Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 260 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Introdução

Neste capítulo, serão examinados os efeitos de fármacos sobre o coração,

sob três tópicos principais:

 

1. Frequência e ritmo.

2. Contração do miocárdio.

3. Metabolismo e fluxo sanguíneo.

 

Naturalmente, os efeitos de fármacos nesses aspectos da função cardíaca

não são independentes entre si. Por exemplo, se um fármaco afetar as

propriedades elétricas da membrana celular do miocárdio, provavelmente

influenciará o ritmo cardíaco e a contração miocárdica. De modo

semelhante, um fármaco que afete a contração, inevitavelmente, alterará

também o metabolismo e o fluxo sanguíneo. Não obstante, do ponto de

vista terapêutico, essas três classes de efeitos representam objetivos clínicos

distintos com relação ao tratamento, respectivamente, de arritmias

cardíacas, insuficiência cardíaca e insuficiência coronariana (como ocorre

durante a angina de peito ou o infarto agudo do miocárdio [IAM]).

 

FISIOLOGIA DA FUNÇÃO CARDÍACA

FREQUÊNCIA E RITMO CARDÍACOS

As câmaras cardíacas normalmente se contraem de maneira coordenada,

bombeando sangue eficientemente por uma via determinada pelas valvas. A

coordenação da contração é efetuada por um sistema de condução

especializado. O ritmo sinusal normal é gerado por impulsos de marca-

passo que se originam no nó sinoatrial (SA) e são conduzidos em

sequência, através de átrios, nó atrioventricular (AV), feixe de His, fibras de

Purkinje e ventrículos. As células cardíacas devem sua excitabilidade

elétrica a canais da membrana plasmática sensíveis à voltagem, seletivos para vários íons, incluindo Na+, K+ e Ca2+, cujas estrutura e função estão

descritas no Capítulo 4. As características eletrofisiológicas do músculo

cardíaco que o distinguem de outros tecidos excitáveis incluem:

 

• Atividade de marca-passo

• Ausência de corrente de Na+ rápida nos nós SA e AV, em que a corrente

lenta de entrada de Ca2+ inicia os potenciais de ação

• Potencial de ação prolongado (“platô”) e período refratário longo

• Influxo de Ca2+ durante o platô.

 

Várias dessas características especiais do ritmo cardíaco relacionam-se com

as correntes de Ca2+. O coração contém canais de cálcio intracelulares (p.

ex., os receptores de rianodina e canais de cálcio ativados por trifosfato de

inositol, descritos no Capítulo 4, que são importantes na contração do

miocárdio) e canais de cálcio voltagem-dependentes na membrana

plasmática, que são importantes para o controle de frequência e ritmo

cardíacos. O principal tipo de canal de cálcio voltagem-dependente no

miocárdio funcional do adulto é o canal tipo L, que também é importante na

musculatura lisa vascular; os canais do tipo L são importantes em regiões

especializadas em condução, bem como no miocárdio ativo.

O potencial de ação de uma célula muscular cardíaca ideal é mostrado

na Figura 22.1A e se divide em cinco fases: 0 (despolarização rápida), 1

(repolarização parcial), 2 (platô), 3 (repolarização) e 4 (marca-passo).

▼ Os mecanismos iônicos subjacentes a estas fases podem ser

resumidos como mostrado a seguir.

Fase 0, despolarização rápida, ocorre quando o potencial de membrana

alcança um limiar de disparo crítico (cerca de −60 mV), no qual a

corrente de entrada de Na+ que passa através dos canais de sódio

voltagem-dependentes torna-se grande o suficiente para produzir uma

despolarização regenerativa (”tudo ou nada“). Esse mecanismo é o

mesmo responsável pela geração de potencial de ação nos neurônios

(ver Capítulo 4). A ativação dos canais de sódio por despolarização da

membrana é transitória, e se a membrana permanecer despolarizada por

mais que alguns milissegundos, esses canais se fecharão novamente

(inativação). Encontram-se, portanto, fechados durante o platô do

potencial de ação e permanecem indisponíveis para início de outro

potencial de ação até que a membrana se repolarize.

Fase 1, repolarização parcial, ocorre à medida que a corrente de Na+ é

inativada. Pode haver, também, uma corrente de saída transitória,

sensível à voltagem.

