Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 588 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

48 Fármacos Antidepressivos

CONSIDERAÇÕES GERAIS

 

A depressão é uma afecção psiquiátrica extremamente comum, sobre a qual

existem muitas teorias neuroquímicas, e cujo tratamento utiliza vários tipos

de fármacos. É um campo no qual o empirismo terapêutico tem liderado o

caminho, com a compreensão mecanística tendendo a ficar para trás, sendo

que parte do problema reside na dificuldade em desenvolver modelos

animais que reproduzam as características da condição humana. Neste

capítulo, discutimos os atuais conhecimentos sobre a natureza dessa

alteração e descrevemos os principais fármacos usados para tratá-la.

 

NATUREZA DA DEPRESSÃO

A depressão é o mais comum dos transtornos afetivos (definidos como

tanstornos do humor); pode variar de alteração muito leve, beirando a

normalidade, até a depressão grave (psicótica), acompanhada de

alucinações e delírios. No mundo inteiro, a depressão é importante causa de

incapacidade e de morte prematura. Além do risco significativo de suicídio,

os indivíduos depressivos têm a probabilidade de morrer de outras causas, como cardiopatia ou câncer. A depressão é um transtorno heterogêneo cujos

pacientes apresentam um ou mais sintomas centrais e, em geral, está

associada a outras condições psiquiátricas, incluindo ansiedade, transtornos

alimentares, esquizofrenia, doença de Parkinson e dependência de

fármacos.

Os sintomas de depressão incluem componentes emo-cionais e

biológicos. Os sintomas emocionais incluem:

 

• Humor depressivo, ruminação excessiva de pensamento negativo,

infelicidade, apatia e pessimismo

• Autoestima baixa: sentimento de culpa, inadequação e insatisfação com

a aparência física

• Indecisão, perda de motivação

• Anedonia, perda da sensação de recompensa.

Os sintomas biológicos incluem:

• Retardo do pensamento e da ação

• Perda de libido

• Transtornos do sono e perda de apetite.

 

Há dois tipos distintos de síndrome depressiva: depressão unipolar, na qual

as alterações de humor são sempre na mesma direção; e transtorno bipolar,

no qual a depressão se alterna com a mania. A mania é, na maioria dos

aspectos, exatamente o oposto, com exuberância, entusiasmo e

autoconfiança excessivos, acompanhados de ações impulsivas,

combinando-se esses sinais frequentemente com irritabilidade, impaciência

e agressividade e, algumas vezes, delírios de grandeza do tipo napoleônico.

Assim como com a depressão, o humor e as ações são impróprios para as

circunstâncias.

A depressão unipolar é comumente não familiar (cerca de 75% dos

casos), associa-se claramente aos eventos estressantes da vida e, em geral, é

acompanhada de sintomas de ansiedade e agitação; esse tipo às vezes é

denominado depressão reativa. Outros casos (cerca de 25%, às vezes

denominados depressão endógena) mostram padrão familiar, não estão

relacionados com óbvios estresses externos e têm sintomatologia um tanto

diferente. Essa distinção é feita clinicamente, mas há poucas evidências de

que os antidepressivos mostrem seletividade significativa entre essas

afecções. Depois de um início pouco auspicioso, estudos genéticos

populacionais começaram a identificar novas variações genéticas associadas

com a depressão (Mullins e Lewis, 2017), mas a depressão é provavelmente

uma doença poligênica em que uma série de variações genéticas, bem como

fatores ambientais, contribui para a doença.

A depressão não pode ser atribuída à atividade neuronal alterada dentro

de somente uma região cerebral; em vez disso, o circuito que liga as

diferentes partes no cérebro pode estar afetado. Os estudos de imagens

cerebrais indicaram que o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo

podem estar envolvidos em diferentes componentes desses transtornos.

O transtorno bipolar, que geralmente aparece no início da vida adulta, é

menos comum e resulta em depressão e mania, oscilando durante período

de algumas semanas. Pode ser difícil diferenciar o transtorno bipolar leve

da depressão unipolar. Além disso, os episódios de mania bipolar podem ser

confundidos com episódios de psicose esquizofrênica (ver Capítulo 47).

Existe uma tendência hereditária forte, e estudos genéticos gerais de

associação (GWAS; do inglês, gene-wide association studies) identificaram

vários novos genes de suscetibilidade que podem ter efeito nas funções

cerebrais afetadas na doença bipolar (Soronen et al., 2010), mas até o

momento estes não causaram impacto na terapia farmacológica da doença. TEORIAS SOBRE A DEPRESSÃO