Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 430 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Controle neuro-hormonal do sistema reprodutor feminino

O hormônio antimülleriano (AMH) é uma glicoproteína que controla o

desenvolvimento sexual no feto e a formação de folículos na mulher adulta

(Behringer, 1994). Ele é ativado em um momento específico no feto

masculino e inibe o desenvolvimento do trato reprodutivo feminino (ductos

de Müller) no embrião masculino. O AMH é também produzido na mulher

adulta, regulando a formação de folículos nos ovários. É produzido por

células granulosas, as quais rodeiam os óvulos, e é um biomarcador da

reserva ovárica e em condições tais como a síndrome do ovário policístico.

 

CONTROLE NEURO-HORMONAL DO SISTEMA REPRODUTOR FEMININO

O aumento da secreção de hormônios do hipotálamo e da adeno-hipófise

ocorre em meninas na puberdade, estimulando a secreção de estrógenos

pelos ovários. Isso causa a maturação dos órgãos reprodutores e o

desenvolvimento das características sexuais secundárias, assim como o

crescimento acelerado, seguido do fechamento das epífises dos ossos

longos. A partir de então, os esteroides sexuais, estrógenos e progesterona,

estão envolvidos no ciclo menstrual e na gravidez. As Figuras 36.1 e 36.2

mostram um esquema simplificado.

O ciclo menstrual começa com a menstruação, que perdura por 3 a 6

dias, durante a qual a camada superficial do endométrio uterino é eliminada.

O endométrio regenera-se durante a fase folicular do ciclo, após o término

do fluxo menstrual. Um fator liberador, o GnRH, é secretado por neurônios

peptidérgicos do hipotálamo, que os libera de modo pulsátil cerca de uma

descarga por hora. O GnRH estimula a adeno-hipófise a liberar hormônios

gonadrotróficos (Figura 36.1) – FSH e LH. Estes atuam nos ovários para

promover o desenvolvimento de pequenos grupos de folículos, cada um

contendo um óvulo. Um dos folículos desenvolve-se mais rapidamente que

os outros e forma o folículo de Graaf (Figuras 36.1 e 36.2E), que secreta

estrógenos, e o restante se degenera. O folículo de Graaf maduro consiste

em células da teca e granulosas dispostas ao redor de um núcleo preenchido

por líquido, dentro do qual está o óvulo. Os estrógenos são responsáveis

pela fase proliferativa da regeneração endometrial, que ocorre de 5 a 6 dias

até a metade do ciclo (Figura 36.2B e F). Durante essa fase, o endométrio

aumenta em espessura e vascularização, e no pico de secreção de estrógeno

há secreção cervical abundante de muco, de pH 8 a 9, rico em proteínas e

carboidratos, que facilita a entrada dos espermatozoides. O estrógeno tem

efeito de retroalimentação negativa na adeno-hipófise, diminuindo a

liberação de gonadotrofina tanto durante a administração crônica de

estrógeno como na contracepção oral (ver adiante). Em contraste, a

secreção endógena elevada de estrógeno exatamente antes da metade do

ciclo sensibiliza as células liberadoras de LH da hipófise à ação do GnRH e

induz o surto de secreção de LH na metade do ciclo (Figura 36.2C). Isso

causa rápido inchaço e ruptura do folículo de Graaf, resultando na ovulação.

Se a fertilização ocorrer, o óvulo fertilizado desce as tubas uterinas em

direção ao útero, começando a dividir-se no trajeto.

Figura 36.1 Controle hormonal do sistema reprodutor feminino. O folículo de Graaf (FG) é mostrado em desenvolvimento à esquerda, evoluindo para formar o corpo lúteo (CL) à direita, após o ovócito (o) ter sido liberado. FSH, hormônio foliculoestimulante; GnRH, hormônio liberador de gonadotrofina; LH, hormônio luteinizante.

 

Estimuladas pelo LH, as células do folículo rompido proliferam e

desenvolvem-se no corpo lúteo, que secreta progesterona. A progesterona

atua, por sua vez, no endométrio preparado pelo estrógeno, estimulando a

fase secretória do ciclo, que se traduz em endométrio suscetível à

implantação do óvulo fertilizado. Durante essa fase, o muco cervical torna-

se mais viscoso, menos alcalino e, em geral, menos oportuno para o espermatozoide. A progesterona exerce retroalimentação negativa no

hipotálamo e na hipófise, diminuindo a liberação de LH. Ela também tem

efeito termogênico, causando, por ocasião da ovulação, elevação da

temperatura corporal em cerca de 0,5°C, sendo mantida até o final do ciclo.

Se não ocorrer a implantação de um óvulo fertilizado, a secreção de

progesterona para, desencadeando a menstruação. Se a implantação ocorrer,

o corpo lúteo continua a secretar progesterona e, pelo seu efeito no

hipotálamo e na adeno-hipófise, previne uma ovulação adicional. O córion

(um antecessor da placenta) secreta gonadotrofina coriônica humana (hCG;

do inglês, human chorionic gonadotropin), que mantém o revestimento do

útero durante a gravidez. Por motivos que não são óbvios fisiologicamente,

a hCG tem uma ação farmacológica adicional na estimulação da ovulação,

explorada terapeuticamente no tratamento da infertilidade (ver adiante). À

medida que a gravidez prossegue, a placenta desenvolve outras funções

hormonais e secreta uma variedade de hormônios, incluindo

gonadotrofinas, progesterona e estrógenos. A progesterona secretada

durante a gravidez controla o desenvolvimento do alvéolo secretor da

glândula mamária, enquanto o estrógeno estimula os ductos lactíferos. Após

o parto, o estrógeno, juntamente com a prolactina (ver Capítulo 34), é

responsável pela estimulação e manutenção da lactação, enquanto doses

suprafisiológicas de estrógeno suprimem a lactação.

Figura 36.2 Concentrações plasmáticas de hormônios ovarianos e gonadotrofinas

em mulheres durante ciclos menstruais normais. Os valores são a média desvio padrão de 40 mulheres. As áreas sombreadas indicam a extensão inteira das observações. Dia 1 é o início da menstruação. As concentrações médias do hormônio no plasma (A a D) são mostradas em relação ao dia do ciclo menstrual. E e F mostram, na forma de diagrama, as mudanças no folículo ovariano e no endotélio durante o ciclo. Ovulação no dia 14 do ciclo menstrual ocorre com o pico de hormônio luteinizante (LH) na metade do ciclo, representado pela linha tracejada vertical. A, arteríolas, FSH, hormônio foliculoestimulante; V, vênulas. (Segundo van de Wiele, R. L., Dyrenfurth, I. 1974. Pharmacol. Rev. 25, 189-217.)

 

Figura 36.3 Via biossintética para andrógenos e estrógenos, com os locais de ação

dos fármacos (ver Capítulo 34, Figura 34.5). A finasterida é usada na hiperplasia prostática benigna; e o anastrozol, para tratar o câncer de mama em mulheres pós-menopáusicas.

 

Os estrógenos, progestógenos (fármacos progesterona-símiles),

andrógenos e gonadotrofinas são descritos a seguir. A Figura 36.3 mostra as

vias biossintéticas.