Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 120 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Sistemas especiais de liberação de fármacos

eliminação do fármaco livre, mas não há perda de eficácia porque a

concentração não ligada (ativa) de fenitoína no novo estado de equilíbrio

permanece inalterada. Assim, se não for levado em consideração que a faixa

terapêutica das concentrações plasmáticas foi reduzida, uma dose

aumentada pode ser prescrita, causando dano.

Os fármacos que alteram as ligações com proteínas às vezes,

adicionalmente, reduzem a eliminação do fármaco deslocado, causando

interações importantes do ponto de vista clínico. Os salicilatos deslocam o

metotrexato de sua ligação com a albumina e reduzem a sua secreção para

o interior do néfron por competição com o OAT (ver Capítulo 10). A

quinidina e vários outros fármacos antiarrítmicos, incluindo verapamil e

amiodarona (ver Capítulo 22), deslocam a digoxina do seu local de ligação

no tecido enquanto reduzem, ao mesmo tempo, a sua eliminação renal;

consequentemente, eles podem causar arritmia grave por causa da

toxicidade da digoxina.

 

SISTEMAS ESPECIAIS DE LIBERAÇÃO DE FÁRMACOS

Diversas estratégias estão sendo exploradas na tentativa de melhorar o

fornecimento de fármacos ao sistema biológico e direcionar o fármaco para

seu tecido-alvo, sendo:

 

• Profármacos

• Conjugados anticorpo-fármaco

• Acondicionamento em lipossomas

• Dispositivos revestidos implantáveis.

 

Profármacos Profármacos são precursores inativos metabolizados em metabólitos ativos;

eles são descritos no Capítulo 10. Alguns dos exemplos em uso clínico não

conferem qualquer benefício óbvio, só tendo sido descoberto que se tratava

de profármacos retrospectivamente, não tendo sido desenvolvidos com esse

objetivo. No entanto, alguns deles apresentam vantagens. Por exemplo, o

fármaco citotóxico ciclofosfamida (ver Capítulo 57) só se torna ativo

depois de metabolizado no fígado; por isso, ele pode ser administrado por

via oral sem causar danos graves ao epitélio gastrintestinal. A levodopa é

absorvida do trato gastrintestinal e atravessa a barreira hematencefálica por

um mecanismo de transporte de aminoácidos antes de ser convertida em

dopamina ativa nas terminações nervosas dos núcleos da base (ver Capítulo

41). A zidovudina somente é fosforilada em seu metabólito trifosfato ativo

em células que contenham a apropriada transcriptase reversa, conferindo,

assim, toxicidade seletiva para as células infectadas com o HIV (ver

Capítulo 53). O valaciclovir e o fanciclovir são ésteres de profármacos,

respectivamente, do aciclovir e do penciclovir. Sua biodisponibilidade é

maior que a do aciclovir e penciclovir, que são eles próprios profármacos

convertidos em metabólitos ativos nas células infectadas por vírus (ver

Capítulo 53). A diacetilmorfina (heroína) é um profármaco que atravessa a

barreira hematencefálica ainda mais rápido que os seus metabólitos ativos,

morfina e 6-monoacelilmofina (ver Capítulo 43), sendo responsável pelo

aumento da excitação e, consequentemente, do potencial uso abusivo.

Fazer com que os fármacos de ácidos nucleicos (oligonucleotídios

antisense e pequenos RNA de interferência) alcancem os seus locais de

ação intracelular é um importante problema nessa classe de biofármacos

(ver Capítulo 5). A modificação desses agentes com grupos químicos que se

ligam especificamente à superfície de transportadores permite a entrega dos

fármacos a células específicas. O receptor de assialoglicoproteína (ASGR) é uma lectina abundantemente expressa na superfície dos hepatócitos, ligando

terminais de galactose e resíduos de N-acetil galactosamina (GaINAc),

possibilitando a captação seletiva pelos hepatócitos (Prakash et al., 2016).

