Rang e Dale: Farmacologia
Estratégias virais para enganar as defesas do hospedeiro
soe exatamente como um bebê peru; ver Capítulo 7). O vírus pode escapar
da detecção imunológica pelos linfócitos citotóxicos por meio da
modificação da expressão do complexo peptídio-MHC (ver Capítulo 7),
mas ainda é vítima das células NK, embora alguns vírus também tenham
um dispositivo para evadir-se às células NK (ver adiante).
No interior da própria célula, o silenciador de gene oferece um nível
adicional de proteção (Schutze, 2004). Fragmentos curtos de duplo
filamento de RNA, tais como aqueles que podem resultar das tentativas do
vírus em recrutar o sistema de transcrição/translação do hospedeiro, fazem,
na realidade, com que o gene que codifica o RNA seja “silenciado” –
desligado. O gene, então, não é mais capaz de dirigir a síntese proteica viral
adicional, interrompendo a replicação. Esse mecanismo pode ser explorado
com propósitos experimentais em muitas áreas da biologia, e o siRNA
manufaturado (RNA de interferência pequeno ou curto) é uma técnica
barata e útil para suprimir temporariamente a expressão de um gene de
particular interesse. As tentativas para aperfeiçoar essa técnica com
propósitos virulicidas (ou virucidas) obtiveram algum sucesso (Barik, 2004)
e estão começando a encontrar seu caminho na terapia (ver Capítulo 5).
ESTRATÉGIAS VIRAIS PARA ENGANAR AS DEFESAS DO HOSPEDEIRO
Os vírus desenvolveram uma variedade de estratégias para garantir o
sucesso da infecção, algumas envolvendo o redirecionamento da resposta
do hospedeiro como vantagem para o vírus (discutido por Tortorella et al.,
2000). Alguns exemplos são discutidos a seguir.
■ Subversão da resposta imunológica Os vírus podem inibir a síntese ou ação das citocinas, como a interleucina-
1, o TNF-α e as interferonas (IFN) antivirais, que normalmente coordenam
as respostas imunológicas inatas e adaptativas. Após a infecção, por
exemplo, alguns poxvírus expressam proteínas que imitam os domínios de
ligação dos ligantes extracelulares dos receptores de citocina. Esses
pseudorreceptores ligam-se às citocinas, impedindo-as de atingir seus
receptores naturais nas células do sistema imunológico e, assim, moderando
a resposta imunológica normal contra as células infectadas por vírus. Outros
vírus podem interferir na sinalização das citocinas, incluindo o
citomegalovírus humano, o vírus Epstein-Barr, o herpes-vírus e o
adenovírus.
■ Evasão da detecção imunológica e do ataque pelas células
natural killer
Uma vez dentro das células do hospedeiro, os vírus também podem escapar
da detecção imunológica e evadir-se dos ataques letais dos linfócitos
citotóxicos e das células NK de várias maneiras, como, por exemplo:
• Interferência nos marcadores proteicos de superfície nas células
infectadas, necessários ao reconhecimento e ao ataque das células
assassinas. Alguns vírus inibem a geração de peptídios antigênicos e/ou
a apresentação das moléculas peptídicas-MHC, que sinalizam que as
células estão infectadas. Desse modo, os vírus permanecem
indetectáveis. Exemplos de vírus que podem fazer isso são adenovírus,
herpes-vírus simples, citomegalovírus humano, vírus Epstein-Barr e
vírus influenza
• Interferência na via apoptótica. Adenovírus, citomegalovírus humano e
vírus Epstein-Barr podem subverter essa via para garantir a própria
sobrevivência • Manobra para enganar o “bebê peru”. Alguns vírus (p. ex.,
citomegalovírus) contornam a “estratégia mamãe peru” das células NK
ao expressarem um homólogo de classe I do MHC (o equivalente ao
piado de um filhote de peru), que é próximo o suficiente ao real para
enganar as células NK.
É evidente que a seleção natural equipou os vírus patogênicos com muitas
táticas eficazes para enganar as defesas do hospedeiro, e a respectiva
compreensão detalhada provavelmente sugerirá novos tipos de tratamento
antiviral. Felizmente, a corrida por armas biológicas não é apenas unilateral,
e a evolução também equipou o hospedeiro com contramedidas
sofisticadas. Na maioria dos casos, estas prevalecem, e muitas infecções
virais, por fim, resolvem-se espontaneamente, exceto em hospedeiros
imunocomprometidos. A situação nem sempre apresenta final feliz;
algumas infecções virais, como a febre de Lassa e a infecção pelo vírus
Ebola, apresentam mortalidade elevada. Agora, discutiremos um exemplo
adicional e grave: o vírus HIV. Essa ênfase é apropriada porque, embora a
infecção se desenvolva mais lentamente do que, por exemplo, o vírus
Ebola, o HIV exibe muitas características em comum com outras infecções
virais, e a escalada vertical do problema global da AIDS colocou o HIV no
topo da lista dos alvos antivirais.