Fase 2, o platô, decorre de uma corrente de entrada de Ca2+. Os canais

de cálcio mostram um padrão de ativação e inativação sensível à

voltagem, qualitativamente semelhante aos canais de sódio, mas com

uma evolução temporal muito mais lenta. O platô é auxiliado por uma

propriedade especial da membrana do músculo cardíaco conhecida

como retificação em sentido interno, o que significa que a condutância

ao K+ cai a um nível baixo quando a membrana é despolarizada. Por

causa disso, há pouca tendência para uma corrente de saída de K+ que

restaure o potencial de repouso da membrana durante o platô, de modo

que uma corrente de entrada de Ca2+ relativamente pequena é suficiente

para manter o platô. Uma corrente de sódio persistente (I Nap) também

contribui para o platô; este é muito pequeno comparado com o

componente rápido da corrente de sódio, mas à medida que flui ao

longo do potencial de ação, contribui substancialmente para a carga de

sódio durante cada ciclo cardíaco e é um dos principais contribuintes

para arritmias isquêmicas e um alvo farmacológico (p. 284).

Fase 3, repolarização, ocorre à medida que é inativada a corrente de

Ca2+ e é ativada uma corrente de saída retificadora de K+ tardia

(análoga, porém muito mais lenta que a corrente de K+ que causa

repolarização em fibras nervosas; ver Capítulo 4), produzindo uma

corrente de saída de K+. Esta é ampliada por outra corrente de K+, que é

ativada por altas concentrações intracelulares de Ca2+, [Ca2+] i, durante o

platô e, às vezes, também por outras correntes de K+, incluindo uma por

meio de canais ativados pela acetilcolina (p. 277), e outra que é ativada

pelo ácido araquidônico liberado em condições patológicas, como no

IAM.

Fase 4, o potencial de marca-passo, é uma despolarização gradual

durante a diástole. A atividade de marca-passo é normalmente

encontrada somente em tecido nodal e de condução. O potencial de

marca-passo é causado por uma combinação do aumento das correntes

de entrada com o declínio das correntes de saída durante a diástole. Em

geral, é mais rápido nas células do nó SA, que, portanto, atuam como

marca-passo para o coração inteiro. As células do nó SA têm uma

condutância basal maior para Na+ do que os miócitos atriais ou

ventriculares, levando à maior corrente basal de entrada. Além disso, a

inativação dos canais de cálcio voltagem-dependentes gradualmente

diminui durante a diástole, resultando em uma crescente corrente de

entrada de Ca2+ no período final desse processo. A ativação de canais de

cálcio do tipo T durante a fase final da diástole contribui para a

atividade de marca-passo do nó SA. O potencial de membrana negativo

no início da diástole ativa um canal de cátions que é permeável ao Na+ e

K+ e dá origem a mais uma corrente de entrada denominada If.1 Um

inibidor desta corrente, a ivabradina, provoca bradicardia e é usado

terapeuticamente (ver adiante). Várias correntes de saída voltagem e

tempo-dependentes desempenham também seu papel: a corrente de K+

retificadora tardia (IK), que é ativada durante o potencial de ação, é

“desligada” pelo potencial de membrana negativo no início da diástole.

A corrente originada pela bomba eletrogênica de Na+/K+ também

contribui para a corrente de saída durante o potencial de marca-passo.

 

Figura 22.1 Potencial de ação cardíaco. A. Fases do potencial de ação: 0, despolarização rápida; 1, repolarização parcial; 2, platô; 3, repolarização; 4, despolarização de marca-passo. O painel inferior mostra as alterações acompanhantes na condutância da membrana para Na + + 2+ , K e Ca. B. Condução do impulso através do coração com o traçado do eletrocardiograma (ECG) correspondente. Observe que o retardo mais longo ocorre no nó atrioventricular (AV), em que o potencial de ação tem uma onda caracteristicamente lenta. SA, sinoatrial.

