Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 389 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Diabetes melito

enteroendócrinas no duodeno e no jejuno proximal. O GLP-1 é secretado

pelas células L, as quais apresentam uma distribuição mais disseminada ao

longo do intestino, incluindo o íleo, o cólon e as porções mais proximais.

São secretadas duas formas de GLP-1 após uma refeição: GLP-1(7 a 37) e

GLP-1(7 a 36) amida; ambas com potência semelhante. A maior parte da

atividade circulante é decorrente do GLP-1(7 a 36) amida. A liberação de

GIP e de GLP-1 pelo alimento ingerido provoca um estímulo precoce à

liberação de insulina antes que a glicose absorvida ou outros produtos da

digestão alcancem as células da ilhota pelo sangue que circula no sistema

porta (ver Figura 32.1). Além de estimularem a secreção de insulina, ambos

os hormônios inibem a secreção pancreática de glucagon e retardam a taxa

de absorção do alimento digerido por meio da redução do esvaziamento

gástrico. Eles também estão implicados no controle da ingesta alimentar,

alterando o apetite e a saciedade (ver Capítulo 33). Os efeitos do GIP e do

GLP-1 são rapidamente interrompidos pela enzima dipeptidil peptidase-4

(DPP-4). Ela é uma glicoproteína de membrana com uma especificidade

relativamente ampla por seus substratos e tem sido envolvida na supressão

de tumores malignos e na aterogênese (Waumans et al., 2015); entretanto,

estão licenciados inibidores para tratar o diabetes.

 

DIABETES MELITO

O diabetes melito é um distúrbio metabólico crônico caracterizado por

elevadas concentrações de glicose no sangue – hiperglicemia (glicose

plasmática de jejum > 7,0 mmol/ℓ, ou glicose plasmática > 11,1 mmol/ℓ, 2

h após uma refeição) – causadas por deficiência de insulina, frequentemente

combinada com resistência a ela. Existem dois tipos principais de diabetes

melito:

Diabetes tipo 1: previamente conhecido como diabetes melito 1.

insulinodependente (DMID) ou diabetes de início juvenil, em que há

uma insuficiência absoluta de insulina

2. Diabetes tipo 2: previamente conhecido como diabetes melito não

insulinodependente (DMNID) ou diabetes de início no adulto, em que

há uma insuficiência relativa de insulina associada a uma sensibilidade

reduzida à sua ação (resistência à insulina).

A hiperglicemia ocorre devido à liberação descontrolada de glicose pelo

fígado associada a uma redução na captação de glicose pelo músculo

esquelético, com diminuição da síntese de glicogênio. A insuficiência de

insulina provoca atrofia muscular, causada pelo aumento da degradação

proteica e da síntese reduzida de proteínas. A cetoacidose diabética é uma

emergência aguda observada predominantemente em pacientes com

diabetes tipo 1. Essa condição ocorre na ausência de insulina, devido a uma

degradação acelerada das gorduras em acetIL-CoA, que, na ausência de

metabolismo aeróbio dos carboidratos, é convertida em acetoacetato e β-

hidroxibutirato (que provocam acidose) e acetona (uma cetona).