Teoricamente, a utilização de profármacos pode resolver outros

problemas, como, por exemplo, a instabilidade dos fármacos no pH

gástrico, a irritação gástrica direta (o ácido acetilsalicílico foi sintetizado no

século XIX na tentativa de produzir um profármaco do ácido salicílico que

fosse tolerável VO), a falha do fármaco em atravessar a barreira

hematencefálica, entre outros. Embora o designer otimista dos profármacos

“tenha de ter em mente que a reação natural de um organismo a substâncias

estranhas seja queimar para se alimentar”, o sucesso previamente referido

na administração de fármacos de ácidos nucleicos aos hepatócitos é um

incentivo notável, sendo que os primeiros estudos em humanos provaram o

conceito, por exemplo, em pacientes com dislipidemia, hemofilia e uma

forma de amiloidose.

 

Conjugados anticorpo-fármaco

▼ Um dos objetivos da quimioterapia antineoplásica é melhorar a

seletividade dos fármacos citotóxicos (ver Capítulo 57). Uma

abordagem é ligar o fármaco ou toxina a um anticorpo direcionado

contra um antígeno específico do tumor, que se ligará seletivamente às

células tumorais (Thomas et al., 2016). O ado-trastuzumabe entansina

e o brentuximabe vedotina foram aprovados pela FDA no tratamento

de casos selecionados de câncer de mama metastático e linfoma de

Hodgkin, respectivamente.

 

Acondicionamento em lipossomas

▼ Lipossomas são vesículas de 0,1 a 1 μm de diâmetro produzidas por

sonicação de uma suspensão aquosa de fosfolipídios. Tais vesículas

podem ser preenchidas com fármacos insolúveis em lipídios, que ficam

retidos até que o lipossoma se rompa. Os lipossomas são captados pelas

células reticuloendoteliais, especialmente no fígado. São concentrados

também nos tumores malignos, estando disponíveis várias formulações

quimioterápicas lipossômicas (Yingchoncharoeu et al., 2016). A

anfotericina, um fármaco antifúngico usado no tratamento de micoses

sistêmicas (ver Capítulo 54), está disponível em uma formulação

lipossômica menos nefrotóxica e mais bem tolerada que a forma

convencional, apesar de ser consideravelmente mais cara. Uma

formulação de ação longa de doxorrubicina, encapsulada em

lipossomas, está disponível para tratamento de doenças malignas

(incluindo câncer de ovário e mieloma), e o paclitaxel está disponível

em forma de nanopartícula de albumina e é usado no tratamento do

câncer de mama (ver Capítulo 57). Uma preparação lipossômica de

citarabina está disponível para o tratamento intratecal de meningite

linfomatosa. A formulação lipossômica de vincristina está disponível

para pacientes selecionados com leucemia linfoblástica aguda.

 

Dispositivos revestidos implantáveis

▼ Revestimentos impregnados foram desenvolvidos a fim de

possibilitar a aplicação localizada de fármacos a partir de implantes.

Exemplos incluem a liberação de hormônios para o endométrio a partir

de dispositivos intrauterinos e de agentes antitrombóticos e

antiproliferativos (fármacos ou radiofármacos) para as artérias

coronárias a partir de stents (dispositivos tubulares inseridos através de

um cateter depois que uma artéria coronária obstruída foi dilatada por

um balão). Os stents reduzem a recidiva da reestenose, mas isso ainda

pode ocorrer nas bordas do dispositivo. Esse importante problema

clínico é evitado revestindo-se os stents com fármacos como o sirolimo

(um imunossupressor potente; ver Capítulo 27), embebido em um

polímero de superfície.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

 

Absorção e bioequivalência de fármacos

EMEA, 2010. Guideline on the investigation of bioequivalence.

http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Scientific_guideline/2010/01/WC5000

70039.pdf. (Accessed 19 March 2017).

Yoshida, K., Maeda, K., Sugiyama, Y., 2013. Hepatic and intestinal drug transporters: prediction of

pharmacokinetic effects caused by drug-drug interactions and genetic polymorphisms. Ann. Rev.