 

A Figura 22.1B mostra a configuração do potencial de ação em diferentes

partes do coração. A fase 0 está ausente nas regiões nodais, em que a

velocidade de condução é correspondentemente lenta (~5 cm/s), em

comparação com outras regiões, como as fibras de Purkinje (velocidade de

condução de ~200 cm/s), que transmitem o potencial de ação rapidamente

aos ventrículos. As regiões que necessitam de uma corrente de entrada rápida apresentam um período refratário muito mais prolongado do que as

regiões de condução rápida. Isso só ocorre porque leva um tempo

considerável (algumas centenas de milissegundos) para a recuperação da

corrente de entrada lenta após sua inativação durante o potencial de ação, e

porque o período refratário ultrapassa o potencial de ação. Nas fibras de

condução rápida, a inativação da corrente de Na+ recupera-se rapidamente e

a célula se torna excitável, novamente, quase no momento em que é

repolarizada.

O padrão organizado do ritmo sinusal pode alterar-se por cardiopatia ou

pela ação de fármacos ou hormônios circulantes, e uma aplicação

terapêutica importante dos fármacos é restaurar um ritmo cardíaco normal

no local em que tenha sido alterado. A causa mais comum de arritmia

cardíaca é a cardiopatia isquêmica, e muitas mortes após IAM resultam da

fibrilação ventricular (FV), e não diretamente por falha da estrutura

contrátil devido à morte de miócitos cardíacos. A fibrilação é um estado no

qual as câmaras do coração param de contrair-se de modo coordenado, pois

o ritmo é substituído por atividade elétrica caótica, causando contrações

rápidas e descoordenadas nos ventrículos ou átrios que não suportam o

débito cardíaco das câmaras afetadas.

 

Distúrbios do ritmo cardíaco

Clinicamente, as arritmias são classificadas de acordo com:

 

• Local de origem da anormalidade – atriais, juncionais ou ventriculares

• Aumento da frequência (taquicardia) ou sua diminuição (bradicardia).

 

As arritmias podem causar palpitações (percepção dos batimentos

cardíacos) ou sintomas de hipoperfusão cerebral (sensação de desmaio

iminente ou perda de consciência). Seu diagnóstico depende do ECG de superfície, e os detalhes estão além do propósito deste livro – ver Opie e

Gersh (2013). Os tipos mais comuns de taquiarritmia são a fibrilação atrial

(FA), em que os batimentos cardíacos são completamente irregulares, e a

taquicardia supraventricular (TSV), em que os batimentos cardíacos são

rápidos, mas regulares. São comuns os batimentos ectópicos ocasionais

(ventriculares ou supraventriculares). As taquiarritmias ventriculares

sustentadas são menos comuns, porém muito mais graves; incluem a

taquicardia ventricular e a fibrilação ventricular, nas quais a atividade

elétrica nos ventrículos é completamente caótica e o débito cardíaco cessa.

As bradiarritmias incluem vários tipos de bloqueio cardíaco (p. ex., no nó

AV ou SA) e a parada completa da atividade elétrica (“parada assistólica”).

Em geral, não se sabe ao certo quais dentre os vários mecanismos

discutidos adiante são responsáveis. Estes mecanismos celulares, todavia,

fornecem um ponto de partida útil para compreender como funcionam os

antiarrítmicos. Quatro fenômenos básicos são subjacentes aos distúrbios do

ritmo cardíaco:

 

1. Retardo da pós-despolarização.

2. Reentrada.

3. Atividade de marca-passo ectópico.

4. Bloqueio cardíaco.

 

A principal causa de retardo da pós-despolarização é uma [Ca2+]i anormalmente elevada, o que desencadeia uma corrente de entrada e, por

isso, uma série de potenciais de ação anormais (Figura 22.2). A pós-

despolarização decorre de uma corrente de entrada resultante, conhecida

como corrente de entrada transitória. Uma elevação da [Ca2+]i ativa a troca de Na+/Ca2+. Isso transfere um Ca2+ para fora da célula, em troca da entrada

de três Na+, resultando em influxo de uma carga positiva e, por isso, em despolarização da membrana. A [Ca2+] i aumentada também contribui para a despolarização através da abertura dos canais de cátions não seletivos na

