Rang e Dale: Farmacologia
Esclerose múltipla
Nusinersena, introduzida em 2016, é uma terapia genética recente para
esse distúrbio, relatada nos ensaios iniciais como travando a progressão da
doença em alguns pacientes. É uma sequência oligonucleotídica antisense
(ver Capítulo 5) administrada por injeção intratecal, que facilita a expressão
de SMN, não do gene mutado SMN-1, mas do SMN-2, um gene “cópia”
que em condições normais, devido a skipping de éxons, não produz muita
SMN funcional. A nusinersena impede o skipping, possibilitando, assim,
que a célula produza SMN.
ESCLEROSE MÚLTIPLA
A EM é uma doença associada a desmielinização de axônios nervosos e
degeneração neuronal, resultando em lesões que podem ocorrer em todo o
SNC. Os sintomas geralmente começam a se desenvolver entre os 20 e 30
anos de idade e dependem da localização das lesões. Sintomas comuns
incluem problemas com a visão, tonturas, equilíbrio, marcha, fadiga,
incontinência, rigidez muscular e espasmos musculares dolorosos. A EM
também pode afetar o processamento cognitivo e o humor. Afeta quase três
vezes mais mulheres do que homens. Há duas formas da doença, a surto-
remissão, em que os portadores têm crises de sintomas que
subsequentemente desaparecem parcial ou completamente, mas que depois
recidivam mais tarde na vida, e a primária progressiva, em que os sintomas
persistem e vão aumentando ao longo do tempo. A forma surto-remissão
pode, contudo, evoluir para secundária progressiva posteriormente na vida.
A causa de EM é desconhecida; assim como outras condições
neurodegenerativas, pode resultar de uma combinação de fatores genéticos
(Hollenbach e Oksenberg, 2015) e da exposição a fatores ambientais, como
infecção.
Há muito tempo a EM tem sido considerada uma doença
desmielinizante autoimune, embora não tenham sido identificados
proteínas, lipídios e gangliosídios na mielina que atuem como antígenos.
São achados patológicos comuns: inflamação (ver Capítulo 27), aumento da
permeabilidade da barreira hematencefálica, desmielinização e degeneração
axonal. É, contudo, ainda pouco claro se a EM é primariamente uma doença
autoimune que afeta o SNC ou uma doença neurodegenerativa com
desmielinização inflamatória secundária (Trapp e Nave, 2008). As terapias
atuais visam moderar os componentes inflamatórios agudos da EM (Tabela
41.3), mas têm efetividade limitada. Elas podem reduzir a taxa de
deterioração clínica e a incidência de surtos, mas, de modo geral, não
revertem a neurodegeneração que ocorreu. Vários (natalizumabe,
alentuzumabe, daclizumabe e ocrelizumabe) são anticorpos monoclonais
que apontam para proteínas específicas expressas em linfócitos B e T para
limitar a sua disseminação para o cérebro e medula espinal, em que atacam
a bainha de mielina em torno dos nervos motores. No entanto, a terapia com
anticorpos monoclonais acarreta o risco de complicações autoimunes graves
(ver Capítulo 5) que necessitam ser monitoradas. Os mecanismos
patológicos subjacentes à neurodegeneração, os quais tornam a doença
irreversível, ainda não são bem compreendidos, mas podem ser a chave
para encontrar tratamentos que curem a doença. O tratamento sintomático
da EM inclui baclofeno e nabiximol, um extrato botânico de Cannabis
contendo tetra-hidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) (ver Capítulo
20), para a espasticidade, e fampridina (um bloqueador dos canais de
potássio que aumenta a propagação do potencial de ação em axônios
desmielinizados) para melhora modesta na velocidade da marcha.
Tratamento farmacológico da esclerose múltipla
Vários agentes novos e e cazes emergiram para o tratamento da EM, mas tais métodos
comportam também um risco signi cativo de efeitos adversos graves. Como a gravidade e o
curso da EM variam substancialmente entre indivíduos, a seleção da terapia apropriada deve
considerar não só o benefício e os riscos dos agentes propostos, mas também a condição clínica
do paciente e as comorbidades.
