Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 150 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Doenças farmacocinéticas de um único gene

uma sequência reguladora perto desse gene. Embora muitos SNP não

apresentem uma associação clara com problemas de saúde, alguns

demonstraram uma relação com a suscetibilidade a produtos químicos

prejudiciais, com a magnitude de resposta aos fármacos e com a

probabilidade de desenvolver uma doença. Por exemplo, os SNP que

afetam o gene F5 podem provocar um distúrbio no fator V de Leiden da

cascata de coagulação, sendo a forma mais comum de trombofilia

hereditária (ver Capítulo 25). Essa alteração do fator V confere risco

aumentado de trombose venosa em resposta a fatores ambientais como

imobilização prolongada, mas poderá ter sido uma vantagem nos ancestrais,

em que o risco hemorrágico era superior ao da trombose.

 

DOENÇAS FARMACOCINÉTICAS DE UM ÚNICO GENE

O modelo mendeliano clássico contrasta com o complexo paradigma da

doença, porque aplica-se a doenças de um único gene ou monogênicas, nas

quais uma mutação em um gene é a causa primária, ou única, de disfunção

profunda. Estas são, em geral, doenças raras, em que as variantes genéticas

subjacentes apresentam elevada penetrância, com padrões de

hereditariedade previsíveis de uma forma mendeliana. Tal foi reconhecido

no albinismo (os albinos não contêm uma enzima necessária para a síntese

do pigmento marrom da melanina) e em outros “erros herdados do

metabolismo” no início do século XX por Archibald Garrod, um médico

britânico que iniciou o estudo da genética bioquímica. A investigação desse

grande grupo de doenças raras individuais contribuiu para o entendimento

deste aspecto específico da patologia molecular – a hipercolesterolemia

familiar e o mecanismo de ação das estatinas (ver Capítulo 24) é um dos exemplos. Outros exemplos de doenças de gene único são mostrados a

seguir.

 

Deficiência em colinesterase plasmática

Nos anos 1950, Walter Kalow descobriu que a sensibilidade ao

suxametônio é decorrente de uma variação genética na velocidade do

metabolismo do fármaco como resultado de um traço autossômico recessivo

mendeliano. Esse fármaco bloqueador neuromuscular de ação curta é

amplamente utilizado em anestesia e, em geral, é rapidamente hidrolisado

pela colinesterase plasmática (ver Capítulo 14). Em torno de 1 em cada

3.000 indivíduos é incapaz de inativar rapidamente o suxametônio, e

experimenta bloqueio neuromuscular prolongado se tratado com ele; isso

ocorre porque um gene recessivo origina um tipo anormal de colinesterase

plasmática. A enzima anormal tem um padrão modificado de especificidade

para substratos e inibidores. É detectada por um teste sanguíneo que mede o

efeito do inibidor dibucaína, que inibe menos a enzima anormal que a

enzima normal. Os heterozigotos podem hidrolisar o suxametônio a uma

taxa mais ou menos normal, mas sua colinesterase plasmática apresenta

sensibilidade reduzida à dibucaína, intermediária à de indivíduos normais e

homozigotos. Apenas os homozigotos expressam a doença: eles aparentam

ser completamente saudáveis, a menos que sejam expostos ao suxametônio

ou mivacúrio (que também é inativado pelas colinesterases plasmáticas)

mas apresentam paralisia prolongada se expostos a uma dose que causaria

bloqueio neuromuscular durante apenas alguns minutos em uma pessoa

saudável.4 Existem outras razões pelas quais as respostas ao suxametônio

podem ser anormais em um determinado paciente, das quais a hipertermia

maligna (ver Capítulo 14), uma reação adversa a fármacos idiossincrática

determinada geneticamente e envolvendo o receptor de rianodina (ver

Capítulo 4), é um exemplo notável. É importante verificar a história

familiar e testar membros da família que possam ser afetados, mas o

distúrbio é tão raro que, atualmente, é impraticável rastreá-lo de forma

rotineira antes do uso terapêutico do suxametônio.

 

Figura 12.3 Distribuição das concentrações plasmáticas individuais de dois

fármacos em humanos. A. Concentração plasmática de salicilato 3 h após dose oral de salicilato de sódio. B. Concentração plasmática de isoniazida 6 h após dose oral. Observe a distribuição normal de valores para o salicilato, comparada com a distribuição bimodal da isoniazida. (Painel [A] de Evans, D.A., Clarke, C.A., 1961. Br. Med. Bull. 17, 234-280; painel [B] de Price-Evans, D.A., 1963. Am. J. Med. 3, 639.)

