Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 312 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fatores de crescimento hematopoéticos

ímpar, alguns aminoácidos e a timina podem ser usados para

gliconeogênese ou para a produção de energia via ciclo dos ácidos

tricarboxílicos (ATC). Como a coenzima B12 (ado-B12) é um cofator

essencial, a metilmalonil-CoA se acumula na deficiência de vitamina

B12. Isso distorce o padrão de síntese de ácidos graxos no tecido neural e

pode ser a base da neuropatia decorrente de deficiência de vitamina B12.

 

■ Administração de vitamina B12

Quando a vitamina B12 é usada terapeuticamente (como hidroxocobalamina), sua administração é, em geral, feita por via

parenteral4 porque, como explicado anteriormente, a deficiência de vitamina

B12 costuma ser resultado de má absorção. Os pacientes com anemia perniciosa requerem tratamento por toda a vida, com uma dose de ataque

seguida de injeções de manutenção a cada 3 meses. A hidroxocobalamina

não causa efeitos adversos.

 

FATORES DE CRESCIMENTO HEMATOPOÉTICOS

A cada 60 s, um ser humano precisa produzir cerca de 120 milhões de

granulócitos e 150 milhões de eritrócitos, bem como numerosas células

mononucleares e plaquetas.5 As células responsáveis por essa produtividade

impressionante derivam de um número relativamente pequeno de células-

tronco pluripotentes autorrenováveis geradas durante a embriogênese. A

manutenção da hematopoese requer, por um lado, um equilíbrio entre a

autorrenovação das células-tronco e, por outro, a diferenciação nos diversos

tipos de células sanguíneas. Os fatores envolvidos no controle desse

equilíbrio são os fatores de crescimento hematopoéticos, que direcionam a

divisão e a maturação da progênie dessas células ao longo das oito

linhagens de desenvolvimento possíveis (Figura 26.2). Esses fatores de crescimento são citocinas, glicoproteínas altamente potentes que atuam em

concentrações de 10−12 a 10−10 mol/ ℓ . Elas estão presentes no plasma em

concentrações muito baixas em condições basais, mas, mediante um

estímulo, suas concentrações podem aumentar dentro de algumas horas em

1.000 vezes ou mais. A eritropoetina regula a linhagem eritrocitária, e o

sinal para sua produção é a perda de sangue e/ou diminuição da tensão de

oxigênio tecidual. Os CSF regulam as divisões mieloides da linhagem

leucocitária, e o principal estímulo para sua produção é infecção (ver

também Capítulo 7).

 

Figura 26.2 Fatores de crescimento hematopoéticos na diferenciação de células

sanguíneas. Vários dos fatores mostrados em negrito encontram-se disponíveis para uso clínico (ver texto). A maioria das células T geradas no timo morre por apoptose; aquelas que emergem são células T CD4 ou CD8. As cores usadas para as células sanguíneas maduras refletem sua aparência em preparações reveladas com corantes comuns (e pelas quais algumas foram denominadas). CSF (colony-stimulating factor), fator estimulante de colônias; G-CSF, CSF de granulócitos; GM-CSF, CSF de granulócitos-macrófagos; IL-1, interleucina-1; IL-3, interleucina-3 ou multi-CSF; M-CSF, CSF de macrófagos; SCF (stem

cell factor), fator de células-tronco. (Ver também Capítulo 7.)

Vitamina B e ácido fólico 12

 

Tanto a vitamina B 12 como o ácido fólico são necessários para a síntese de DNA. As de ciências

afetam particularmente a eritropoese, causando anemia megaloblástica macrocítica.

 

Ácido fólico (vitamina B9)

• Ocorre captação ativa de ácido fólico pelas células e redução a tetra-hidrofolato (FH4) pela

di-hidrofolato redutase; glutamatos extras são, então, adicionados

• Poliglutamato é um cofator (um transportador de unidades de um carbono) na síntese de

purinas e pirimidinas (especialmente timidilato).

 

Vitamina B12 (hidroxocobalamina)

• A vitamina B 12 requer fator intrínseco (uma glicoproteína) secretado por células parietais

gástricas para absorção no íleo terminal

• É armazenada no fígado

• É necessária para:

– Conversão de metil-FH4 (forma inativa de FH4) na forma ativa formil-FH4, a qual, após

a poliglutamação, constitui-se em cofator na síntese de purinas e pirimidinas

– Isomerização do metilmalonil-CoA em succinil-CoA

• Sua de ciência geralmente ocorre na anemia perniciosa, que resulta da má absorção

causada pela ausência de fator intrínseco do estômago. Causa doença neurológica, bem

como anemia

• A vitamina B 12 é administrada por via parenteral a cada 3 meses para tratamento da

anemia perniciosa.

 

A eritropoetina recombinante (epoetina)6 e o CSF de granulócitos

recombinante (filgrastim, lenograstim, pegfilgrastim) são usados clinicamente (ver adiante); a trombopoetina é fabricada na forma

recombinante, porém há preocupações sobre seu efeito na progressão de

tumores (ela ativa uma proteína da superfície celular que é um produto

oncogênico) e tem sido associada a efeitos adversos graves mediados

imunologicamente. Alguns dos outros fatores de crescimento

hematopoéticos (p. ex., interleucina-3, interleucina-5 e várias outras

citocinas) são descritos no Capítulo 7.

