Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 189 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos que atuam nos receptores 5-HT

Alcaloides do ergot

 

• Estas substâncias ativas são produzidas por um fungo que infecta culturas de cereais e são

responsáveis por incidentes de envenenamento ocasionais. Os compostos mais importantes são:

– Ergotamina usada na prevenção da enxaqueca, e di-hidroergotamina

– Ergometrina, usada em obstetrícia para prevenir hemorragias pós-parto

– Metisergida, anteriormente usada para tratar a síndrome carcinoide e prevenção da

enxaqueca

– Bromocriptina, usada no parkinsonismo e em distúrbios endócrinos

• Os locais principais de ação são os receptores 5-hidroxitriptamina (5-HT), receptores de

dopamina e receptores adrenérgicos (efeitos mistos agonista, antagonista e agonista parcial)

• Os efeitos indesejáveis incluem náuseas e vômitos, vasoconstrição (os alcaloides do ergot estão

contraindicados em pacientes com doença vascular periférica).

 

FÁRMACOS QUE ATUAM NOS RECEPTORES 5-HT

A Tabela 16.1 lista alguns agonistas e antagonistas significativos de diferentes tipos de receptores. Muitos são apenas parcialmente seletivos. Nossa maior compreensão da localização e da função dos diferentes subtipos de receptores deu oportunidade ao desenvolvimento de compostos com uma seletividade melhorada para os receptores.

Os fármacos importantes que atuam em receptores 5-HT na periferia incluem os seguintes:

 

• Embora não sendo clinicamente úteis, os agonistas 5-HT1A, tais como 8-

hidroxi-2-(di-n-propilamino) tetralina (8-OH-DPAT), são agentes

hipotensores potentes que atuam por intermédio de um mecanismo central.

São fármacos experimentais úteis

• Agonistas do receptor 5-HT1B/D (p. ex., os triptanos) são usados para tratar

enxaqueca • Os antagonistas do receptor 5-HT2 (p. ex., metisergida, cetanserina) atuam

principalmente nos receptores 5-HT2A, mas podem também bloquear outros

receptores 5-HT, assim como α-adrenérgicos e receptores de histamina (ver

Capítulo 27). Ergotamina e metisergida pertencem à família do ergot e têm

sido usadas principalmente na prevenção de enxaqueca (embora a

metisergida seja raramente usada nos dias atuais). Outros antagonistas 5-HT2

são usados no controle de sintomas da síndrome carcinoide

 

Tabela 16.2 Propriedades dos alcaloides do ergot e compostos

relacionados.

Ações nos receptores

Utilizações Efeitos

Fármaco Útero Receptores α- principais adversos etc.

5-HT Dopamina

adrenérgicos

Êmese,

Antagonista/agonista vasospasmo

 

Ergotamina parcial (5-HT Enxaqueca (evitar na ) 1 Agonista parcial Contração Inativa (amplamente doença (vasos sanguíneos) ++ Antagonista (outros obsoleto) vascular

locais) periférica e

gravidez)

Enxaqueca Menos êmese

Di- Antagonista/agonista Contração

Antagonista Inativa (amplamente do que com

hidroergotamina parcial (5-HT ) + 1

obsoleto) ergotamina

Prevenção de

Antagonista Fraco hemorragia

Contração Náuseas,

Ergometrina fraco/agonista parcial antagonista/agonista Fraca pós-parto

+++ vômitos

(5-HT ) parcial (ver Capítulo 1

36)

Bromocriptina Inativo Antagonista fraco Agonista/agonista – Doença de Sonolência,

parcial Parkinson êmese

(ver Capítulo

41)

Distúrbios

endócrinos

(ver Capítulo

32)

Síndrome

carcinoide Fibrose

Antagonista/agonista retroperitoneal

Metisergida Pro laxia da parcial em vários – – – e mediastínica

subtipos enxaqueca (é

raramente Êmese usado)

5-HT, 5-hidroxitriptamina.

 

• Os antagonistas do receptor 5-HT3 (p. ex., granisetrona, ondansetrona,

palonosetrona) são usados como fármacos antieméticos (ver Capítulos 31 e

57), particularmente no controle de náuseas e vômitos acentuados que

ocorrem em muitas formas de quimioterapia para o câncer

• Os agonistas do receptor 5-HT4 que estimulam a atividade peristáltica

coordenada (conhecida como uma “ação procinética”) podem ser usados no

tratamento de distúrbios gastrintestinais (ver Capítulo 31). A

metoclopramida atua desse modo, bem como pelo bloqueio de receptores

de dopamina. Fármacos similares, porém mais seletivos, tais como cisaprida

e tegaserode, foram introduzidos para tratar a síndrome do intestino

irritável, mas foram abandonados tendo em conta os efeitos adversos

cardiovasculares.

