Rang e Dale: Farmacologia
2 Como Agem os Fármacos | Princípios Gerais
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A farmacologia surgiu como ciência quando a ênfase passou da descrição
da ação dos fármacos para a explicação de como funcionam. Neste capítulo,
expomos alguns princípios gerais subjacentes à interação dos fármacos com
os sistemas vivos (o Capítulo 3 descreve com mais detalhes os aspectos
moleculares). Há uma descrição da interação que ocorre entre os fármacos e
as células, seguida de uma análise pormenorizada dos diferentes tipos de
interação fármaco-receptor. O conceito de receptor foi descrito como “a
grande ideia” da farmacologia (Rang, 2006) e será um tema recorrente ao
longo deste livro.
INTRODUÇÃO
Para começar, devemos manifestar nossa gratidão a Paul Ehrlich, por ter
insistido na ideia de que a ação dos fármacos deve ser explicada em termos
de interações químicas convencionais entre fármacos e tecidos, e por ter
refutado a ideia de que a potência e a especificidade de ação notáveis
apresentadas por alguns fármacos os colocavam, de certo modo, fora do alcance da química e da física, requerendo a intervenção de “forças vitais”
mágicas. Embora muitos fármacos produzam efeitos em doses e
concentrações extraordinariamente baixas, tais concentrações ainda
envolvem um número muito grande de moléculas. Uma gota de uma
solução de um fármaco na concentração de apenas 10–10 mol/l ainda contém
cerca de 3 109 moléculas desse fármaco, por isso não há mistério no fato
de que essa substância venha a produzir uma resposta farmacológica
evidente. Algumas toxinas bacterianas (p. ex., a toxina diftérica) agem com
tamanha precisão, que uma única molécula captada por uma célula-alvo é
suficiente para matar essa célula.
Um dos princípios básicos da farmacologia afirma que as moléculas dos
fármacos precisam exercer alguma influência química sobre um ou mais
constituintes das células para produzir uma resposta farmacológica. Em
outras palavras, as moléculas de um fármaco precisam ficar tão próximas
das moléculas dos constituintes celulares, que estas interagem
quimicamente, de modo que a função desses últimos seja alterada. Como
seria esperado, o número de moléculas próprias do organismo excede em
muito o de moléculas do fármaco, e se estas fossem simplesmente
distribuídas ao acaso, a probabilidade de ocorrer interação do fármaco com
uma classe específica de moléculas celulares seria desprezível. Por essa
razão, para que os efeitos farmacológicos ocorram, é preciso haver uma
distribuição não uniforme das moléculas do fármaco dentro do organismo
ou do tecido, ou seja, as moléculas de um fármaco precisam “ligar-se” a
constituintes específicos de células ou tecidos para produzir um efeito.
Ehrlich resumiu esse pensamento da seguinte maneira: “Corpora non agunt
nisi fixata” (no contexto, “um fármaco não agirá, a menos que esteja
ligado”).1