A utilização em tempo útil de terapias modi cadoras da doença é recomendada em
pacientes que tenham evidência clínica e/ou radiológica de doença ativa. Exemplos das opções
terapêuticas para pacientes com EM surto-remissão ativa são:
• Fármacos de e cácia moderada como interferona-beta ou acetato de glatirâmer por
injeção. A teri unomida ou o dimetil fumarato podem ser usados se for preferível a
terapia oral
• Fármacos de e cácia elevada como natalizumabe ou alentuzumabe podem ser
considerados em pacientes com doença mais ativa.
Há evidência limitada para a interferona na EM progressiva, mas o ocrelizumabe é uma
opção emergente para a doença primária progressiva.
Os fármacos utilizados para manejar os sintomas ou complicações da doença na esclerose
múltipla incluem o baclofeno (para a espasticidade muscular) e a amitriptilina (para a
labilidade emocional).
Tabela 41.3 Tratamentos modificadores de doença para a
esclerose múltipla.
Via(s) e frequência de
Fármaco Mecanismo de ação Notas
administração
Acetato de glatirâmer Um polímero aleatório Subcutânea (em geral Reduz os surtos
(aprox. 6 kDa) de quatro administrada diariamente) aminoácidos que se pensa
interferir na resposta imune à
mielina
Reduz a frequência dos
Dimetil fumarato Desconhecido Oral (duas vezes/dia)
surtos e atrasa a progressão
Reduz a frequência de surtos
Inibe CD8 citotóxico Risco aumentado de expressando células T leucoencefalopatia
Fingolimode Oral (diariamente)
Derivado fosforilado é um multifocal progressiva e de
agonista de receptores SP1 arritmias ventriculares
graves
Subcutânea (3 Reduz os surtos em cerca de
Interferona beta (IFN-β) (ver
Modulação da função imune vezes/semana) Intramuscular 30%, mas nem todos os
Capítulo 19)
(1 vez/semana) pacientes respondem
Atrasa a progressão de
incapacidade na esclerose
Anticorpo monoclonal
Natalizumabe (ver Capítulo Infusão intravenosa (a cada 4 múltipla surto-remissão Em
humanizado para α4-
27) semanas) alguns casos pode causar
integrina (ver Tabela 27.3)
leucoencefalopatia
multifocal progressiva
Anticorpo monoclonal Infusão intravenosa (cursos Também utilizado no
Alentuzumabe (ver Capítulos
humanizado para CD52 nos curtos de 5 dias, separados tratamento de leucemia
27, 57 e Tabela 27.3
linfócitos B e T 12 meses) linfocítica
Risco de toxicidade hepática
Anticorpo monoclonal
grave; este fármaco está
Daclizumabe (ver Capítulo humanizado para CD25, a Subcutânea (uma vez por
agora restrito para pacientes
27) subunidade alfa do receptor mês)
sem indicação para outras
IL-2 nas células T
terapias
Ocrelizumabe Anticorpo monoclonal Infusão intravenosa (a cada 6 Superior à interferona-beta
humanizado para CD20 nos meses após os tratamentos na esclerose múltipla de
linfócitos B iniciais) surtos e progressiva
Imunossupressor. Metabólito
E cácia modesta na redução
Teri unomida ativo da le unomida (ver Oral (1 vez/dia)
de surtos
Capítulo 27)
Análogo nucleosídico da Utilizada na esclerose purina que tem efeitos Terapia oral administrada em múltipla surto-remissão em
Cladribina imunos-supressores por dois cursos curtos em um evolução rápida ou grave.
intermédio da depleção de período de 2 anos Também tem papel na linfócitos leucemia de células pilosas
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR
Mecanismos gerais de neurodegeneração
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____________
1 Sabe-se que novos neurônios são formados a partir das células
progenitoras (neurogênese) em certas regiões do cérebro adulto e podem se
tornar funcionalmente integrados, mesmo em primatas (Rakic, 2002; Zhao
et al., 2008). Acredita-se que a neurogênese no hipocampo desempenhe um
papel no aprendizado e na memória, porém apresenta pouca, se alguma,
função no reparo do cérebro. Entretanto, aprender a utilizar a capacidade
intrínseca das células progenitoras neuronais (células-tronco) para formar
novos neurônios é visto como uma abordagem óbvia para o tratamento de
doenças neurodegenerativas.
