Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 378 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Agentes antidiarreicos

incluindo a naldemedina e a axeloprana (Nelson e Camilleri, 2016).

 

AGENTES ANTIDIARREICOS

Existem inúmeras causas de diarreia, inclusive doença subjacente, infecção,

toxinas e até ansiedade. Também pode originar-se como efeito adverso de

terapia medicamentosa ou de radioterapia. As repercussões variam desde

leve desconforto e inconveniência até uma emergência médica que exige

internação, hidratação e reposição eletrolítica por via parenteral.

Globalmente, a doença diarreica aguda é uma das principais causas de

morte em lactentes desnutridos, especialmente em países em

desenvolvimento onde o atendimento médico seja menos acessível. Além

disso, 1 a 2 milhões de crianças morrem por ano pela simples falta de

contramedidas.

Durante um episódio de diarreia há aumento de motilidade do trato GI,

acompanhado do aumento das secreções, juntamente com diminuição da

absorção de líquidos. Isso leva a uma perda de eletrólitos (particularmente

Na+) e água. As toxinas da cólera e algumas outras toxinas bacterianas

causam profundo aumento de secreção de eletrólitos e de líquido por

ativação irreversível das proteínas G que acoplam os receptores de

superfície das células da mucosa à adenilato ciclase (ver Capítulo 3).

Existem três abordagens ao tratamento da diarreia aguda grave:

• Manutenção do equilíbrio hidreletrolítico

• Uso de anti-infecciosos

• Uso de espasmolíticos ou outros antidiarreicos.

A manutenção do equilíbrio hidreletrolítico por meio de reidratação oral é a

prioridade. A aplicação mais ampla dessa medida barata e simples poderia salvar a vida de muitos lactentes nos países em desenvolvimento; de fato,

muitos pacientes não precisam sequer de outro tratamento.

No íleo, como no néfron, há cotransporte de Na+ e glicose através da

célula epitelial. A presença de glicose (e de alguns aminoácidos), portanto,

aumenta a absorção de Na+ e, desse modo, a captação de água. Preparações

de cloreto de sódio e glicose para reidratação oral estão disponíveis sob a

forma de pó, pronto para ser dissolvido em água antes do uso.

Muitas infecções GI têm origem viral; como as que são bacterianas

geralmente se resolvem de maneira rápida, o uso de anti-infecciosos

comumente não é necessário nem útil. Contudo, outros casos podem

necessitar de terapia mais agressiva. O Campylobacter spp. é a causa mais

comum de gastrenterite bacteriana no Reino Unido, e as infecções graves

podem exigir ciprofloxacino. As bactérias mais comuns encontradas por

viajantes incluem Escherichia coli, Salmonella e Shigella, bem como

protozoários, como Giardia e Cryptosporidium spp. O tratamento

farmacológico (ver Capítulos 52 e 55) pode ser necessário para essas e

outras infecções mais graves.

 

Diarreia do viajante

Milhões de pessoas atravessam fronteiras internacionais a cada ano. Muitas

viajam sem intercorrências, mas muitas voltam com sintomas GI como a

diarreia, tendo encontrado E. coli produtora de enterotoxina (a causa mais

comum) ou outros microrganismos. A maioria das infecções é leve e

autolimitada, exigindo apenas reposição oral de líquido e sal, como já foi

detalhado. Os princípios gerais para o tratamento farmacológico da diarreia

do viajante são explorados por Gorbach (1987).9 Informações atualizadas

sobre a afecção, inclusive a prevalência de organismos infecciosos ao redor

do mundo, bem como diretrizes de tratamento recomendadas, foram publicadas no Reino Unido pelo National Travel Health Network and

Centre.

 

Agentes antimotilidade e espasmolíticos

Os principais agentes farmacológicos que diminuem a motilidade são os

opioides (ver Capítulo 43) e antagonistas dos receptores muscarínicos (ver

Capítulo 14); no entanto, este último grupo quase nunca é empregado como

terapia primária para diarreia em razão de suas ações sobre outros sistemas,

mas pequenas doses de atropina são às vezes usadas, combinadas com

difenoxilato. A ação da morfina, arquétipo dos opioides, sobre o trato

alimentar é complexa: aumenta o tônus e as contrações rítmicas do

intestino, mas diminui a atividade propulsora. Os esfíncteres pilórico,

ileocólico e anal ficam contraídos, e o tônus do intestino grosso aumenta

acentuadamente; assim, seu efeito global é constipante.

Os principais opioides usados para alívio sintomático de diarreia são

codeína (um congênere da morfina), difenoxilato e loperamida (ambos

congêneres da petidina que não atravessam com facilidade a barreira

hematencefálica e são usados somente por suas ações no intestino). Todos

podem ter efeitos adversos, inclusive constipação intestinal, cólicas

abdominais, sonolência e tonturas. Pode ocorrer também a perda completa

da motilidade intestinal (íleo paralítico). Por essas razões, não devem ser

usados em crianças com menos de 4 anos de idade.

A loperamida é o fármaco de primeira escolha para a diarreia do

viajante e é componente de vários antidiarreicos patenteados. Tem uma

ação relativamente seletiva sobre o trato GI e sofre recirculação êntero-

hepática significativa, além de reduzir a frequência das cólicas abdominais,

diminuir a eliminação de fezes e abreviar a duração da doença.

O difenoxilato também não apresenta atividade semelhante à da morfina

no SNC, embora grandes doses (25 vezes mais altas) produzam efeitos

opioides típicos. As preparações do fármaco, em geral, também contêm

atropina. Codeína e loperamida têm ações antissecretoras, além de seus

efeitos sobre a motilidade intestinal.

Os “opioides endógenos”, as encefalinas (ver Capítulo 43), também têm

um papel na regulação da secreção intestinal. A racecadotrila é um

profármaco do tiorfan, um inibidor da encefalinase. Ao prevenir a quebra

das encefalinas, ele reduz a secreção intestinal em excesso, que ocorre

durante episódios de diarreia. É usado também em combinação com terapia

de reidratação.

Os agonistas dos receptores canabinoides também reduzem a motilidade

intestinal em animais, muito provavelmente diminuindo a liberação de ACh

dos nervos entéricos. Tem havido relatos esporádicos de um efeito benéfico

da Cannabis contra disenteria e cólera.

Os fármacos que reduzem a motilidade GI também são úteis na

síndrome do intestino irritável e na doença diverticular. Antagonistas dos

receptores muscarínicos (ver Capítulo 14) usados para esse propósito

incluem atropina, hioscina, propantelina e dicicloverina. Considera-se que

esta última possa ter certa ação relaxante direta adicional sobre o músculo

liso. Todos produzem efeitos colaterais antimuscarínicos, como secura da

boca, visão embaçada e retenção urinária. A mebeverina, um derivado da

reserpina, tem ação relaxante direta sobre o músculo liso GI, e são poucos

os efeitos adversos.

 

Adsorventes

Os adsorventes são usados no tratamento sintomático de alguns tipos de

diarreia, embora não tenham sido realizados ensaios apropriadamente controlados para provar sua eficácia. As principais preparações empregadas