 

Eritropoetina

A eritropoetina é uma glicoproteína produzida nas células justatubulares no

rim e também nos macrófagos; estimula as células progenitoras eritroides

comprometidas a proliferar e produzir eritrócitos (Figura 26.2). As

eritropoetinas recombinantes humanas são produzidas em células de

mamíferos em cultura (porque as suas propriedades farmacocinéticas

dependem essencialmente do grau de glicosilação, uma modificação pós-

tradução que ocorre em mamíferos, mas não tão previsivelmente em células

de bactérias) e utilizadas no tratamento de anemia causada por deficiência

de eritropoetina, como, por exemplo, em pacientes com doença renal

crônica, AIDS ou câncer. A epoetina (eritropoetina recombinante humana)

existe em diversas formas (alfa, beta, teta e zeta). Tem meia-vida plasmática

de cerca de 5 h, sendo administrada por injeção 3 vezes/semana. A

darbepoetina, uma forma hiperglicosilada, tem meia-vida mais prolongada

e pode ser administrada com menor frequência, a cada 1 a 4 semanas; o

betaepoetina metoxipolietilenoglicol é outra preparação com meia-vida

prolongada. A epoetina e a darbepoetina são administradas por via

intravenosa ou subcutânea, com uma resposta maior após a injeção

subcutânea e mais rápida após injeção intravenosa.

As epoetinas estão chegando ao final da proteção de patente (p. ex., o

original Procrit) e os primeiros produtos “biossimilares” foram licenciados

(como Binocrit e Retacrit em 2017 e 2018, respectivamente).

Diferentemente da situação das entidades moleculares químicas pequenas,

em que os critérios para bioequivalência são relativamente incontroversos –

Capítulo 9 –, as macromoléculas produzidas biologicamente podem variar

marcadamente com alterações de produção aparentemente pequenas, e têm

muitas oportunidades para formar produtos imunologicamente distintos

durante a cultura das células.

 

■ Efeitos adversos

Sintomas transitórios semelhantes aos da gripe são comuns. Hipertensão

também é frequente e pode causar encefalopatia com cefaleia,

desorientação e, às vezes, convulsões. Pode ocorrer deficiência de ferro,

uma vez que mais ferro se torna necessário para suprir a eritropoese

aumentada. A viscosidade sanguínea aumenta à medida que o hematócrito

(p. ex., a fração do sangue ocupada pelos eritrócitos) sobe, aumentando o

risco de trombose, especialmente durante diálise. Há relatos de uma

condição crônica devastadora conhecida como aplasia eritrocítica pura

(PRCA; do inglês, pure red cell aplasia), relacionada ao desenvolvimento

de anticorpos neutralizantes direcionados contra a eritropoetina, que

inativam o hormônio endógeno, bem como o produto recombinante (Berns,

2013). Essa tem sido uma grande preocupação com implicações diretas para

o controle de qualidade entre lotes de produtos biológicos e, indiretamente,

para o licenciamento de produtos biossimilares.

▼ Anteriormente a 1998, foram publicados apenas 3 casos de PRCA

associada ao tratamento com epoetina. Naquele ano, em resposta às

preocupações sobre a encefalopatia espongiforme transmitida por

bovinos (“a doença das vacas loucas”), a formulação da principal marca

foi alterada, sendo a albumina sérica humana (usada para estabilizar o

produto) substituída por polissorbato 80 e glicina. A incidência de

PRCA aumentou abruptamente com aproximadamente 250 casos

documentados em 2002, sendo que muitos dos pacientes morreram ou

ficaram completamente dependentes de transfusões sanguíneas. Uma

grande proporção havia sido tratada com a formulação nova. O

mecanismo pelo qual a alteração na fabricação levou à alteração da

imunogenecidade permanece um tema em debate (Locatelli et al.,

2007), mas o empacotamento e o armazenamento foram alterados em

2003 e, desde então, a incidência de PRCA diminuiu (Figura 26.3). A

conclusão é que a imunogenecidade é imprevisível e pode ser causada

por alterações aparentemente pequenas na fabricação e no

armazenamento (Kuhlmann e Marre, 2010).

 

■ Usos clínicos

A deficiência de ferro ou folato deve ser corrigida antes do início do

tratamento. Geralmente são necessárias preparações parenterais de ferro (p.

336). A hemoglobina deve ser monitorada e mantida na faixa de 10 a 12

g/d ℓ para evitar os efeitos adversos descritos anteriormente. Os agentes

estimulantes de eritrócitos podem ser utilizados, mas existem graves efeitos

adversos cardiovasculares e trombóticos que podem ocorrer, com risco de

morte. O uso clínico da epoetina é resumido no boxe clínico adiante.