2 Tais doenças do príon incluem a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) e a
nova variante de DCJ que resulta da alimentação, ou do estreito contato,
com carne ou tecido humano infectado com a encefalopatia espongiforme
bovina (BSE; do inglês, bovine spongiform encephalopathy). Infelizmente,
ainda não estão disponíveis tratamentos farmacológicos que previnam a
progressão da doença, e o objetivo do tratamento é melhorar os sintomas.
3 De forma surpreendente, algumas mutações na SOD associadas a ELA são
mais, em vez de menos, ativas do que a enzima normal. Provavelmente, o
mecanismo responsável pela neurodegeneração envolva o acúmulo anômalo
da enzima na mitocôndria.
4 Contudo, uma reperfusão precoce (dentro de 4,5 horas da trombose) é
obviamente benéfica, baseando-se nas evidências clínicas com fármacos
fibrinolíticos.
5 Crê-se que a ingestão de chocolate amargo possa reduzir o risco de AVE.
Os flavonoides do chocolate podem ter uma ação protetora devido às
propriedades anti-inflamatórias, anticoagulantes e antioxidantes. No
entanto, não é motivo para abusar!
6 O gene APP reside no cromossomo 21, do qual uma cópia extra é a causa
da síndrome de Down, em que ocorre demência precoce do tipo DA em
associação com expressão aumentada de APP.
7 Tem sido defendido que outros tipos de neurônios também são afetados.
Aqui, concentramo-nos na via dopaminérgica nigroestriatal, dado ser a mais
importante nos tratamentos atuais.
8 Em 2008, um demandante recebeu indenização de 8,2 milhões de dólares
pelo Supremo Tribunal Americano, por ter se tornado um apostador
compulsivo (e perdido muito dinheiro), após usar o pramipexol para
tratamento de DP – um efeito adverso do qual a companhia farmacêutica
estava ciente.
9 A MAO-B, no cérebro, encontra-se localizada principalmente nas células
da glia e também nos neurônios 5-HT (embora, surpreendentemente, não
pareça ser expressada nos neurônios dopaminérgicos).
10 O exercício físico intenso foi sugerido ser um potencial fator ambiental, e
há exemplos de pessoas do esporte de relevo que sucumbiram à doença
mais tarde na vida, por exemplo, Joost van der Westhuizen, o grande médio
sul-africano, e Doddie Weir, que jogou pela Escócia e pelos Lions
britânicos e irlandeses.
Capítulo 41
41.1 TEMA
As doenças neurodegenerativas caracterizam-se por alterações patológicas que
resultam em neurotoxicidade e morte neuronal.
Qual das seguintes opções pode resultar em aumento de dano neural?
A. Níveis aumentados de superóxido dismutase
B. Níveis aumentados de Bcl-2
C. Ubiquitinação das proteínas amiloides
D. Aumento da liberação de glutamato
E. 2+ Bloqueadores dos canais de Ca
Resposta A A superóxido dismutase (SOD) diminui os níveis de espécies reativas de
oxigênio citotóxicas, que estão envolvidas em dano neural.
Alternativa B incorreta: O Bcl-2 é um fator antiapoptótico citoprotetor.
Alternativa C incorreta: A ubiquitinação remove proteínas incorretamente dobradas e
dani cadas, impedindo a citotoxicidade.
Alternativa D incorreta: Aumento da liberação de glutamato.
Os níveis aumentados de glutamato, por meio de sua ligação a AMPA, NMDA e
receptores metabotrópicos, causam excitotoxicidade neuronal devido à sobrecarga de
cálcio.
Alternativa 2+ E incorreta: A redução do in uxo de Ca através dos canais de cálcio
operados por voltagem (VOCC) diminui a carga intracelular de Ca2+ e reduz a
citotoxicidade e a morte neuronal.
