Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 523 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Solubilidade lipídica

farmacológica necessitava apenas que a molécula possuísse certas

propriedades físico-químicas. As teorias iniciais, particularmente a teoria

lipídica (ver adiante), baseavam-se, portanto, em ideias físico-químicas

bastante gerais. Atualmente, sabemos muito mais sobre como os diferentes

anestésicos interagem com as proteínas da membrana neuronal e chegamos

à conclusão de que existem inúmeros mecanismos por intermédio dos quais

a anestesia pode ser produzida e que diferentes anestésicos funcionam por

meio de diferentes mecanismos.

À medida que a concentração do anestésico aumenta, a mudança entre

estar consciente e inconsciente ocorre com diferença muito pequena de

dosagem (aproximadamente 0,2 de uma unidade logarítmica). Esta é uma

curva dose-resposta muito mais íngreme que a observada com os fármacos

que interagem como antagonistas ou agonistas sobre os receptores clássicos

(ver Capítulo 2).

 

SOLUBILIDADE LIPÍDICA

▼ Overton e Meyer, na virada do século XX, mostraram a relação

íntima entre a potência anestésica e a solubilidade lipídica em um grupo

diverso de compostos orgânicos simples e não reativos, que foram

testados por sua capacidade de imobilizar girinos. Isso levou a uma

teoria audaciosa, formulada por Meyer em 1937: “A narcose começa

quando qualquer substância indiferente quimicamente alcança

determinada concentração molar nos lipídios da célula.”

A relação entre a atividade anestésica e a solubilidade lipídica foi

confirmada inúmeras vezes em uma série de diversos agentes. A

potência anestésica nos seres humanos é geralmente expressa como

concentração alveolar mínima (CAM), a quantidade necessária para

abolir a resposta à incisão cirúrgica em 50% dos indivíduos. A Figura

42.1 mostra a correlação entra a CAM (inversamente proporcional à

potência) e a solubilidade lipídica, expressa como coeficiente de

partição óleo:água, para ampla gama de anestésicos inalatórios. Os

estudos de Overton-Meyer não sugeriram qualquer mecanismo em

particular, porém revelaram impressionante correlação que qualquer

teoria da anestesia tem de considerar. Presumiu-se que a partição

óleo:gás fizesse a previsão da partição nas membranas lipídicas,

consistentemente com a sugestão de que a anestesia resulta de alteração

da função da membrana.

 

Figura 42.1 Correlação da potência anestésica com o coeficiente de partição

óleo:gás. A potência anestésica nos seres humanos é expressa como a pressão parcial alveolar mínima (CAM) necessária para produzir anestesia cirúrgica. Há íntima relação com a solubilidade lipídica, expressa como o coeficiente de partição óleo:gás. (De Halsey, M.J., 1989. Physicochemical properties of inhalation anaesthetics. In: Nunn, J.F., Utting, J.E., Brown, B.R. (Eds), General Anaesthesia, Butterworth, London.)