Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 179 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Outros fármacos que intensificam a transmissão colinérgica

As estratégias alternativas para o tratamento da miastenia consistem na

remoção dos anticorpos circulantes por meio de plasmaférese, que é

temporariamente eficaz, ou, para obter um efeito mais prolongado,

inibição da produção de anticorpos por meio da administração de

fármacos imunossupressores (p. ex., prednisolona, azatioprina,

micofenolato, ciclosporina e tacrolimo; ver Capítulo 27) ou

timectomia.

 

OUTROS FÁRMACOS QUE INTENSIFICAM A TRANSMISSÃO COLINÉRGICA

Há muitos anos, observou-se que o tetraetilamônio, bloqueador do canal

de potássio e bloqueador ganglionar, podia reverter a ação bloqueadora

neuromuscular da tubocurarina ao prolongar o potencial da ação no nervo

terminal, e assim aumentar a liberação de transmissores induzida pela

estimulação nervosa. Posteriormente, foram desenvolvidos fármacos

bloqueadores dos canais de potássio mais potentes e seletivos, como a

amifampridina. Esses fármacos não são seletivos para os nervos

colinérgicos, mas aumentam a liberação de muitos transmissores diferentes.

A amifampridina é utilizada no tratamento da fadiga muscular associada à

síndrome miastênica de Lambert-Eaton, uma complicação de determinadas

doenças neoplásticas, nas quais a liberação de ACh é inibida pelo fato de os

anticorpos antitumorais reagirem com os canais de Ca2+ na membrana pré-

sináptica.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

 

Leitura complementar

Changeux, J.P., 2012. The nicotinic acetylcholine receptor: the founding father of the pentameric

ligand-gated ion channel superfamily. J. Biol. Chem. 287, 40207–40215. (Minirrevisão que

descreve como a eletrofisiologia, a farmacologia e a bioquímica juntaram forças para identificar

o mecanismo que transduz um sinal químico em um sinal elétrico. O receptor nicotínico é pai

fundador da família de receptores membranares pentamétricos – ver Figura 3.4)

Fagerlund, M.J., Eriksson, L.I., 2009. Current concepts in neuromuscular transmission. Br. J.

Anaesth. 103, 108–114. (Concentra-se em achados de potencial importância clínica)

Nicholls, J.G., Martin, A.R., Fuchs, P.A., Brown, D.A., Diamond, M.E., Weisblat, D., 2012. From

neuron to brain, fifth ed. Sinauer, Sunderland. (Excelente livro-texto geral)

 

Receptores da acetilcolina

Carruthers, S.P., Gurrich, C.T., Rossell, S.L., 2015. The muscarinic system, cognition and

schizophrenia. Neurosci. Biobehav. Rev. 55, 393–402. (A manipulação dos receptores M1 e M4 é

uma promessa no tratamento do comprometimento cognitivo na esquizofrenia)

Dinely, K.T., Pandya, A.A., Yakel, J.L., 2015. Nicotinic ACh receptors as therapeutic targets in CNS

disorders. Trends Pharmacol. Sci. 36, 96–108. (Os receptores nACh estão amplamente

distribuídos nos neurônios do SNC e em células não neuronais, participando na ansiedade, no

processamento central da dor, na ingestão de alimentos, no comportamento aditivo da nicotina e

na função cognitiva. Existem nove subunidades diferentes no cérebro dos mamíferos, reunidas em

vários complexos pentaméricos)

Kalamida, D., Poulas, K., Avramopoulou, V., et al., 2007. Muscle and neuronal nicotinic

acetylcholine receptors: structure, function and pathogenicity. FEBS J. 274, 3799–3845. (Revisão

excelente e abrangente)

Kruse, A.C., Kobilka, B.K., Gautam, D., et al., 2014. Muscarinic acetylcholine receptors: novel

opportunities for drug development. Nat. Rev. Drug Discov. 13, 549–560. (A descoberta das

estruturas em repouso e ativas dos receptores, bem como o conhecimento do controle alostérico,

deverá conduzir a novos fármacos seletivos para subtipos de receptores muscarínicos)

Nickols, H.H., Conn, P.J., 2014. Development of allosteric modulators of GPCRs for the treatment of

CNS disorders. Neurobiol. Dis. 61 (Special Issue), SI 55–SI 71. (Descreve o desenvolvimento de

novos moduladores alostéricos [incluindo moduladores dos receptores muscarínicos] como

potenciais agentes terapêuticos)

Southan, C., Sharman, J.L., Benson, H.E., et al., 2016. The IUPHAR/BPS Guide to Pharmacology in

2016: towards curated quantitative interactions between 1300 protein targets and 6000 ligands.

