Rang e Dale: Farmacologia
Solubilidade lipídica
farmacológica necessitava apenas que a molécula possuísse certas
propriedades físico-químicas. As teorias iniciais, particularmente a teoria
lipídica (ver adiante), baseavam-se, portanto, em ideias físico-químicas
bastante gerais. Atualmente, sabemos muito mais sobre como os diferentes
anestésicos interagem com as proteínas da membrana neuronal e chegamos
à conclusão de que existem inúmeros mecanismos por intermédio dos quais
a anestesia pode ser produzida e que diferentes anestésicos funcionam por
meio de diferentes mecanismos.
À medida que a concentração do anestésico aumenta, a mudança entre
estar consciente e inconsciente ocorre com diferença muito pequena de
dosagem (aproximadamente 0,2 de uma unidade logarítmica). Esta é uma
curva dose-resposta muito mais íngreme que a observada com os fármacos
que interagem como antagonistas ou agonistas sobre os receptores clássicos
(ver Capítulo 2).
SOLUBILIDADE LIPÍDICA
▼ Overton e Meyer, na virada do século XX, mostraram a relação
íntima entre a potência anestésica e a solubilidade lipídica em um grupo
diverso de compostos orgânicos simples e não reativos, que foram
testados por sua capacidade de imobilizar girinos. Isso levou a uma
teoria audaciosa, formulada por Meyer em 1937: “A narcose começa
quando qualquer substância indiferente quimicamente alcança
determinada concentração molar nos lipídios da célula.”
A relação entre a atividade anestésica e a solubilidade lipídica foi
confirmada inúmeras vezes em uma série de diversos agentes. A
potência anestésica nos seres humanos é geralmente expressa como
concentração alveolar mínima (CAM), a quantidade necessária para
abolir a resposta à incisão cirúrgica em 50% dos indivíduos. A Figura
42.1 mostra a correlação entra a CAM (inversamente proporcional à
potência) e a solubilidade lipídica, expressa como coeficiente de
partição óleo:água, para ampla gama de anestésicos inalatórios. Os
estudos de Overton-Meyer não sugeriram qualquer mecanismo em
particular, porém revelaram impressionante correlação que qualquer
teoria da anestesia tem de considerar. Presumiu-se que a partição
óleo:gás fizesse a previsão da partição nas membranas lipídicas,
consistentemente com a sugestão de que a anestesia resulta de alteração
da função da membrana.
Figura 42.1 Correlação da potência anestésica com o coeficiente de partição
óleo:gás. A potência anestésica nos seres humanos é expressa como a pressão parcial alveolar mínima (CAM) necessária para produzir anestesia cirúrgica. Há íntima relação com a solubilidade lipídica, expressa como o coeficiente de partição óleo:gás. (De Halsey, M.J., 1989. Physicochemical properties of inhalation anaesthetics. In: Nunn, J.F., Utting, J.E., Brown, B.R. (Eds), General Anaesthesia, Butterworth, London.)