Rang e Dale: Farmacologia
17 Purinas
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Além do seu papel na economia energética da célula, os nucleosídios e
nucleotídios de purinas funcionam como mediadores químicos
extracelulares que desempenham uma ampla gama de funções. Neste
capítulo, descrevem-se os mecanismos responsáveis por sua síntese e
liberação, os fármacos que afetam a sinalização purinérgica e os receptores
que transduzem esses efeitos.
INTRODUÇÃO
Os nucleosídios (especialmente a adenosina) e os nucleotídios
(especialmente ADP e ATP) já devem ser familiares devido ao seu papel
crucial na síntese de DNA/RNA e metabolismo energético, mas pode ser
surpreendente saber que eles também funcionam extracelularmente como
moléculas de sinalização que produzem ampla gama de efeitos
farmacológicos não relacionados.
A observação, em 1929, de que a adenosina injetada em animais
anestesiados causava bradicardia, hipotensão, vasodilatação e inibição dos
movimentos intestinais, despertou o interesse atual nas purinas. No entanto,
as verdadeiras origens do campo podem ser rastreadas às observações
cruciais de Burnstock et al., em 1970, que forneceram forte evidência de
que o ATP é um neurotransmissor (ver Capítulo 2). Após um período,
durante o qual esta ideia radical foi tratada com ceticismo, tornou-se claro
que o sistema de sinalização “purinérgico” não é apenas de origem
evolutiva remota, mas também participa em diversos mecanismos
fisiológicos de controle, incluindo a regulação do fluxo coronariano e da
função miocárdica (ver Capítulos 22 e 23), agregação plaquetária e
respostas imunológicas (ver Capítulos 18 e 25), assim como na
neurotransmissão, tanto no sistema nervoso central quanto no periférico
(ver Capítulos 13 e 40).
A total complexidade dos sistemas purinérgicos de controle, sua
importância em diversos mecanismos fisiopatológicos e a relevância
terapêutica dos diversos subtipos de receptores começam a se revelar agora.
Consequentemente, existe um interesse crescente na farmacologia das
purinas e na perspectiva do desenvolvimento de fármacos “purinérgicos”
para tratamento da dor e de diversos distúrbios, particularmente os de
origem trombótica e inflamatória. Apesar de não haver dúvida de que esses
fármacos ganharão uma importância cada vez maior, pelo fato de o
panorama geral ainda estar em desenvolvimento, nossa discussão terá como
foco apenas algumas áreas proeminentes.
A Figura 17.1 resume os mecanismos pelos quais as purinas são
armazenadas, liberadas e interconvertidas, e os principais tipos de
receptores em que elas atuam.