Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 713 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Princípios gerais da ação de fármacos anticâncer citotóxicos

Tumores secundários, em comparação a outros, acometem com mais

frequência certos tecidos. Por exemplo, é comum a ocorrência de

metástases de cânceres de mama no cérebro, no pulmão, nos ossos e no

fígado. A explicação disso é que as células do câncer de mama expressam

receptores de quimiocinas, tais como o CXCR4 (ver Capítulo 19) em suas

superfícies, e quimiocinas que reconhecem esses receptores são expressas

em grande quantidade nesses tecidos, mas não em outros (p. ex., rim),

facilitando o acúmulo seletivo de células nesses locais, criando um nicho

microambiental para elas residirem e prosperarem. Da mesma forma, o

câncer de pulmão dissemina-se mais frequentemente para o cérebro, osso e

glândula suprarrenal; o melanoma maligno, para o cérebro; tumores

colorretais e ovarianos mais frequentemente metastizam para o fígado; e o

câncer de pâncreas, normalmente para o fígado e pulmão.

 

PRINCÍPIOS GERAIS DA AÇÃO DE FÁRMACOS ANTICÂNCER CITOTÓXICOS

Em experimentos com leucemias transplantáveis de crescimento rápido em

camundongos, descobriu-se que determinada dose terapêutica de um

fármaco citotóxico5 destrói uma fração constante das células malignas.

Assim, uma dose que destrói 99,99% das células, se utilizada para tratar um

tumor com 1011 células, ainda deixará 10 milhões (107) de células malignas

viáveis. Assim, como o mesmo princípio se aplica a tumores de crescimento

rápido em seres humanos, os esquemas de quimioterapia têm como objetivo

produzir o maior número possível de destruição do total de células porque,

em contraste com o que ocorre nos microrganismos, não se pode depender totalmente dos mecanismos de defesa imunológica do hospedeiro contra as

células malignas remanescentes. Se um tumor é removido (ou, pelo menos,

reduzido) cirurgicamente, qualquer micrometástase remanescente é mais

acessível à quimioterapia, daí seu uso como terapia adjuvante nessas

circunstâncias.

Umas das principais dificuldades em se tratar o câncer é que o

crescimento do tumor geralmente já está muito avançado antes de seu

diagnóstico. Vamos supor que um tumor surja de uma única célula e que o

crescimento seja exponencial, o que pode perfeitamente ocorrer nos

estágios iniciais. O tempo de “duplicação” varia, sendo, por exemplo, em

torno de 24 horas no linfoma de Burkitt, 2 semanas no caso de algumas

leucemias e 3 meses nos cânceres mamários. Cerca de 30 duplicações

seriam necessárias para produzir massa de células com diâmetro de 2 cm,

contendo 109 células. Um tumor desse tipo está dentro dos limites dos

procedimentos diagnósticos, muito embora pudesse passar despercebido se

surgisse em um tecido como o fígado. Outras 10 duplicações produziriam

1012 células, massa tumoral mais passível de ser letal, e que mediria cerca

de 20 cm de diâmetro, se fosse uma única massa sólida.

Contudo, o crescimento exponencial contínuo desse tipo não ocorre

normalmente. No caso da maioria dos tumores sólidos, diferente das

leucemias (tumores dos leucócitos), a taxa de crescimento cai à medida que

a neoplasia cresce. Em parte, isso se deve ao fato de o tumor superar a

capacidade de seu suprimento sanguíneo e, em parte, porque nem todas as

células proliferam de forma contínua. As células de um tumor sólido podem

ser consideradas de acordo com três compartimentos:

 

1. Compartimento A consiste em células em divisão, possivelmente em

ciclo celular contínuo.

2. Compartimento B consiste em células em repouso (fase G 0) que, embora

não se dividam, têm potencial para fazê-lo.

3. Compartimento C consiste em células não mais capazes de se dividir,

mas que contribuem para o volume do tumor.

 

Essencialmente, apenas as células no compartimento A – capazes de formar,

no máximo, 5% de alguns tumores sólidos – são suscetíveis aos principais

fármacos citotóxicos atuais. As células no compartimento C não

representam problema, mas é a existência do compartimento B que dificulta

a quimioterapia do câncer, visto que essas células não são muito sensíveis

aos fármacos citotóxicos e são passíveis de reentrar no compartimento A

depois da quimioterapia.

Tumores benignos podem ainda crescer (muitas vezes de forma mais

lenta), mas são caracteristicamente incapazes de metastizar e disseminar-se,

sendo, portanto, considerados muito menos perigosos para o indivíduo. Um

exemplo disso é o câncer de pele carcinoma de células basais (CBC), que

continua se expandindo, mas não metastiza; ao contrário do câncer de pele

melanoma maligno, que metastiza rapidamente, ameaçando órgãos críticos

como o cérebro. O CBC tem, ainda, o potencial de transformar-se de sua

forma benigna em uma forma maligna e levar à morte. Por outro lado,

tumores malignos podem senescer e tornar-se benignos. De qualquer

maneira, é sempre prudente remover tumores benignos, caso se

desenvolvam em uma forma maligna e ganhem algum potencial para

metastizar.

A maioria dos fármacos anticâncer atuais, sobretudo os citotóxicos,

afeta apenas um aspecto característico da biologia da célula cancerosa – a

divisão celular –, mas não tem nenhum efeito inibidor específico na

invasividade, na perda de diferenciação ou na tendência para criar

metástases. Em muitos casos, a ação antiproliferativa deriva de ação durante a fase S do ciclo celular, e o dano resultante ao DNA inicia a

apoptose. Além disso, à medida que seu alvo principal é a divisão celular,

elas afetarão todos os tecidos normais em divisão rápida, e assim é provável

que produzam, em maior ou menor grau, os seguintes efeitos tóxicos gerais:

 

• Toxicidade à medula óssea (mielossupressão), com queda na produção

de leucócitos e, portanto, queda na resistência a infecções

• Comprometimento da cicatrização

• Perda de pelos/cabelos (alopecia)

• Dano ao epitélio GI (incluindo membranas da mucosa oral)

• Depressão do crescimento em crianças

• Esterilidade

• Teratogenicidade

• Carcinogenicidade – visto que muitos fármacos citotóxicos são

mutagênicos.

 

A rápida destruição celular também acarreta o catabolismo extenso da

purina, e os uratos podem precipitar-se nos túbulos renais e causar lesão

renal. Por fim, quase todos os agentes citotóxicos produzem náuseas e

vômitos graves, um “impedimento intrínseco” agora feliz e largamente

ultrapassado devido à moderna profilaxia antiemética (ver Capítulo 31).

Fármacos citotóxicos, juntamente com a cirurgia e a radioterapia,

continuam sendo o centro do tratamento do câncer, mas novos tratamentos

com base em alvos específicos para a disfunção dos mecanismos de

controle do ciclo celular que caracteriza as células cancerosas, e no

aumento da sua suscetibilidade ao ataque imunológico, estão se tornando

cada vez mais importantes. Estes incluem antagonistas hormonais,

inibidores da quinase e anticorpos monoclonais – fármacos que não são

citotóxicos no sentido convencional e têm uma gama diferente de efeitos colaterais. Descritos mais adiante, eles comportam uma mudança