e as

calorias em excesso são armazenadas sob a forma de glicogênio ou gordura. Assim, durante o jejum, essas reservas energéticas devem ser mobilizadas

de maneira altamente regulada. O hormônio regulador mais importante é a

insulina, cujas ações são descritas a seguir. O aumento da glicemia estimula

a secreção de insulina (Figura 32.1), enquanto sua redução reduz a secreção

do hormônio. O efeito da glicose na secreção de insulina depende de a carga

de glicose ser administrada por via intravenosa ou via oral. A glicose

administrada por via oral é mais eficaz no estímulo da secreção da insulina,

pois estimula a liberação dos hormônios incretinas pelo intestino, os quais

promovem a secreção de insulina (ver Figura 32.1). A glicose é menos

eficaz nessa estimulação em pacientes com diabetes (Figura 32.2). A

hipoglicemia, causada pelo excesso de insulina exógena, não só reduz a

secreção da insulina endógena como também provoca a secreção de um

conjunto de hormônios “contrarreguladores”, incluindo o glucagon, a

epinefrina (ver Capítulo 15), os glicocorticoides e o hormônio do

crescimento (ver Capítulo 34), e todos promovem aumento da glicemia.

Seus principais efeitos sobre a captação de glicose e o metabolismo dos

carboidratos são resumidos na Tabela 32.1 e comparados com aqueles

exercidos pela insulina.

Os rins têm também um papel importante na regulação do açúcar, pois

quantidades substanciais de glicose (aproximadamente 900 mmol ou 160 g)

são filtradas por dia do plasma para os túbulos renais (Abdul-Ghani et al.,

2015). Contudo, naqueles com homeostase normal da glicose, é excretada

bem pouca ou nenhuma glicose na urina, porque os cotransportadores de

sódio-glicose (SGLT) tubulares renais recuperam toda a glicose filtrada. Os

cotransportadores são proteínas transmembrana grandes (670 aminoácidos)

que transportam ativamente glicose contra o gradiente de concentração por

um mecanismo que envolve o acoplamento com o transporte de sódio

(Abdul-Ghani et al., 2011). Há duas variantes de SGLT no rim. O SGLT2 (localizado no segmento inicial convoluto do túbulo proximal) tem baixa

afinidade, mas alta capacidade, e é responsável por recuperar cerca de 90%

da glicose filtrada renal, enquanto os restantes 10% são recuperados pelo

SGLT1, de alta afinidade e baixa capacidade (localizado mais adiante no

segmento reto distal do túbulo proximal; DeFronzo et al., 2012). Também

se encontra SGLT1 no coração, nos pulmões e no trato gastrintestinal

(TGI), enquanto o SGLT2 está localizado principalmente no rim, pelo que

os inibidores seletivos de SGLT2 podem promover a excreção de glicose

sem influenciar o transporte dela em outros órgãos.

O papel evolucionário do SGLT no rim tem sido atribuído aos

benefícios de retenção de glicose em tempos em que a fome ou a escassez

de alimentos foram um lugar-comum. No entanto, quando a capacidade

renal para a reabsorção de glicose é excedida no diabetes, entra na urina

(glicosúria) e causa diurese osmótica (poliúria), a qual, por sua vez, resulta

em desidratação, sede e aumento da vontade de beber (polidipsia). As

concentrações de glicose cronicamente elevadas em pacientes com diabetes

levam a suprarregulação da expressão de SGLT2 e maior reabsorção da

glicose, reduzindo, desse modo, a glicosúria à custa do agravamento da

hiperglicemia (DeFronzo et al., 2012). Como o SGLT2 é um

cotransportador que reabsorve íons sódio juntamente com a glicose, sua

expressão elevada causa também retenção de sal e hipertensão.

 

Tabela 32.1 Efeito dos hormônios sobre a glicemia.

 

Principais estímulos para

Hormônio Principais ações Principal efeito

a secreção

Principal hormônio regulador

Insulina ↑ Captação de glicose

↑ Síntese de glicogênio Elevação aguda da glicemia ↓ Glicemia

Incretinas (GIP e GLP-1)

↓ Glicogenólise

↓ Gliconeogênese

Principais hormônios contrarreguladores

↑ Glicogenólise

Glucagon

↑ Gliconeogênese

 

Epinefrina ↑ Glicogenólise Hipoglicemia (i. e., glicemia

< 3 mmol/ℓ); p. ex., com

↓ Captação de glicose

exercício, estresse, refeições ↑ Glicemia

↑ com elevado teor de proteína Gliconeogênese

Glicocorticoides

etc.

↓ Captação e utilização de glicose

Hormônio do crescimento ↓ Captação de glicose

GIP, peptídio inibidor gástrico; GLP-1, peptídeo glucagon-símile-1.

Figura 32.1 Fatores que regulam a secreção de insulina. A glicemia é o mais importante. Os fármacos utilizados para estimular a secreção de insulina são mostrados nos quadros com bordas vermelhas. O glucagon potencializa a liberação de insulina, mas se opõe a alguns de seus efeitos periféricos e aumenta os níveis glicêmicos. GIP, peptídio inibidor gástrico (gastric inhibitory peptide); TGI, trato gastrintestinal; GLP-1, peptídio glucagon-símile-1 (glucagon-like peptide-1).