Pharmacol. Toxicol. 53, 581–612. (Revisão do estado de previsão do comportamento

farmacológico com base nas interações dos fármacos mediadas pelos transportadores e na

farmacogenética)

 

Distribuição de fármacos (incluindo a barreira hematencefálica) Ciarimboli, G., 2008. Organic cation transporters. Xenobiotica 38, 936–971. (Discusão sobre a

distribuição específica de espécies e de tecidos de várias isoformas e polimorfismos de OCT

como fonte de variação na resposta aos fármacos)

Miller, D.S., Bauer, B., Hartz, A.M.S., 2008. Modulation of P-glycoprotein at the blood–brain

barrier: opportunities to improve central nervous system pharmacotherapy. Pharmacol. Rev. 60,

196–209.

 

Distribuição dos fármacos e vias de administração Brigo, F., Nardone, R., Tezzon, F., Trinka, E., 2015. Nonintravenous midazolam versus intravenous

or rectal diazepam for the treatment of early status epilepticus: a systematic review with meta-

analysis. Epilepsy Behav. 49, 325–336. (“O midazolam não intravenoso é tão eficaz e seguro

quanto a administração intravenosa ou retal de diazepam em cessar o estado inicial de mal

epiléptico nas crianças e, provavelmente, também nos adultos.” O midazolam bucal foi,

socialmente, mais aceito e mais fácil de administrar, podendo apresentar maior eficácia do que o

diazepam retal no controle das convulsões)

Huttunen, K.M., Raunio, H., Rautio, J., 2011. Prodrugs – from serendipity to rational design.

Pharmacol. Rev. 63, 750–771. (Revisão da estratégia dos profármacos)

Needham, L.A., Davidson, A.H., Bawden, L.J., Belfield, A., 2011. Drug targeting to monocytes and

macrophages using esterase-sensitive chemical motifs. J. Pharmacol. Exp. Ther. 339, 132–142.

(Método engenhoso de direcionar os fármacos para esta linhagem celular que expressa, de forma

seletiva, uma esterase que libera a forma carregada do fármaco dentro da célula, onde

permanece retido e no qual reside o seu alvo)

Prakash, T.P., Yu, J., Migawa, M.T., et al., 2016. Comprehensive structure activity relationship of

triantennary N-acetylgalactosamine conjugated antisense oligonucleotides for targeted delivery to

hepatocytes. J. Med. Chem. 59, 2718–2733. (Tecnologia capacitadora: potencial porta para

enchente de terapias baseadas em ácidos nucleicos)

Renukuntla, J., Vadlapudi, A.D., Patel, A., Boddu, S.H.S., Mitra, A.K., 2013. Approaches for

enhancing oral bioavailability of peptides and proteins. Int. J. Pharm. 447, 75–93. (Sucesso

apenas limitado)

Thomas, A., Teichner, B.A., Hassan, R., 2016. Antibody-drug conjugates for cancer therapy. Lancet

Oncol. 17 (6), e254–e262. (Abordagem atrativa, dois produtos licenciados pela FDA)

Yingchoncharoeu, P., Kanilowski, D.S., Richardson, D.R., 2016. Lipid-based drug delivery systems

in cancer therapy: what is available and what is yet to come. Pharmacol. Rev. 63, 701–787.

(Potencial de nanopartículas lipídicas – várias já foram licenciadas)

____________

1 Isso é ilustrado por diferenças de linhagens e de espécie. Por exemplo, os cães Collie não apresentam o gene de resistência a múltiplos fármacos (mdr1), que codifica uma glicoproteína P que extrui toxinas do líquido cefalorraquidiano através da barreia hematencefálica. Isso apresenta consequências para a medicina veterinária, porque a ivermectina (um fármaco anti-helmíntico, ver

Capítulo 56) é muito neurotóxica para muitas raças com ascendência de Collie.

Capítulo 9

 

9.1 TEMA

A via de administração de um fármaco tem impacto signi cativo sobre a sua

biodisponibilidade.

Qual das seguintes opções não constitui um importante fator a ser considerado

quando se escolhe a via de administração mais efetiva de um fármaco?

 

A. O efeito de primeira passagem

 

B. O grau de absorção sistêmica

 

C. A adesão do paciente ao tratamento

 

D. A ligação a proteínas plasmáticas

 

E. A taxa de absorção do fármaco a partir do local de administração

 

Resposta A Muitos fármacos administrados por via oral sofrem alto nível de

metabolismo no fígado ou na parede do intestino antes de alcançar a circulação

sistêmica, o que pode reduzir a sua biodisponibilidade.

