Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 270 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos que aumentam a contração do miocárdio

Teofilina e outros xantínicos (ver Capítulos 17 e 28) bloqueiam os

receptores da adenosina e inibem as ações da adenosina intravenosa,

enquanto o dipiridamol (vasodilatador e antiplaquetário; ver p. 285 e

Capítulo 24) bloqueia o mecanismo de captação de nucleosídios,

potencializando a adenosina e prolongando seus efeitos adversos. Ambas as

interações são clinicamente importantes.

 

Usos clínicos dos antiarrítmicos da classe IV

 

• O verapamil é o fármaco principal. É usado:

– Para prevenir recorrência de TSV paroxística

– Para reduzir a frequência ventricular em pacientes com brilação atrial, uma vez que

não tenham síndrome de Wolff-Parkinson-White ou um distúrbio relacionado

• O diltiazem é semelhante

• No passado, o verapamil era administrado por via intravenosa para extinguir TSV;

atualmente, seu uso para este m é raro, pois a adenosina é mais segura. (Uma

preparação de liberação lenta de verapamil é, por vezes, utilizada para tratar hipertensão

e/ou angina, em especial quando se pretende retardar a frequência cardíaca, mas um

antagonista dos receptores β-adrenergicos é contraindicado.)

 

FÁRMACOS QUE AUMENTAM A CONTRAÇÃO DO

MIOCÁRDIO

 

Glicosídios cardíacos

Os glicosídios cardíacos são provenientes da dedaleira (Digitalis spp.) e

plantas relacionadas. Withering (1775) escreveu sobre o uso da dedaleira:

“apresenta um poder sobre o movimento do coração em um grau ainda não observado em qualquer outro remédio (…)”. A planta contém vários

glicosídios cardíacos com ações semelhantes. Sua estrutura química básica

consiste em três componentes: uma estrutura açúcar, um esteroide e um anel

lactona. A lactona é essencial para a atividade, as outras partes da molécula

determinam a potência e as propriedades farmacocinéticas.

Terapeuticamente, o glicosídio cardíaco mais importante é a digoxina.

Os fatores digital-símiles endógenos foram discutidos por quase meio

século. Existem evidências em mamíferos de um fator digital-símile

endógeno muito semelhante à ouabaína, um glicosídio cardíaco de curta

ação implicado na função cardiovascular (Schoner e Scheiner-Bobis, 2007;

Blaustein et al., 2016). Os esteroides cardiotônicos endógenos foram

inicialmente considerados importantes para a regulação do transporte renal

de sódio e da pressão arterial, porém também foram implicados na

regulação do crescimento, diferenciação e apoptose celular, na fibrose, na

modulação da imunidade e do metabolismo de carboidratos, e no controle

de diferentes funções nervosas centrais (Bagrov et al., 2009).

 

■ Ações e efeitos adversos

As principais ações dos glicosídios são sobre o coração, mas alguns dos

seus efeitos adversos são extracardíacos, incluindo náuseas, vômitos,

diarreia e confusão. Os efeitos cardíacos são:

 

• Redução da frequência cardíaca e da velocidade de condução nó AV,

devido à atividade vagal aumentada

• Aumento da força de contração

• Distúrbios de ritmo, notadamente:

• Bloqueio da condução AV

• Aumento da atividade de marca-passo ectópica.

Os efeitos adversos são comuns e podem ser graves. Uma das principais

desvantagens dos glicosídios em uso clínico é a estreita margem entre

eficácia e toxicidade.

 

■ Mecanismo

O mecanismo pelo qual os glicosídios cardíacos aumentam a força de

contração (efeito inotrópico positivo) é a inibição da bomba Na+/K+ nos

miócitos cardíacos. Isso causa aumento de [Na+]i, e um aumento secundário

de [Ca2+] i (ver adiante). Os glicosídios cardíacos ligam-se a um ponto na porção extracelular da subunidade α da Na+/K+-ATPase e são ferramentas

experimentais úteis para o estudo desse importante transportador. O

mecanismo molecular que fundamenta o aumento do tônus vagal (efeito

cronotrópico negativo) é desconhecido, porém também pode ser devido à

inibição da bomba Na+/K+.

 

■ Frequência e ritmo

Os glicosídios cardíacos retardam e, em concentrações mais elevadas,

podem bloquear a condução AV em virtude do aumento da atividade vagal,

de onde deriva, em parte, seu efeito benéfico em fibrilação atrial rápida

estabelecida. Se a frequência ventricular for excessivamente rápida, o

tempo disponível para enchimento diastólico será inadequado; assim, a

redução da frequência cardíaca pelo bloqueio parcial da condução AV

aumenta o volume sistólico e a eficiência cardíaca, mesmo que a fibrilação

atrial persista. A digoxina pode extinguir a taquicardia atrial paroxística

pelos seus efeitos na condução AV, embora a adenosina (ver anteriormente)

seja, em geral, preferível para essa indicação.