Diversas complicações surgem como consequência das alterações

metabólicas do diabetes, frequentemente ao longo de vários anos. Muitas

delas resultam de doença dos vasos sanguíneos, sejam eles de grande

calibre (doença macrovascular) ou de pequeno calibre (microangiopatia). A

disfunção do endotélio vascular (ver Capítulo 23) é um evento crítico e

precoce no desenvolvimento das complicações vasculares. Os radicais

livres derivados do oxigênio, a proteinoquinase C e os produtos não

enzimáticos da glicose e da albumina, denominados produtos terminais de

glicação avançada (AGE; do inglês, advanced glycation end products), têm

sido envolvidos nessa disfunção. A doença macrovascular consiste em

ateromatose acelerada (ver Capítulo 24) e suas complicações trombóticas

(ver Capítulo 25), as quais são mais comuns e mais graves em pacientes

diabéticos. A microangiopatia é uma característica distinta do diabetes

melito e afeta particularmente a retina, os rins e os nervos periféricos. O

diabetes melito é a causa mais comum da insuficiência renal crônica, um

problema grave e em franco crescimento, além de um fardo pesado para a

sociedade e para os pacientes. A coexistência de hipertensão promove dano

renal progressivo, e o tratamento da hipertensão retarda a progressão da

nefropatia diabética e reduz o risco de infarto do miocárdio. Os inibidores

da enzima conversora de angiotensina ou os antagonistas do receptor da

angiotensina (ver Capítulo 23) são mais eficazes na prevenção da nefropatia

diabética do que outros agentes anti-hipertensivos, talvez porque impeçam

os efeitos fibroproliferativos da angiotensina II e da aldosterona.

A neuropatia diabética5 está associada ao acúmulo de metabólitos

osmoticamente ativos da glicose, produzidos pela ação da aldose redutase;

porém, os inibidores da aldose redutase não são eficazes como agentes

terapêuticos (ver Farmer et al., 2012, para revisão sobre o tema).

O diabetes tipo 1 pode ocorrer em qualquer idade, mas os pacientes

comumente são jovens (crianças ou adolescentes) e não obesos quando

surgem os primeiros sintomas. Existe uma predisposição genética, com uma

incidência de 10 a 15% nos familiares de primeiro grau e uma forte

associação com determinados antígenos histocompatíveis (tipos HLA). A

baixa concordância entre gêmeos idênticos sugere que sejam necessários

fatores ambientais como infecções virais (p. ex., o vírus coxsackie ou

ecovírus) para que indivíduos com predisposição genética desenvolvam a

doença. A infecção viral pode lesar as células β pancreáticas e expor

antígenos que deflagram um processo autoimune que se autoperpetua. O

paciente só se torna francamente diabético quando mais de 90% das células

β pancreáticas foram destruídos. Essa história natural do diabetes fornece uma tentadora possibilidade de intervenção no estágio pré-diabético, e

diversas estratégias foram discutidas, incluindo o uso de

imunossupressores, a terapia precoce com insulina, o emprego de

antioxidantes, nicotinamida e muitas outros. Até o momento, todas as

tentativas foram decepcionantes, mas esse campo de pesquisa permanece

altamente ativo.

O diabetes tipo 2 é acompanhado tanto de resistência à insulina (a qual

precede a manifestação franca da doença) quanto de comprometimento da

secreção dela, ambos importantes na sua patogenia. Esses pacientes são

frequentemente obesos, e, em geral, a doença se manifesta na vida adulta,

sendo que a incidência aumenta progressivamente com a idade, à medida

que a função das células β declina. O tratamento é inicialmente com dieta,

embora os antidiabéticos orais se tornem necessários e, em último caso, a

maior parte dos pacientes se beneficie de insulina exógena. Estudos

prospectivos demonstraram uma deterioração contínua no controle do

diabetes6 com o aumento da idade e a duração da doença.

Na Figura 32.2, é apresentada a secreção de insulina (basal e em

resposta aos alimentos) em um paciente com diabetes tipo 1 e tipo 2 por

oposição a um controle saudável.

Existem muitos outros tipos menos comuns de diabetes melito além das

duas principais apresentadas anteriormente, como síndromes associadas a

autoanticorpos dirigidas contra receptores de insulina que provocam uma

grave resistência ao hormônio, tumores funcionais das células α,

“glucagonomas” e muitas outras raridades. A hiperglicema também pode

constituir um efeito adverso clinicamente importante de vários fármacos,

incluindo glicocorticoides (ver Capítulo 34), doses altas de diuréticos

tiazídicos (ver Capítulo 30) e muitos dos inibidores da protease utilizados

no tratamento da infecção pelo HIV (ver Capítulo 53).