Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 672 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Estratégias virais para enganar as defesas do hospedeiro

soe exatamente como um bebê peru; ver Capítulo 7). O vírus pode escapar

da detecção imunológica pelos linfócitos citotóxicos por meio da

modificação da expressão do complexo peptídio-MHC (ver Capítulo 7),

mas ainda é vítima das células NK, embora alguns vírus também tenham

um dispositivo para evadir-se às células NK (ver adiante).

No interior da própria célula, o silenciador de gene oferece um nível

adicional de proteção (Schutze, 2004). Fragmentos curtos de duplo

filamento de RNA, tais como aqueles que podem resultar das tentativas do

vírus em recrutar o sistema de transcrição/translação do hospedeiro, fazem,

na realidade, com que o gene que codifica o RNA seja “silenciado” –

desligado. O gene, então, não é mais capaz de dirigir a síntese proteica viral

adicional, interrompendo a replicação. Esse mecanismo pode ser explorado

com propósitos experimentais em muitas áreas da biologia, e o siRNA

manufaturado (RNA de interferência pequeno ou curto) é uma técnica

barata e útil para suprimir temporariamente a expressão de um gene de

particular interesse. As tentativas para aperfeiçoar essa técnica com

propósitos virulicidas (ou virucidas) obtiveram algum sucesso (Barik, 2004)

e estão começando a encontrar seu caminho na terapia (ver Capítulo 5).

 

ESTRATÉGIAS VIRAIS PARA ENGANAR AS DEFESAS DO HOSPEDEIRO

Os vírus desenvolveram uma variedade de estratégias para garantir o

sucesso da infecção, algumas envolvendo o redirecionamento da resposta

do hospedeiro como vantagem para o vírus (discutido por Tortorella et al.,

2000). Alguns exemplos são discutidos a seguir.

 

■ Subversão da resposta imunológica Os vírus podem inibir a síntese ou ação das citocinas, como a interleucina-

1, o TNF-α e as interferonas (IFN) antivirais, que normalmente coordenam

as respostas imunológicas inatas e adaptativas. Após a infecção, por

exemplo, alguns poxvírus expressam proteínas que imitam os domínios de

ligação dos ligantes extracelulares dos receptores de citocina. Esses

pseudorreceptores ligam-se às citocinas, impedindo-as de atingir seus

receptores naturais nas células do sistema imunológico e, assim, moderando

a resposta imunológica normal contra as células infectadas por vírus. Outros

vírus podem interferir na sinalização das citocinas, incluindo o

citomegalovírus humano, o vírus Epstein-Barr, o herpes-vírus e o

adenovírus.

 

■ Evasão da detecção imunológica e do ataque pelas células

natural killer

Uma vez dentro das células do hospedeiro, os vírus também podem escapar

da detecção imunológica e evadir-se dos ataques letais dos linfócitos

citotóxicos e das células NK de várias maneiras, como, por exemplo:

 

• Interferência nos marcadores proteicos de superfície nas células

infectadas, necessários ao reconhecimento e ao ataque das células

assassinas. Alguns vírus inibem a geração de peptídios antigênicos e/ou

a apresentação das moléculas peptídicas-MHC, que sinalizam que as

células estão infectadas. Desse modo, os vírus permanecem

indetectáveis. Exemplos de vírus que podem fazer isso são adenovírus,

herpes-vírus simples, citomegalovírus humano, vírus Epstein-Barr e

vírus influenza

• Interferência na via apoptótica. Adenovírus, citomegalovírus humano e

vírus Epstein-Barr podem subverter essa via para garantir a própria

sobrevivência • Manobra para enganar o “bebê peru”. Alguns vírus (p. ex.,

citomegalovírus) contornam a “estratégia mamãe peru” das células NK

ao expressarem um homólogo de classe I do MHC (o equivalente ao

piado de um filhote de peru), que é próximo o suficiente ao real para

enganar as células NK.

 

É evidente que a seleção natural equipou os vírus patogênicos com muitas

táticas eficazes para enganar as defesas do hospedeiro, e a respectiva

compreensão detalhada provavelmente sugerirá novos tipos de tratamento

antiviral. Felizmente, a corrida por armas biológicas não é apenas unilateral,

e a evolução também equipou o hospedeiro com contramedidas

sofisticadas. Na maioria dos casos, estas prevalecem, e muitas infecções

virais, por fim, resolvem-se espontaneamente, exceto em hospedeiros

imunocomprometidos. A situação nem sempre apresenta final feliz;

algumas infecções virais, como a febre de Lassa e a infecção pelo vírus

Ebola, apresentam mortalidade elevada. Agora, discutiremos um exemplo

adicional e grave: o vírus HIV. Essa ênfase é apropriada porque, embora a

infecção se desenvolva mais lentamente do que, por exemplo, o vírus

Ebola, o HIV exibe muitas características em comum com outras infecções

virais, e a escalada vertical do problema global da AIDS colocou o HIV no

topo da lista dos alvos antivirais.