Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 620 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tolerância e dependência

longa, e a avaliação de cotinina urinária proporciona uma indicação útil do

consumo de nicotina.

Os cigarros eletrônicos funcionam ao aquecer um líquido (geralmente

propilenoglicol e glicerina) para gerar um vapor contendo nicotina, o qual é

então inalado (um processo comumente chamado de vapear). Tal ato

impede a inalação de substâncias químicas tóxicas presentes na fumaça do

tabaco. Os dispositivos mais antigos de cigarros eletrônicos somente

disponibilizavam quantidades mínimas de nicotina ao usuário. No entanto, a

tecnologia avançou rapidamente e dispositivos de nova geração foram

desenvolvidos para fornecer mais nicotina mais rápido, mas ainda assim

não tão rápido quanto o cigarro tradicional (ver Figura 49.4).

Outras vias de administração de nicotina que oferecem uma

disponibilidade mais sustentada são usadas por fumantes que estão tentando

parar de fumar. Um adesivo transdérmico de nicotina aplicado por 24 horas

leva a concentração plasmática de nicotina a aumentar para 75 a 150 nmol/l

ao longo de 6 horas e permanecer quase constante por cerca de 20 horas. A

administração por spray nasal ou goma de mascar resulta em um tempo

intermediário entre aquele do fumo e o do adesivo de nicotina.

 

TOLERÂNCIA E DEPENDÊNCIA

Assim como acontece com outras substâncias que geram dependência, três

processos separados – dependência psicológica, dependência física e

tolerância – contribuem para o estado geral de dependência, no qual o uso

da droga se torna compulsivo. Para revisões sobre vício e nicotina,

consultar De Biasi et al. (2011) e Leslie et al. (2013).

Os efeitos da nicotina associados à estimulação ganglionar periférica

demonstram rápida tolerância, talvez como resultado da dessensibilização dos nAChR. Com altas doses de nicotina, essa dessensibilização produz um

bloqueio da transmissão ganglionar (ver Capítulo 14). A tolerância aos

efeitos centrais da nicotina (p. ex., na resposta de excitação) é muito menor

do que na periferia. O aumento no número de nAChR no cérebro,

produzido pela administração crônica de nicotina em animais, também

ocorre em fumantes pesados. Como os efeitos celulares da nicotina estão

diminuídos, é possível que os locais de ligação adicional representem

receptores dessensibilizados em lugar de funcionais.

A capacidade da nicotina de gerar vício deve-se aos efeitos da

substância, combinados com o ritual de usá-la (Le Foll e Goldberg, 2005).

Os camundongos preferem beber solução de nicotina diluída em vez de

água se puderem escolher, e em uma situação na qual puxar uma alavanca

leve à injeção de nicotina – propositalmente em altas doses – eles

rapidamente aprendem a autoadministrá-la. De forma semelhante, macacos

que foram treinados para fumar, ao receberem uma recompensa por tal

hábito, continuarão a fazê-lo espontaneamente (i. e., sem recompensa) se o

meio do fumo contiver nicotina, mas não se, em vez disso, for oferecido

tabaco sem nicotina. Entretanto, é pouco provável que seres humanos se

tornem viciados em nicotina oferecida por meio de adesivos, sugerindo que

outros fatores também estejam envolvidos, como a liberação pulsátil

controlada associada ao fumo e ao ato de vapear.

Assim como outras substâncias viciantes, a nicotina causa excitação da

via mesolímbica da recompensa e aumento da liberação de DA no núcleo

accumbens. Camundongos transgênicos que não têm a subunidade β2 do

nAChR perdem o efeito de recompensa da nicotina e o seu efeito de

liberação de DA, confirmando a importância dos subtipos de nAChR que

contêm β2 e da liberação mesolímbica de DA em resposta à nicotina. Em

contraste com camundongos normais, os camundongos mutantes não podem ser induzidos a se autoadministrarem nicotina, apesar de o terem

feito com cocaína.

Em comparação com a euforia, a indução de dependência física envolve

os receptores nicotínicos com subunidades α5 e β4 na via do núcleo

habênulo-interpeduncular. Uma síndrome de abstinência física ocorre em

seres humanos ao parar de fumar. Suas principais características são

aumento da irritabilidade, dificuldade no desempenho de tarefas

psicomotoras, agressividade e transtornos do sono. A síndrome de

abstinência é muito menos grave que a produzida pelos opioides, e pode ser

amenizada com a reposição da nicotina. Dura de 2 a 3 semanas, embora a

fissura por cigarros persista por muito mais tempo do que isso; as recaídas

durante as tentativas de cessação comumente ocorrem quando a síndrome

de abstinência física já pertence um passado distante.