 

Alcaloides do ergot

Os alcaloides do ergot têm preocupado os farmacologistas desde há mais de um século. Como grupo, resistem obstinadamente a serem classificados. Muitos atuam nos receptores 5-HT, mas não de forma seletiva, pelo que os seus efeitos são complexos e diversos.

▼ O ergot, um extrato do fungo Claviceps purpurea que infesta culturas de

cereais, contém muitas substâncias ativas, e foi o estudo das suas

propriedades farmacológicas que levou Dale a muitas descobertas

importantes com relação a acetilcolina, histamina e catecolaminas. Têm

ocorrido, e ainda ocorrem, epidemias de envenenamento por ergot quando o

grão contaminado é usado em alimentos. Os sintomas incluem distúrbios

mentais e intensa vasoconstrição periférica, dolorosa, levando à gangrena.1

Os alcaloides do ergot são moléculas complexas derivadas do ácido

lisérgico. Importantes membros do grupo (Tabela 16.2) incluem vários

derivados que ocorrem naturalmente e sintéticos com diferentes grupos

substituíveis agrupados em torno de um núcleo comum. Estes compostos

apresentam ações farmacológicas diversas, sendo difícil identificar alguma

relação clara entre a estrutura química e as propriedades farmacológicas.

 

■ Ações

A maioria dos efeitos dos alcaloides do ergot parece ser mediada por receptores adrenérgicos, 5-HT ou receptores de dopamina, embora alguns possam ser produzidos por outros mecanismos. Todos os alcaloides estimulam a musculatura lisa, sendo alguns relativamente seletivos para o músculo liso vascular, enquanto outros atuam principalmente no útero. A ergotamina e a di-hidroergotamina são, respectivamente, um agonista parcial e um antagonista de receptores α-adrenérgicos. A bromocriptina é um agonista de receptores de

dopamina, particularmente no SNC (ver Capítulo 40), e a metisergida é um

antagonista dos receptores 5-HT2A.

O uso clínico de agentes do ergot tem diminuído, porque fármacos mais seletivos e mais seguros têm sido introduzidos, mas, de qualquer modo, continua sendo importante para os farmacologistas. Suas principais ações e utilizações

estão resumidas na Tabela 16.2. Como seria esperado de agentes com tantas ações, seus efeitos fisiológicos são complexos e, muitas vezes, mal compreendidos. Ergotamina, di-hidroergotamina e metisergida são discutidas aqui; informação adicional sobre ergometrina e bromocriptina é fornecida nos

Capítulos 34, 36 e 41.

Efeitos vasculares. Quando injetada em um animal anestesiado, a ergotamina ativa receptores α-adrenérgicos, causando vasoconstrição e uma elevação sustentada da pressão arterial. Ao mesmo tempo, a ergotamina reverte

o efeito pressor da epinefrina (ver Capítulo 15). O efeito vasoconstritor da ergotamina é responsável pela gangrena periférica do Fogo de Santo Antônio, e provavelmente também por alguns dos efeitos do ergot no SNC. A metisergida e a di-hidroergotamina têm um efeito vasoconstritor muito menor. A metisergida é

um potente antagonista do receptor 5-HT2A, enquanto a ergotamina e a di-hidroergotamina atuam em receptores 5-HT1, o que pode contribuir para a sua atividade antienxaqueca.

Uso clínico. A única utilização da ergotamina é no tratamento de crises de

enxaqueca que não respondem a simples analgésicos (ver Capítulos 27 e 43). A metisergida foi anteriormente usada na prevenção da enxaqueca e para tratar os sintomas de tumores carcinoides, mas é raramente utilizada na atualidade. Todos estes fármacos podem ser usados oralmente ou por injeção.

Efeitos adversos. A ergotamina causa frequentemente náuseas e vômitos e deve ser evitada em pacientes com doença vascular periférica devido à sua ação vasoconstritora. A metisergida também causa náuseas e vômitos, mas o seu efeito adverso mais grave, o qual restringe consideravelmente a sua utilidade clínica, é a fibrose retroperitoneal e mediastínica, que compromete o funcionamento de trato gastrintestinal, rins, coração e pulmões. O mecanismo disso é desconhecido, mas é interessante que reações fibróticas similares podem ocorrer também na síndrome carcinoide, em que há um nível circulante elevado de 5-HT.