membrana plasmática. Consequentemente, a hipercalcemia (que eleva a

entrada de Ca2+) promove a pós-despolarização. A hipopotassemia também

influencia a repolarização, por meio de um efeito sobre o mecanismo de

comporta dos canais de potássio retificadores tardios cardíacos. Muitos

fármacos, inclusive aqueles cujos principais efeitos são exercidos sobre

outros órgãos, retardam a repolarização cardíaca por ligação ao potássio ou

a outros canais cardíacos ou por influência de concentrações de eletrólitos

(Roden, 2008). A repolarização retardada, evidenciada pelo prolongamento

do intervalo QT no ECG, aumenta a entrada de Ca2+ durante o potencial de

ação prolongado, levando à pós-despolarização, que traz o risco de causar

arritmias ventriculares perigosas. O prolongamento do intervalo QT é uma

preocupação no desenvolvimento de fármacos (ver Fármacos

antiarrítmicos, pp. 279-283; ver Capítulo 60).

 

Figura 22.2 Pós-despolarização em músculo cardíaco registrada em seio coronário

de cão na presença de norepinefrina. O primeiro estímulo (S1) causa um potencial de ação seguido por uma pequena pós-despolarização. À medida que diminui o intervalo S2-S3, a pós-despolarização fica maior ( † ) até que desencadeia uma série indefinida de potenciais de ação (‡). (Adaptada de Wit, A.L., Cranefield, P.F., 1977. Circ. Res. 41, 435.)

 

Normalmente, o potencial de ação cardíaco extingue-se depois de ter

ativado os ventrículos, porque é cercado pelo tecido refratário, que acabou

de atravessar. A reentrada (Figura 22.3) descreve uma situação em que o

impulso reexcita regiões do miocárdio depois de passado o período

refratário, causando circulação contínua dos potenciais de ação. Pode

resultar de anomalias anatômicas ou, mais frequentemente, de lesão do

miocárdio. A reentrada é subjacente a muitos tipos de arritmias, cujo padrão

depende do local do circuito reentrante, que pode estar em átrios,

ventrículos ou tecido nodal. Um simples anel de tecido pode dar origem a

um ritmo reentrante se houver um bloqueio de condução transitório ou

unidirecional. Normalmente, um impulso originado em qualquer ponto do

anel se propagará em ambas as direções e será extinto quando os dois

impulsos se encontrarem, mas, se uma área lesionada causar um bloqueio

transitório (de modo que um impulso seja bloqueado, mas o segundo

consiga atravessar; Figura 22.3) ou um bloqueio unidirecional, poderá

ocorrer circulação contínua do impulso. Isso é conhecido como movimento

circular e foi demonstrado, experimentalmente, em anéis de tecidos de

águas-vivas há muitos anos.

Embora o marca-passo fisiológico resida no nó SA, outros tecidos

cardíacos podem assumir atividade de marca-passo. Isso fornece um

mecanismo de segurança na eventualidade de uma falha do nó SA, mas

também pode desencadear taquiarritmias. A atividade ectópica de marca-

passo é incentivada pela atividade simpática e por despolarização parcial,

que pode ocorrer durante isquemia. As catecolaminas, atuando sobre

receptores β 1-adrenérgicos (p. 276, aumentam a taxa de despolarização durante a fase 4 e podem fazer com que partes normalmente em repouso do coração assumam um ritmo espontâneo. Várias taquiarritmias (p. ex., FA

paroxística) podem ser desencadeadas por circunstâncias associadas ao

aumento da atividade simpática. A dor (p. ex., durante o IAM) desencadeia

a descarga simpática e a liberação de epinefrina da glândula suprarrenal,

aumentando a excitabilidade miocárdica. A despolarização parcial

decorrente de lesão isquêmica também causa atividade anormal de marca-

passo.

 

Figura 22.3 Geração de um ritmo reentrante por uma área de miocárdio lesionada.

A área lesionada (marrom) conduz apenas em uma direção. Isso perturba o padrão normal de condução e permite que ocorra circulação contínua do impulso.

 

O bloqueio cardíaco decorre de fibrose ou lesão isquêmica do sistema

de condução (muitas vezes no nó AV). No bloqueio cardíaco completo, os

átrios e ventrículos batem independentemente entre si, pulsando os

ventrículos em uma frequência lenta determinada pelo marca-passo, que

assume o comando distalmente ao bloqueio. Uma falha completa

esporádica da condução AV causa períodos súbitos de perda de consciência (crises de Stokes-Adams) e é tratada pela implantação de um marca-passo