Rang e Dale: Farmacologia
48 Fármacos Antidepressivos
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A depressão é uma afecção psiquiátrica extremamente comum, sobre a qual
existem muitas teorias neuroquímicas, e cujo tratamento utiliza vários tipos
de fármacos. É um campo no qual o empirismo terapêutico tem liderado o
caminho, com a compreensão mecanística tendendo a ficar para trás, sendo
que parte do problema reside na dificuldade em desenvolver modelos
animais que reproduzam as características da condição humana. Neste
capítulo, discutimos os atuais conhecimentos sobre a natureza dessa
alteração e descrevemos os principais fármacos usados para tratá-la.
NATUREZA DA DEPRESSÃO
A depressão é o mais comum dos transtornos afetivos (definidos como
tanstornos do humor); pode variar de alteração muito leve, beirando a
normalidade, até a depressão grave (psicótica), acompanhada de
alucinações e delírios. No mundo inteiro, a depressão é importante causa de
incapacidade e de morte prematura. Além do risco significativo de suicídio,
os indivíduos depressivos têm a probabilidade de morrer de outras causas, como cardiopatia ou câncer. A depressão é um transtorno heterogêneo cujos
pacientes apresentam um ou mais sintomas centrais e, em geral, está
associada a outras condições psiquiátricas, incluindo ansiedade, transtornos
alimentares, esquizofrenia, doença de Parkinson e dependência de
fármacos.
Os sintomas de depressão incluem componentes emo-cionais e
biológicos. Os sintomas emocionais incluem:
• Humor depressivo, ruminação excessiva de pensamento negativo,
infelicidade, apatia e pessimismo
• Autoestima baixa: sentimento de culpa, inadequação e insatisfação com
a aparência física
• Indecisão, perda de motivação
• Anedonia, perda da sensação de recompensa.
Os sintomas biológicos incluem:
• Retardo do pensamento e da ação
• Perda de libido
• Transtornos do sono e perda de apetite.
Há dois tipos distintos de síndrome depressiva: depressão unipolar, na qual
as alterações de humor são sempre na mesma direção; e transtorno bipolar,
no qual a depressão se alterna com a mania. A mania é, na maioria dos
aspectos, exatamente o oposto, com exuberância, entusiasmo e
autoconfiança excessivos, acompanhados de ações impulsivas,
combinando-se esses sinais frequentemente com irritabilidade, impaciência
e agressividade e, algumas vezes, delírios de grandeza do tipo napoleônico.
Assim como com a depressão, o humor e as ações são impróprios para as
circunstâncias.
A depressão unipolar é comumente não familiar (cerca de 75% dos
casos), associa-se claramente aos eventos estressantes da vida e, em geral, é
acompanhada de sintomas de ansiedade e agitação; esse tipo às vezes é
denominado depressão reativa. Outros casos (cerca de 25%, às vezes
denominados depressão endógena) mostram padrão familiar, não estão
relacionados com óbvios estresses externos e têm sintomatologia um tanto
diferente. Essa distinção é feita clinicamente, mas há poucas evidências de
que os antidepressivos mostrem seletividade significativa entre essas
afecções. Depois de um início pouco auspicioso, estudos genéticos
populacionais começaram a identificar novas variações genéticas associadas
com a depressão (Mullins e Lewis, 2017), mas a depressão é provavelmente
uma doença poligênica em que uma série de variações genéticas, bem como
fatores ambientais, contribui para a doença.
A depressão não pode ser atribuída à atividade neuronal alterada dentro
de somente uma região cerebral; em vez disso, o circuito que liga as
diferentes partes no cérebro pode estar afetado. Os estudos de imagens
cerebrais indicaram que o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo
podem estar envolvidos em diferentes componentes desses transtornos.
O transtorno bipolar, que geralmente aparece no início da vida adulta, é
menos comum e resulta em depressão e mania, oscilando durante período
de algumas semanas. Pode ser difícil diferenciar o transtorno bipolar leve
da depressão unipolar. Além disso, os episódios de mania bipolar podem ser
confundidos com episódios de psicose esquizofrênica (ver Capítulo 47).
Existe uma tendência hereditária forte, e estudos genéticos gerais de
associação (GWAS; do inglês, gene-wide association studies) identificaram
vários novos genes de suscetibilidade que podem ter efeito nas funções
cerebrais afetadas na doença bipolar (Soronen et al., 2010), mas até o
momento estes não causaram impacto na terapia farmacológica da doença. TEORIAS SOBRE A DEPRESSÃO