Concentrações tóxicas de glicosídios afetam o ritmo sinusal. Isso pode

ocorrer em concentrações plasmáticas de digoxina dentro da faixa terapêutica, ou pouco acima dela. Bloqueio AV pode ocorrer, e também

batimentos ectópicos. Como a troca de Na+/K+ é eletrogênica, a inibição da

bomba pelos glicosídios causa despolarização, predispondo a distúrbios do

ritmo cardíaco. Além disso, o aumento da [Ca2+] i causa aumento da pós-despolarização, levando primeiramente a batimentos acoplados

(bigeminismo), nos quais um batimento ventricular normal é seguido por

um batimento ectópico; pode surgir taquicardia ventricular e, finalmente,

fibrilação ventricular.

 

■ Força de contração

Os glicosídios causam grande aumento da tensão de contração em

preparações isoladas de músculo cardíaco. Ao contrário das catecolaminas,

não aceleram o relaxamento (compare a Figura 22.6 com a Figura 22.10). O

aumento da tensão é causado por um aumento transitório da [Ca2+]i (Figura

22.10). O potencial de ação é apenas discretamente afetado, e a corrente de

entrada lenta muda pouco, de modo que o aumento transitório de [Ca2+] i deve-se provavelmente a maior liberação de Ca2+ dos depósitos

intracelulares. O mecanismo mais provável é o seguinte (ver também

Capítulo 4):

 

1. Os glicosídios inibem a bomba de Na+/K+.

2. O aumento de [Na+]i retarda a extrusão de Ca2+ via transportador de

troca Na+/Ca2+, visto que o aumento de [Na+] i reduz o gradiente para

dentro da célula de Na+, que impulsiona a extrusão de Ca2+ pela troca de

Na+/Ca2+.

3. A aumentada [Ca2+]i é armazenada no retículo sarcoplasmático e, desse

modo, ocorre aumento da quantidade de Ca2+ liberado em cada potencial

de ação.

■ Efeito do potássio extracelular

Os efeitos dos glicosídios cardíacos aumentam caso haja diminuição da

[K+] plasmática, em consequência da redução da competição no local de

ligação de K+ na bomba Na+/K+-ATPase. Esse fato é de importância clínica,

porque muitos diuréticos, que costumam ser usados no tratamento da

insuficiência cardíaca (ver Capítulo 30), diminuem a [K+] no plasma,

aumentando, assim, o risco de arritmia induzida pelos glicosídios.

 

■ Aspectos farmacocinéticos

A digoxina é administrada por via oral ou, em situações de urgência, IV. É

uma molécula polar; a eliminação ocorre principalmente por excreção renal

e envolve a glicoproteína P (ver Capítulo 9), levando a interações

clinicamente significativas com outros fármacos usados para tratamento da

insuficiência cardíaca, como a espironolactona, e com antiarrítmicos como

o verapamil e a amiodarona. A meia-vida de eliminação é de

aproximadamente 36 h em pacientes com função renal normal, mas torna-se

consideravelmente mais longa em idosos e em pacientes com insuficiência

renal manifesta. Nesses casos, é necessário reduzir as doses. Usa-se dose de

ataque em situações de urgência. A faixa terapêutica das concentrações

plasmáticas, abaixo das quais a digoxina tem pouca probabilidade de ter

efeito e acima das quais o risco de toxicidade aumenta substancialmente, é

bastante estreita (1 a 2,6 nmol/ ℓ ). A determinação da concentração

plasmática de digoxina é útil quando houver suspeitas sobre a eficácia ou a

toxicidade.

Figura 22.10 Efeito de um glicosídio cardíaco (acetilestrofantidina) sobre o

transiente de Ca2+ e a tensão produzida pelo músculo cardíaco de rã. O efeito foi

registrado como na Figura 22.6. (De Allen, D.G., Blinks, J.R., 1978. Nature 273, 509.)

 

Usos clínicos dos glicosídios cardíacos (p. ex., digoxina)

 

• Para reduzir a frequência ventricular em brilação atrial rápida persistente

• Tratamento de insu ciência cardíaca nos pacientes que continuam sintomáticos apesar do

uso ótimo de diuréticos e IECA (ver Capítulo 23).

 

Outros fármacos que aumentam a contratilidade do miocárdio

Certos agonistas β1-adrenérgicos, como a dobutamina, são usados no tratamento da insuficiência cardíaca aguda, mas potencialmente reversível

(p. ex., após cirurgia cardíaca ou em alguns casos de choque cardiogênico

ou séptico), por sua ação inotrópica positiva. A dobutamina, por motivos

ainda não bem compreendidas, produz menos taquicardia do que outros

agonistas β 1. É usada IV para tratamento a curto prazo da insuficiência cardíaca aguda, ou para testes de estresse cardíaco farmacológico ou

ecocardiograma. O glucagon também aumenta a contratilidade do

miocárdio por aumento da síntese de cAMP e tem sido usado em pacientes

com disfunção cardíaca aguda por superdosagem de betabloqueadores.