Alternativa B incorreta: Muitos fármacos são apenas utilizados para alcançar um alvo

localizado, de modo que a sua absorção sistêmica não é desejada, visto que poderia

levar a maiores efeitos colaterais.

Alternativa C incorreta: Os fármacos orais são frequentemente preferidos, embora o

uso de uma dose terapêutica efetiva seja de maior importância.

Alternativa D incorreta: A ligação a proteínas plasmáticas.

Ocorre um alto nível de ligação dos fármacos a proteínas plasmáticas

independentemente da via de administração inicial.

Alternativa E incorreta: A taxa de absorção do fármaco é afetada pelas suas

propriedades e pela siologia/patologia no local de administração.

 

Concluir questão

 

9.2 TEMA

Muitos fármacos exigem mecanismos facilitados para que possam alcançar o

seu local de ação desejado.

Qual das seguintes a rmativas sobre transporte facilitado da cisplatina é

correta?

A. A captação facilitada de cisplatina nas células exige um transportador de cátions

orgânicos impulsionado pelo ATP

B. As células hepáticas e renais demonstram sensibilidade igual à cisplatina, devido à

expressão ubíqua dos transportadores de cátions orgânicos

 

C. A coadministração de cimetidina reduz os efeitos da cisplatina

D. Os polimor smos de nucleotídio único nos transportadores de cassetes de ligação ao ATP

(ABC) in uenciam a captação de cisplatina nos hepatócitos

E. A carboplatina é frequentemente preferida à cisplatina, em virtude de sua maior captação

nos rins

 

Resposta A Os transportadores de cátions não necessitam de uma fonte de energia.

Alternativa B incorreta: As células hepáticas e renais expressam diferentes isoformas

do transportador de cátions orgânicos (OCT) e, portanto, são afetadas diferencialmente

pela cisplatina.

Alternativa C incorreta: A coadministração de cimetidina reduz os efeitos da

cisplatina.

A cimetidina compete com a cisplatina pelo OCT2 e protege contra/reduz a apoptose

mediada pela cisplatina.

Alternativa D incorreta: A captação de cisplatina é mediada por OCT e não por

transportadores ABC.

Alternativa E incorreta: A carboplatina não é transportada pelo OCT2.

 

Concluir questão

 

9.3 TEMA

A consideração dos efeitos da partição pelo pH sobre as taxas de absorção é

importante na administração segura de fármacos que são ácidos e bases fracos.

Após superdosagem de ácido acetilsalicílico, qual dos seguintes esquemas de

tratamento seria mais apropriado?

 

A. Metoclopramida e bicarbonato

 

B. Propantelina e bicarbonato

 

C. Metoclopramida e acetazolamida

 

D. Propantelina e acetazolamida

 

E. Bicarbonato e acetazolamida

Resposta A A metoclopramida acelera o esvaziamento gástrico e promove a absorção

do ácido acetilsalicílico.

Alternativa B incorreta: Propantelina e bicarbonato

A propantelina retarda o esvaziamento gástrico e a absorção de ácido acetilsalicílico, e o

bicarbonato alcaliniza a urina, com aumento da excreção de ácido acetilsalicílico,

enquanto diminui a distribuição no SNC.

Alternativa C incorreta: A metoclopramida acelera o esvaziamento gástrico e

promove a absorção do ácido acetilsalicílico, enquanto a acetazolamida alcaliniza a

urina, porém aumenta a distribuição do salicilato no sistema nervoso central (SNC).

Alternativa D incorreta: A propantelina reduz a velocidade de esvaziamento gástrico

e a absorção de ácido acetilsalicílico, enquanto a acetazolamida alcaliniza a urina,

porém aumenta a distribuição do salicilato no SNC.

Alternativa E incorreta: Ambos aumentam a excreção por meio de alcalinização da

urina, porém não exercem nenhum efeito sobre a absorção gástrica.

 

Concluir questão

 

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