 

Porfiria aguda intermitente

As porfirias hepáticas são distúrbios farmacogenéticos prototípicos nos

quais os pacientes podem ser sintomáticos mesmo quando não expostos a

um fármaco, mas em que muitos fármacos podem provocar um

agravamento importante do curso da doença. São distúrbios hereditários

envolvendo a via bioquímica de biossíntese do heme da porfirina. A

porfiria aguda intermitente é a forma aguda e grave mais comum. É

herdada com um traço autossômico dominante e é decorrente de uma entre muitas mutações possíveis do gene que codifica a porfobilinogênio

desaminase (PBGD), uma enzima-chave na biossíntese do heme nos

precursores de eritrócitos, em hepatócitos e outras células. Todas essas

mutações reduzem a atividade dessa enzima, e as características clínicas são

causadas pelo resultante acúmulo dos precursores do heme, incluindo as

porfirinas. Há uma forte inter-relação com o ambiente por meio da

exposição a fármacos, hormônios e outras substâncias. O uso de sedativos,

anticonvulsivantes ou outros fármacos em pacientes com porfiria não

diagnosticada pode ser letal, embora a maioria dos pacientes se recupere

completamente com um tratamento de suporte apropriado.5 Muitos

fármacos, especialmente (mas não exclusivamente) aqueles que induzem as

enzimas CYP (p. ex., barbitúricos, griseofulvina, carbamazepina,

estrogênios; ver Capítulo 10), podem precipitar crises agudas em indivíduos

suscetíveis. As porfirinas são sintetizadas a partir do ácido δ-

aminolevulínico (ALA), que é formado por ALA sintase no fígado. Essa

enzima é induzida por fármacos como os barbitúricos, conduzindo a um

aumento da produção de ALA e, portanto, a maior acúmulo de porfirina.

Como mencionado anteriormente, o traço genético é herdado como

autossômico dominante, mas a manifestação da doença é aproximadamente

cinco vezes mais comum em mulheres que em homens, porque as

flutuações hormonais precipitam as crises agudas.

 

Deficiência de acetilação de fármacos

Ambos os exemplos considerados até agora são doenças incomuns.

Contudo, nos anos 1960, Price-Evans demonstrou que a taxa de acetilação

de fármacos variava em diferentes populações como resultado de um

polimorfismo balanceado. A Figura 12.3 compara a distribuição

aproximadamente gaussiana das concentrações plasmáticas obtidas 3 h após a administração de uma dose de salicilato com a distribuição bimodal das

concentrações plasmáticas após uma dose de isoniazida. A concentração de

isoniazida foi < 20 μmol/ℓ em cerca de metade da população e, nesse grupo,

a moda foi de aproximadamente 9 μmol/ ℓ . Na outra metade da população

(concentração plasmática > 20 μmol/ℓ), a moda foi de aproximadamente 30

μmol/ ℓ. A eliminação da isoniazida depende, essencialmente, da acetilação

catalisada por uma enzima acetiltransferase. Alguns estudos relataram que

os acetiladores lentos apresentam risco superior de hepatotoxicidade

associada à isoniazida. No entanto, investigações em curso sugerem que os

efeitos adversos podem surgir em decorrência de vários mecanismos

diferentes, não existindo apenas uma única via ou variante genética

responsável, na totalidade, pela toxicidade hepática da isoniazida.

A acetiltransferase é também importante no metabolismo de outros

fármacos, incluindo hidralazina (ver Capítulo 22), procainamida (ver

Capítulo 22), dapsona e várias outras sulfonamidas (ver Capítulo 52), e a

condição do acetilador influencia o lúpus induzido por fármacos (uma

anomalia autoimune que afeta muitos órgãos, incluindo pele, articulações e

rins), causado por alguns desses agentes. No entanto, nem a fenotipagem

(por medição da cinética de transformação do fármaco) nem a genotipagem

para acetiltransferase encontrou visibilidade na prática clínica de rotina,

provavelmente porque esses fármacos são relativamente pouco utilizados e

há diversos tratamentos alternativos disponíveis que são geralmente

preferidos.

 

Ototoxicidade por aminoglicosídios

Nos exemplos anteriores, variações em genes cromossômicos provocam

variações na resposta a fármacos. A suscetibilidade aumentada à perda de

audição causada por antibióticos aminoglicosídios (ver Capítulo 52) é, em algumas famílias, herdada de maneira bastante diferente, nomeadamente de