Nucl. Acids Res. 44 (Database Issue), D1054–D1068. (Ver Receptores da acetilcolina

[muscarínicos], Receptores da acetilcolina nicotínicos)

Wessler, I., Kirkpatrick, C.J., 2008. Acetylcholine beyond neurons: the non-neuronal cholinergic

system in humans. Br. J. Pharmacol. 154, 1558–1571. (Resume as descobertas que revelam os

diversos papéis da acetilcolina)

Transmissão colinérgica

Gilhus, N.E., 2016. Myasthenia gravis. N. Engl. Med. 375, 2570–2581. (Revisão recente)

 

Fármacos que afetam a junção neuromuscular Peng Chen, Z., Morris, J.G., Rodriguez, R.L., Shukla, A.W., Tapia-Nunez, J., Okun, M.S., 2012.

Emerging opportunities for serotypes of botulinum neurotoxins. Toxins (Basel) 4, 1196–1222.

(Analisa as recentes pesquisas sobre os sorótipos botulínicos A-G)

Nicholson, W.T., Sprung, J., Jankowski, C.J., 2007. Sugammadex: a novel agent for the reversal of

neuromuscular blockade. Pharmacotherapy 27, 1181–1188. (Alternativa para a neostigmina)

 

Cholinesterase

Blanc-Lapierre, A., Bouvier, G., Gruber, A., 2013. Cognitive disorders and occupational exposure to

organophosphates: results from the PHYTONER Study. Am. J. Epidemiol. 177, 1086–1096. (Os

distúrbios cognitivos em trabalhadores das vinhas podem estar associados com a exposição de

organofosforados específicos durante períodos prolongados)

Casida, J., 2017. Organophosphate xenobiotic toxicology. Ann. Rev. Pharmacol. Toxocol. 57, 309–

327. (Revisão tópica: outras hidrolases de serina além da acetilcolinesterase podem ser alvos

secundários. “Os herbicidas organofosforados glifosato e glufosinato atuam nas plantas, mas

não em animais, bloqueando a biossíntese de aminoácidos aromáticos e de glutamina,

respectivamente, com a segurança para as culturas conferida pela sua expressão de alvos

tolerantes ao herbicida e de enzimas desintoxicantes de bactérias.”)

Zimmerman, G., Soreq, H., 2006. Termination and beyond: acetylcholinesterase as a modulator of

synaptic transmission. Cell Tissue Res. 326, 655–669. (Revisão da evidência que sugere outras

funções da AChE além da hidrólise da ACh)

____________

1 Ao contrário da maioria dos antagonistas, a galamina atua por intermédio de um mecanismo de inibição alostérica (i. e., atua em um local distinto do ponto de ligação da ACh).

2 Conhecido também como succinilcolina.

3 Dada a sua semelhança estrutural com a ACh, inicialmente assumiu-se que esses compostos competiam com a ACh pelo seu local de ligação. No entanto, sabe-se agora que eles atuam principalmente no bloqueio dos canais iônicos e não dos receptores.

4 Por esse motivo, é seguro comer os animais mortos por flechas com curare.

5 O risco de os pacientes acordarem paralisados durante a cirurgia e, consequentemente, terem memória do evento (consciência durante a anestesia) é uma questão séria.

6 Entre os mais espetaculares surtos de envenenamento botulínico, está o incidente em Loch Maree na Escócia, em 1922, quando oito membros de uma pescaria morreram após consumir patê de pato no almoço. Seus funcionários, que certamente consumiram produtos mais baratos, sobreviveram. O dono da pousada cometeu suicídio.

7 Também conhecida como eserê ou fava-de-ordálio. Na Idade Média, os extratos dessas favas eram utilizados para determinar a culpa ou a inocência de um indivíduo acusado de crime ou heresia. A morte do indivíduo indicava que ele era culpado.

8 Em 13 de fevereiro de 2017, Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un, morreu após um ataque no Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur. De acordo com as autoridades, ele foi assassinado por envenenamento com VX, encontrado na sua face. Posteriormente, as autoridades relataram que uma das mulheres suspeitas de aplicar o agente nervoso sofrera alguns sintomas físicos de envenamento por VX. O diretor de um programa de investigação do Middlebury Institute of International Studies em Monterey concluiu que os vapores VX teriam matado os suspeitos atacantes mesmo se tivessem utilizado luvas, sugerindo que o VX tenha sido aplicado como dois componentes não letais que seriam misturados para formar VX apenas na face da vítima (Wikipédia, acesso em 30 de julho, 2017).

