Rang e Dale: Farmacologia
Vômito
trato GI, e uma deficiência na produção endógena (depois da ingestão de
um AINE, por exemplo) pode contribuir para a formação de úlcera. O
misoprostol é um análogo estável da PGE1. É administrado por via oral e usado para promover a cicatrização de úlceras ou para prevenir uma lesão
gástrica que pode ocorrer com o uso crônico de AINE. Exerce ação direta
sobre a célula ECS (e possivelmente sobre a célula parietal também; ver
Figura 31.2), inibindo a secreção basal de ácido gástrico, bem como a
estimulação da produção que ocorre em resposta a alimentos, pentagastrina
e cafeína. Também aumenta o fluxo sanguíneo na mucosa e a secreção de
muco e de bicarbonato. Os efeitos adversos incluem diarreia e cólicas
abdominais; também podem ocorrer contrações uterinas, de modo que o
fármaco não deve ser usado durante a gravidez (a menos que
deliberadamente para induzir abortamento terapêutico; ver Capítulo 36). As
PG e os AINE são discutidos mais detalhadamente nos Capítulos 7 e 27.
VÔMITO
As náuseas e os vômitos são efeitos colaterais indesejáveis de muitos
fármacos clinicamente úteis, notadamente os usados para quimioterapia, no
câncer, mas também os opioides, anestésicos gerais e digoxina. Eles
também ocorrem na cinetose,6 durante o início da gravidez e em inúmeras
doenças (p. ex., enxaqueca), bem como em infecções bacterianas e virais.
MECANISMO REFLEXO DO VÔMITO
Vomitar é uma resposta defensiva com o objetivo de livrar o organismo de
material tóxico ou irritante. Componentes venenosos, toxinas de bactérias e
muitos fármacos citotóxicos (bem como distensão mecânica) desencadeiam
a liberação de mediadores como a 5-HT nas células enterocromafins do revestimento do trato GI, que emitem sinais nas fibras aferentes vagais. O
ato físico de vomitar é coordenado centralmente pelo centro do vômito
(emético), na medula (Figura 31.5). De fato, essa não é uma localização
anatômica individualizada, mas uma rede de vias neurais que integra sinais
vindos de outras localizações, uma das quais, na área postrema, é conhecida
como zona do gatilho quimiorreceptora (ZGQ). Ela recebe estímulos do
labirinto no ouvido interno, através dos núcleos vestibulares (o que explica
o mecanismo da cinetose) e de aferentes vagais vindos do trato GI.
Substâncias químicas tóxicas na corrente sanguínea também podem ser
diretamente detectadas pela ZGQ porque a barreira hematencefálica é
relativamente permeável nessa área. A ZGQ é, portanto, o principal local de
ação de muitos fármacos eméticos e antieméticos (Tabela 31.1).
O centro do vômito também recebe sinais diretamente dos aferentes
vagais, que também são transmitidos através da ZGQ. Além disso, recebe
estímulos de centros corticais superiores, explicando por que visões ou
odores desagradáveis ou repulsivos, ou estímulos emocionais fortes, podem,
por vezes, induzir náuseas e vômitos.
Os principais neurotransmissores envolvidos nesse neurocircuito são
ACh, histamina, 5-HT, dopamina e substância P, e os receptores para esses
transmissores foram demonstrados nas áreas relevantes (ver Capítulos 13 a
17). Levanta-se a hipótese de que as encefalinas (ver Capítulo 43) também
estejam implicadas na mediação do vômito, atuando, possivelmente, em
receptores opioides dos tipos δ (ZGQ) ou (centro do vômito). Também
podem estar envolvidos a substância P (ver Capítulo 19), atuando nos
receptores de neurocinina-1 na ZGQ, e os endocanabinoides (ver Capítulo
20).
A neurobiologia das náuseas é bem menos compreendida. As náuseas e
a êmese podem ocorrer juntas ou separadamente e podem servir a diferentes funções fisiológicas (Andrews e Horn, 2006). Do ponto de vista do
farmacologista, é mais fácil controlar a êmese do que as náuseas, sendo que
muitos antieméticos eficazes (p. ex., antagonistas 5-HT 3) são muito menos eficientes a esse respeito.
Figura 31.5 Diagrama esquemático dos fatores envolvidos no controle dos
vômitos, com os prováveis locais de ação dos antieméticos. Existem três centros importantes localizados na medula. A zona do gatilho quimiorreceptora (ZGQ), o centro do vômito e os núcleos vestibulares. O centro do vômito recebe estímulos da ZGQ, do trato gastrintestinal (GI), por meio de conexões aferentes vagais, e dos centros corticais superiores, além de coordenar o ato físico da êmese. Os aferentes vagais vindos do trato GI também se juntam diretamente à ZGQ, bem como aos estímulos do núcleo vestibular, que, por sua vez, recebe estímulos do labirinto. (Adaptada de Rojas e Slusher, 2012.) FÁRMACOS ANTIEMÉTICOS