Concluir questão
41.2 TEMA
A doença de Alzheimer caracteriza-se pela presença de placas amiloides,
agregados neuro brilares e perda selecionada de neurônios colinérgicos no
hipocampo e no córtex frontal.
Qual dos seguintes agentes não tem potencial no tratamento da doença de
Alzheimer?
A. Moduladores alostéricos positivos para o receptor M2
B. Aducanumabe
C. Rivastigmina
D. Agentes quelantes metálicos
E. Memantina
Resposta A Moduladores alostéricos positivos para o receptor M2.
Os receptores M1 são receptores encontrados no sistema nervoso central que medeiam
efeitos colinérgicos, de modo que os moduladores alostéricos M1-positivos seriam
bené cos. Os receptores M 2 são cardíacos.
Alternativa B incorreta: O aducanumabe é um anticorpo direcionado para as placas
β-amiloides para destruição imunomediada.
Alternativa C incorreta: A rivastigmina é um anticolinesterásico que prolonga a
duração do sinal de acetilcolina (ACh) na sinapse.
Alternativa D incorreta: Os agentes quelantes metálicos demonstraram ser efetivos
na dissolução das placas.
Alternativa E incorreta: A memantina é um antagonista fraco dos receptores NMDA,
diminuindo a excitotoxicidade.
Concluir questão
41.3 TEMA
A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa progressiva do
movimento, caracterizada por bradicinesia, rigidez muscular e tremor.
Qual das seguintes opções não está implicada no desenvolvimento espontâneo
da DP?
A. Agregados de α-sinucleína
B. Hiperatividade colinérgica
C. Metabólitos da 1-metil-4-fenil-1,2,3,6-tetra-hidropiridina (MPTP)
D. Diminuição da função mitocondrial
E. Degeneração das terminações nervosas dopaminérgicas no estriado
Resposta A Agregados de α-sinucleína mutada ou incorretamente dobrada, na forma
de corpos de Lewis, podem contribuir para a neurodegeneração.
Alternativa B incorreta: A liberação de ACh do estriado em geral é fortemente inibida
pela dopamina. Por conseguinte, uma perda de sinalização dopaminérgica leva à
hiperatividade colinérgica.
Alternativa C incorreta: Metabólitos da MPTP.
O composto MPTP é um contaminante encontrado na produção ilegal de um substituto
da heroína. Provoca destruição irreversível dos neurônios dopaminérgicos nigroestriados
e sintomas de uma condição semelhante à DP; com frequência, é utilizado
experimentalmente para induzir sintomas semelhantes à DP para estudo mais
detalhado da doença.
Alternativa D incorreta: Com frequência, observa-se diminuição da função
mitocondrial devido à mutação de proteínas, resultando em aumento da suscetibilidade
ao estresse oxidativo.
Alternativa E incorreta: A DP está associada a perda de neurônios dopaminérgicos na
substância negra e degeneração das terminações nervosas no estriado.
Concluir questão
41.4 TEMA
Foram desenvolvidos vários agentes terapêuticos para uso clínico, direcionados
para os sintomas da doença.
Qual dos seguintes fármacos não seria bené co no tratamento da doença de
Parkinson?
A. Selegilina
B. Clorpromazina
C. Ropinirol
D. Carbidopa
E. Entacapona
Resposta A A selegilina é um inibidor seletivo da monoamina oxidase (MAO)-B, que
protege a dopamina da degradação extraneuronal.
Alternativa B incorreta: Clorpromazina.
A clorpromazina é um antagonista do receptor de dopamina, que é utilizada no
tratamento da doença de Huntington.
Alternativa C incorreta: O ropinirol é um agonista seletivo do receptor D2/3, que apresenta efeitos pós-sinápticos diretos.
Alternativa D incorreta: A carbidopa é um inibidor de ação periférica da dopa
descarboxilase, que é utilizada para reduzir os efeitos colaterais periféricos da
administração concomitante de levodopa.
Alternativa E incorreta: A entacapona é um inibidor da catecol-O-metiltransferase
(COMT), de modo que reduz o metabolismo da dopamina, prolongando a sua duração e
seus efeitos.
Concluir questão
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