Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 715 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Agentes alquilantes e substâncias relacionadas

Figura 57.3 Efeitos de agentes alquilantes bifuncionais no DNA. Observe o entrecruzamento das duas guaninas. A, adenina; C, citosina; G, guanina; T, timina.

 

AGENTES ALQUILANTES E SUBSTÂNCIAS RELACIONADAS

Agentes alquilantes e substâncias relacionadas contêm grupos químicos que

conseguem formar ligações covalentes com substâncias nucleofílicas

particulares na célula (como o DNA). Com os próprios agentes alquilantes,

a primeira etapa é a formação de um íon carbono – um átomo de carbono

com apenas seis elétrons em sua camada externa. Esses íons são altamente

reativos e reagem de forma instantânea com um doador de elétron, como os

grupos amina, hidroxila ou sulfidroxila. A maioria dos agentes alquilantes anticâncer citotóxicos é bifuncional, ou seja, contém dois grupos alquilantes

(Figura 57.3).

▼ Por ser extremamente nucleofílico, é possível que o nitrogênio na

posição 7 (N7) da guanina seja o principal alvo molecular da alquilação

no DNA (ver Figura 57.3), embora N1 e N3 da adenina e N3 da citosina

também possam ser afetados. Um agente bifuncional, ao reagir com

dois grupos, pode causar entrecruzamento intra ou intercadeias. Isso

interfere não só na transcrição, mas também na replicação do DNA, o

que provavelmente é o efeito crítico dos agentes alquilantes anticâncer.

Todos os agentes alquilantes deprimem a função da medula óssea e causam

perda de cabelo e diarreia. Depressão da gametogênese, levando à

esterilidade, e aumento do risco de doença maligna secundária ocorrem com

o uso prolongado.

Os agentes alquilantes estão entre os mais empregados de todos os

fármacos anticâncer. Apenas os mais utilizados serão discutidos aqui.

 

■ Mostardas nitrogenadas

As mostardas nitrogenadas estão relacionadas com o “gás mostarda” usado

durante a Primeira Guerra Mundial;7 sua fórmula básica (R-N-bis-[2-

cloroetil]) é mostrada na Figura 57.4. No corpo, cada cadeia lateral de 2-

cloroetil sofre ciclização intramolecular, com a liberação de um Cl−. O

derivado altamente reativo etileno imônio, então formado, consegue

interagir com o DNA (ver Figuras. 57.3 e 57.4) e outras moléculas.

Figura 57.4 Um exemplo de alquilação e entrecruzamento do DNA por uma

mostarda nitrogenada. Uma bis(cloroetil)amina (1) sofre ciclização intramolecular, formando um cátion etileno imônio instável ( – 2 ) e liberando Cl, sendo que a amina terciária é transformada em um composto do amônio quaternário. O anel tenso do intermediário etileno imônio abre-se, formando um íon carbono reativo (no boxe amarelo) (3), que reage imediatamente com N7 da guanina (no círculo verde), gerando 7-alquilguanina (ligação realçada em azul), sendo que o N7 se converte em um amônio nitrogenado quaternário. Essas reações podem, então, repetir-se com o outro –CH CH Cl, gerando um 2 2 entrecruzamento.

A ciclofosfamida é, provavelmente, o agente alquilante mais usado. É

inativa até ser metabolizada no fígado pelas oxidases de função mista do

P450 (ver Capítulo 10). Tem efeito pronunciado nos linfócitos e pode,

também, ser usada como imunossupressor (ver Capítulo 27). É administrada

por via oral ou intravenosa. Os efeitos tóxicos importantes são náuseas e

vômito, depressão da medula óssea e cistite hemorrágica. Esse último efeito

(que também ocorre com o fármaco relacionado ifosfamida) é causado pelo

metabólito acroleína e pode ser aliviado por aumento da ingestão de

líquidos e administração de substâncias doadoras de sulfidrila, tais como N-

acetilcisteína ou mesna (2-mercaptoetano-sulfonato sódico). Esses agentes

reagem com a acroleína, formando um composto não tóxico (ver Capítulos

10 e 58).

▼ Outras mostardas nitrogenadas utilizadas incluem bendamustina,

ifosfamida, clorambucila e melfalana. A estramustina é uma

combinação de clormetina (mustina) com um estrógeno. Tem ação

tanto citotóxica quanto hormonal e é usada no tratamento do câncer de

próstata.

 

■ Nitrossoureias

Exemplos incluem lomustina e carmustina. Como são hidrossolúveis e

atravessam a barreira hematencefálica, são usadas em tumores do cérebro e

das meninges. No entanto, a maioria das nitrossoureias apresenta efeito

cumulativo depressor grave sobre a medula óssea, que se instala 3 a 6

semanas depois do início do tratamento.

 

■ Outros agentes alquilantes

O bussulfano tem efeito seletivo na medula óssea, deprimindo a formação

de granulócitos e plaquetas em baixa dosagem e de hemácias em dosagens mais elevadas. Tem pouco ou nenhum efeito sobre o tecido linfoide ou o

trato GI. É usado na leucemia granulomatosa crônica.

A dacarbazina, um profármaco, é ativada no fígado, e a substância

resultante é clivada subsequentemente na célula-alvo para liberar um

derivado alquilante. Os efeitos adversos incluem mielotoxicidade, náuseas e

vômitos graves. A temozolomida é um composto relacionado, com uso

restrito (glioma maligno).

A procarbazina inibe a síntese de DNA e RNA e interfere na mitose na

interfase. Seus efeitos podem ser mediados pela produção de metabólitos

ativos. É administrada por via oral, e seu uso principal é na doença de

Hodgkin. Causa ações semelhantes ao dissulfiram com álcool (ver

Capítulo 50), exacerba os efeitos dos depressores do sistema nervoso

central e, como se trata de inibidor fraco da monoamina oxidase, pode

produzir hipertensão se administrada com alguns agentes simpatomiméticos

(ver Capítulo 48). Outros agentes alquilantes em uso clínico incluem

hidroxicarbamida, mitobronitol, tiotepa e treossulfano.

 

■ Compostos de platina

A cisplatina é um complexo de coordenação plano hidrossolúvel, contendo

um átomo de platina central cercado por dois átomos de cloreto e dois

grupos de amônia. Sua ação é análoga à dos agentes alquilantes. Quando

entra na célula, o Cl− dissocia-se, deixando um complexo reativo que reage

com a água e, então, interage com o DNA. Causa entrecruzamento

intrafilamentos, provavelmente entre N7 e O6 das moléculas de guanina

adjacentes, resultando na desnaturação local do DNA.

A cisplatina revolucionou o tratamento dos tumores sólidos de testículo

e ovário. Terapeuticamente, é administrada por injeção ou infusão

intravenosa lenta. É altamente nefrotóxica, e é preciso instituir rígidos esquemas de hidratação e diurese com seu uso. Apresenta baixa