Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 149 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Variação genética na resposta a fármacos

tratados com diuréticos para insuficiência cardíaca crônica, causam

retenção de eletrólitos e água e, como tal, descompensação cardíaca2

• Os antagonistas do receptor H 1 de histamina, como a prometazina,

causam frequentemente sonolência como efeito adverso. É ainda mais

problemático se esses fármacos forem ingeridos com álcool, o que pode

levar a acidentes no trabalho ou no trânsito.

 

■ Interação farmacocinética

Todos os quatro principais processos que determinam a farmacocinética –

absorção, distribuição, metabolismo e excreção (ADME) – podem ser

afetados por fármacos. Essas interações são abordadas nos Capítulos 9 e 10.

 

Interações de fármacos

 

• São muitas e variadas: se estiver em dúvida, procure anteriormente

• As interações podem ser farmacodinâmicas ou farmacocinéticas

• As interações farmacodinâmicas são frequentemente previsíveis a partir das ações dos

fármacos interatuantes

• As interações farmacocinéticas podem envolver efeitos na:

– Absorção (ver Capítulo 9)

– Distribuição (p. ex., competição pela ligação a proteínas, ver Capítulo 9)

– Metabolismo hepático (indução ou inibição, ver Capítulo 10)

– Excreção renal (ver Capítulo 10).

 

VARIAÇÃO GENÉTICA NA RESPOSTA A FÁRMACOS

A resposta de um paciente a um fármaco em particular pode ser

influenciada por um traço genético raro ou um traço multifatorial complexo que envolva os efeitos de vários fatores genéticos e ambientais. Os traços

complexos podem não obedecer à herança mendeliana típica ou familiar,

porque envolvem a influência aditiva ou sinérgica de variantes múltiplas

dos genes que podem interagir com fatores ambientais, resultando em um

amplo espectro de respostas farmacológicas interindividuais. Os potenciais

marcadores farmacogenéticos da variabilidade podem incluir diferenças

mensuráveis na expressão de genes ou deficiências funcionais relacionadas

com fatores genéticos, ou seja, mutações somáticas ou germinativas e

alterações cromossômicas.

Mutações são alterações hereditárias na sequência de bases do DNA.

Elas podem, ou não,3 resultar em uma alteração na sequência de

aminoácidos da proteína codificada pelo gene. As mutações germinativas

ou hereditárias são aquelas que afetam as células reprodutoras do corpo

(óvulos ou espermatozoides) e que podem ser transmitidas para as gerações

seguintes, nas quais estão presentes em todas as células. Na prática, os

testes para essas mutações germinativas em indivíduos são realizados em

amostras de sangue venoso, que apresentam DNA cromossômico e

mitocondrial nos leucócitos. As variações genéticas germinativas que

contribuem para as diferenças na resposta farmacológica, bem como para os

efeitos adversos em populações específicas, podem ser avaliadas em

grandes estudos de coorte ou de casos-controle que utilizam microarrays ou

estratégias de sequenciamento de todo o genoma/exoma, de forma a

analisar milhares de variantes genéticas. A recente disponibilização da

tecnologia de genotipagem de elevado rendimento permitiu a realização de

grandes estudos de associação genômica, a fim de identificar loci

potencialmente envolvidos nos efeitos farmacológicos.

As mutações somáticas ou adquiridas não estão presentes ao

nascimento, mas podem ocorrer em qualquer célula do corpo (exceto em óvulos e espermatozoides) em qualquer idade, não sendo transmitidas à

descendência. Embora se pense que a maioria das mutações celulares

somáticas não apresente consequências clínicas, aquelas que afetam as

principais vias de sinalização envolvidas no crescimento celular, na divisão

e na diferenciação podem predispor a carcinogênese, bem como ao início

tardio de doenças mitocondriais e neurodegenerativas. As mutações

somáticas subjacentes à patogênese de alguns tumores (ver Capítulo 6) e a

presença ou ausência de tais mutações celulares somáticas orientam a

seleção dos fármacos. Os testes genômicos são realizados no DNA de

amostras de tumores obtidos cirurgicamente. Esses testes implicam a

amplificação da(s) sequência(s) relevante(s) e métodos de biologia

molecular, muitas vezes com recurso à tecnologia de chip, de modo a

identificar os vários polimorfismos.

As variações genéticas ou mutações nem sempre são prejudiciais e

podem conferir uma vantagem em algumas circunstâncias ambientais. Um

exemplo farmacogeneticamente relevante é o do gene ligado ao X para a

glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD); a deficiência dessa enzima confere

resistência parcial à malária (uma vantagem consideravelmente seletiva em

regiões do mundo onde essa doença é comum), à custa da suscetibilidade à

hemólise em resposta ao estresse oxidativo na forma de exposição a vários

constituintes da dieta, incluindo alguns fármacos (p. ex., o fármaco

antimalária primaquina; ver Capítulo 55). Essa ambiguidade faz com que o

gene anormal seja preservado em gerações futuras, em uma frequência que

depende do balanço das pressões seletivas no ambiente. Assim, a

distribuição da deficiência de G6PD é similar à distribuição geográfica da

malária. A situação na qual formas funcionalmente distintas de um gene são

comuns em uma população é chamada de polimorfismo “balanceado” (balanceado porque a desvantagem [p. ex., em um homozigoto] é

balanceada por uma vantagem [p. ex., em um heterozigoto]).

Os polimorfismos são variantes relativamente comuns (sequências

alternativas em um locus na cadeia de DNA) que são encontrados em > 1%

dos indivíduos dentro de uma dada população. Eles surgem inicialmente

devido a uma mutação e são estáveis se forem não funcionais, ou

desaparecem nas gerações subsequentes se forem desvantajosos (como

geralmente é o caso). Contudo, se as pressões seletivas prevalentes no

ambiente forem favoráveis, levando a uma vantagem seletiva, um

polimorfismo pode aumentar em frequência ao longo de gerações

sucessivas. Agora que os genes podem ser prontamente sequenciados,

tornou-se evidente que os polimorfismos de nucleotídio único ([SNP; do

inglês, single nucleotide polymorphisms] – variações na sequência do DNA

que ocorrem quando um único nucleotídio é alterado na sequência do

genoma) são muito comuns. Eles podem envolver a substituição de um

nucleotídio por outro (substituição de C por T em dois terços dos SNP) ou a

deleção ou inserção de um nucleotídio. A inserção ou deleção de um ou

mais nucleotídios (exceto quando a alteração no número de nucleotídios é

um múltiplo de três) resulta em uma “alteração do quadro de leitura”

(“frame shift”) na tradução. Por exemplo, após a inserção de um

nucleotídio, o primeiro elemento do tripleto seguinte no código torna-se o

segundo e todas as bases subsequentes são deslocadas uma posição “para a

direita”. Alterações na região codificante de um gene podem resultar em

perda, alteração ou velocidade anormal da síntese proteica.

Em média, os SNP ocorrem uma vez em cada 300 bases ao longo do

genoma humano com 3 bilhões de bases, resultando, assim, na presença de

cerca de 10 milhões de SNP. Podem ocorrer nas regiões codificantes (gene)

e não codificantes do genoma, podendo apresentar um papel mais importante nas funções fisiológicas se localizados dentro de um gene ou em