Capítulo 14

 

14.1 TEMA

A acetilcolina (ACh) exerce seus efeitos por meio de sua ligação a receptores

muscarínicos e nicotínicos.

Qual das seguintes a rmativas sobre os efeitos siológicos da ACh é incorreta?

 

A. A ACh provoca vasodilatação geral

 

B. A ACh provoca secreção das glândulas sudoríferas

C. A ACh que se liga a receptores muscarínicos medeia a transmissão neuronal nos gânglios

autônomos

D. Na presença de atropina, a ACh administrada em uma grande dose provoca elevação da

pressão arterial

 

E. A ACh causa redução da frequência cardíaca

 

Resposta A A ACh estimula a liberação de óxido nítrico a partir do endotélio, que

medeia o relaxamento do músculo liso.

Alternativa B incorreta: Embora sejam parte do sistema simpático, as glândulas

sudoríferas recebem inervação colinérgica.

Alternativa C incorreta: A ACh que se liga a receptores muscarínicos medeia a

transmissão neuronal nos gânglios autônomos.

Os gânglios autônomos do sistema parassimpático e os gânglios simpáticos são

regulados pela ação da ACh sobre os receptores nicotínicos.

Alternativa D incorreta: A atropina bloqueia os receptores muscarínicos, porém não

afeta os receptores nicotínicos. A ligação da ACh aos receptores nicotínicos resulta em

liberação de epinefrina e em efeitos simpáticos.

Alternativa E incorreta: A ação da ACh por meio dos receptores muscarínicos no

sistema parassimpático reduz a frequência e a contratilidade cardíacas.

 

Concluir questão

 

14.2 TEMA

A regulação da liberação de ACh das terminações nervosas é fundamental no

controle de seus efeitos siológicos.

Qual dos seguintes agentes causaria um efeito pós-sináptico prolongado da

ACh?

 

A. Suxametônio

 

B. Tubocurarina

 

C. Vesamicol

 

D. Neostigmina

 

E. Toxina botulínica

 

Resposta A O suxametônio atua diretamente sobre os receptores nicotínicos pós-

sinápticos, causando despolarização inicial antes do bloqueio ganglionar,

independentemente da ACh endógena.

Alternativa B incorreta: Esses agentes bloqueadores não despolarizantes atuam

como antagonistas competitivos da ACh na placa terminal, provocando paralisia

motora.

Alternativa C incorreta: O vesamicol é um fármaco experimental que inibe a captação

e o acúmulo de ACh nas vesículas pré-sinápticas.

Alternativa D incorreta: Neostigmina.

A neostigmina é um agente anticolinesterásico que, portanto, inibe a degradação da

ACh na fenda sináptica, prolongando suas ações.

Alternativa E incorreta: A toxina botulínica inibe a liberação de ACh das terminações

nervosas pré-sinápticas.

 

Concluir questão

 

14.3 TEMA

A modulação dos efeitos siológicos da ACh pode ser utilizada para benefício

terapêutico.

Qual dos seguintes agentes não seria bené co para a indicação especi cada?

 

A. Uso de atropina no glaucoma

 

B. Uso de neostigmina na miastenia gravis

 

C. Uso de tiotrópio na doença pulmonar obstrutiva crônica

 

D. Uso de suxametônio na intubação traqueal

 

E. Uso de hioscina na cinetose

 

Resposta A Uso de atropina no glaucoma.

A ativação do músculo constritor da pupila por agonistas muscarínicos reduz a pressão

intraocular no glaucoma, de modo que os antagonistas aumentariam ainda mais a

pressão intraocular.

Alternativa B incorreta: A neostigmina impede a degradação da ACh na fenda pós-

sináptica, de modo a aumentar a concentração, e o fármaco pode competir pela sua

ligação aos autoanticorpos, produzindo uma resposta dos receptores.

Alternativa C incorreta: O tiotrópio é um antagonista muscarínico utilizado como

agente broncodilatador.

Alternativa D incorreta: O suxametônio é utilizado para procedimentos cirúrgicos de

curta duração como relaxante muscular.

Alternativa E incorreta: A hioscina apresenta efeito antiemético de ação central.

 

Concluir questão

 

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