Figura 26.3 Incidência da aplasia eritrocítica pura (PRCA) relacionada com a

 

introdução de uma alteração na formulação da principal marca de epoetina, em 1998. A incidência aumentou marcadamente e a formulação suspeita (azul) foi responsável por quase todos os casos positivos para o anticorpo antieritropoetina (vermelho); a formulação e as instruções para a sua administração e armazenamento foram alterados de novo em 2003, com um subsequente declínio abrupto da PRCA. O período em que a formulação suspeita estava em uso está indicado pelo retângulo azul. (Redesenhada de Kuhlmann e Marre, 2010.)

 

Fatores estimulantes de colônias

CSF são citocinas que estimulam a formação de colônias em maturação de

leucócitos, observáveis em culturas de tecido. Eles estimulam células

progenitoras comprometidas específicas a proliferar (ver Figura 26.2) e

também promovem diferenciação irreversível. As células precursoras

responsivas contêm receptores de membrana para CSF específicos e podem expressar receptores para mais de um fator, permitindo, assim, interações

colaborativas entre fatores.

O CSF de granulócitos é produzido principalmente por monócitos,

fibroblastos e células endoteliais, e controla primariamente o

desenvolvimento dos neutrófilos, aumentando sua proliferação e maturação,

estimulando a liberação dos pools de armazenamento na medula óssea e

incrementando sua função. As formas recombinantes (o filgrastim, que não

é glicosilado, e o lenograstim glicosilado) são usadas terapeuticamente. O

pegfilgrastim é um derivado do filgrastim conjugado com polietilenoglicol

(“peguilado”), que tem o efeito de prolongar sua duração de ação.

A trombopoetina, originada em fígado e rins, estimula a proliferação e a

maturação dos megacariócitos para formar as plaquetas. A trombopoetina

recombinante é um alvo terapêutico tentador, mas terrivelmente

decepcionante. A trombocitopenia é um limitante da toxicidade previsível

de muitos regimes em oncologia (ver Capítulo 57), e um meio para atenuar

isso teria muito valor. A trombopoetina recombinante, aparentemente a

resposta lógica para essa necessidade, foi fabricada e aumentou a contagem

de plaquetas em voluntários saudáveis e pacientes com trombocitopenia

induzida por quimioterapia moderada. No entanto, em estudos anteriores

com indivíduos saudáveis, doses repetidas de um produto peguilado

provocaram o aparecimento de anticorpos neutralizantes e,

consequentemente, prolongaram a trombocitopenia (Li et al., 2001),

lembrando a experiência com a eritropoetina (ver Figura 26.3) em que

diferenças sutis entre produtos biológicos e mediadores naturais levaram a

efeitos adversos muito graves, imunologicamente mediados. O

eltrombopague (uma pequena molécula agonista administrada por via oral)

e o romiplostim (um análogo de proteína de fusão dimerizado que se liga e

ativa os receptores da trombopoetina por intermédio da via JAK/STAT, administrado por via subcutânea) são agonistas da trombopoetina aprovados

para o tratamento de pacientes com púrpura trombocitopênica idiopática

(PTI) que não responderam a outros tratamentos como a esplenectomia. O

eltrombopague também é utilizado para aumentar a contagem de plaquetas

nos pacientes com anemia aplásica.

 

Fatores de crescimento hematopoéticos

 

Eritropoetina

• Regula a produção de eritrócitos

• É administrada por vias intravenosa, subcutânea ou intraperitoneal

• Pode causar sintomas transitórios semelhantes aos da gripe, hipertensão, de ciência de

ferro e aumento da viscosidade sanguínea

• Encontra-se disponível como epoetina para tratamento de pacientes com anemia causada

por insu ciência renal crônica

• Fator estimulante do crescimento de colônias de granulócitos

• Estimula os progenitores neutrofílicos

• Está disponível como lgrastim, peg lgrastim ou lenograstim; é administrada

parenteralmente.

Usos clínicos da epoetina

 

• Anemia da insu ciência renal crônica

• Anemia durante quimioterapia antineoplásica

• Prevenção de anemia associada à prematuridade (são usadas formulações sem

preservantes, pois o álcool benzílico, que era utilizado como preservante, foi associado a

uma síndrome tóxica fatal em neonatos)

• Para aumentar o rendimento de sangue autólogo antes da doação de sangue

• Anemia da AIDS (exacerbada pela zidovudina).

 

Usos clínicos dos fatores estimulantes de colônias

Os fatores estimulantes de colônias são utilizados em centros especializados:

• Para reduzir a gravidade/duração da neutropenia induzida por fármacos citotóxicos

durante:

– Quimioterapia intensiva com necessidade de resgate com medula óssea autóloga

– Após transplante de medula óssea

• Para coleta de células progenitoras

• Para expandir o número de células progenitoras coletadas ex vivo antes de sua reinfusão

• Para neutropenia persistente em infecção avançada pelo HIV

• Na anemia aplásica.

 

■ Administração e efeitos adversos

O filgrastim e o lenograstim são administrados por via subcutânea ou por

infusão intravenosa. O pegfilgrastim é administrado por via subcutânea.

Efeitos gastrintestinais, febre, dor óssea, mialgia e rash cutâneo são efeitos adversos reconhecidos; efeitos menos frequentes incluem infiltrações