Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 56 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Músculo cardíaco

dos receptores de IP (IP R). A contração do músculo liso pode ainda ser produzida pela 3 3

entrada de Ca2+ através de canais de cálcio controlados por voltagem ou ligantes. O mecanismo pelo qual o Ca2+ ativa a contração é diferente, operando de maneira mais lenta no músculo liso em comparação com o músculo estriado ou o cardíaco. CaC, canal de cálcio; CaM, calmodulina; GPCR, receptor acoplado à proteína G; MLCK, quinase da cadeia leve da miosina; NaC, canal de sódio controlado por voltagem; RyR, receptor de rianodina; RS, retículo sarcoplasmático.

 

MÚSCULO CARDÍACO

O músculo cardíaco difere do músculo esquelético em alguns aspectos

importantes. A natureza do potencial de ação cardíaco, os mecanismos

iônicos responsáveis por sua ritmicidade intrínseca e os efeitos dos

fármacos na frequência e no ritmo cardíacos são descritos no Capítulo 22. A

configuração do potencial de ação cardíaco varia nas diversas partes do

coração, mas, em geral, apresenta um platô que dura algumas centenas de

milissegundos após a despolarização rápida inicial. Os túbulos T no

músculo cardíaco contêm canais de cálcio do tipo L, que se abrem durante

esse platô, possibilitando a entrada de Ca2+. Essa entrada de Ca2+ atua nos

RyR (um tipo molecular diferente daquele do músculo estriado) para liberar

Ca2+ do RS (Figura 4.9). Com pequenas diferenças, o mecanismo

subsequente por meio do qual o Ca2+ ativa a maquinaria contrátil é o mesmo

que ocorre no músculo estriado. A liberação de Ca2+, induzida por Ca2+

através dos RyR, pode ter um papel relevante em algumas formas de

arritmia cardíaca. As mutações dos RyR estão implicadas em vários

distúrbios da função dos músculos estriado e cardíaco (Priori e Napolitano,

2005).

 

MÚSCULO LISO

As propriedades do músculo liso variam consideravelmente nos diversos

órgãos, e os mecanismos que vinculam os eventos de membrana e a contração são correspondentemente variáveis e mais complexos do que em

outros tipos de musculatura. A atividade espontânea rítmica ocorre em

muitos órgãos, por intermédio de mecanismos que produzem oscilações na

[Ca2+]i (ver Figura 4.2B). O potencial de ação do músculo liso é, em geral, um acontecimento preguiçoso e vago, em comparação com o

comportamento mais disciplinado dos músculos esquelético e cardíaco,

propagando-se pelo tecido de forma mais lenta e imprecisa. O potencial de

ação é, na maioria dos casos, gerado pelos canais de cálcio do tipo L, e não

pelos canais de sódio controlados por voltagem, constituindo uma rota

importante para a entrada de Ca2+. Além disso, muitas células musculares

lisas contêm receptores P2X, canais de cátions controlados por ligantes que

permitem a entrada de Ca2+ ao serem ativados pelo ATP liberado pelos

nervos autônomos (ver Capítulo 13). As células musculares lisas também

armazenam Ca2+ no RE, do qual pode ser liberado quando o IP3R é ativado

(ver Capítulo 3). O IP 3 é gerado pela ativação de diversos tipos de receptores acoplados à proteína G. Assim, em contraste com os músculos

esquelético e cardíaco, a liberação de Ca2+ e a contração podem ocorrer no

músculo liso quando tais receptores são ativados, sem, necessariamente,

envolver a despolarização e a entrada de Ca2+ através da membrana

plasmática. Os RyR também estão presentes em muitas células de músculo

liso, e a liberação de Ca2+ induzida por cálcio através desses canais pode ter

um papel relevante na geração de contração muscular (ver Figura 4.9) ou no

acoplamento dos canais de K+ ativados por cálcio da membrana plasmática,

resultando em hiperpolarização celular e, desse modo, reduzindo a entrada

de Ca2+ através de canais de cálcio controlados por voltagem (Figura 4.10).

O mecanismo contrátil do músculo liso é ativado quando a cadeia leve

da miosina sofre fosforilação, soltando-a dos filamentos de actina. Essa

fosforilação é catalisada por uma quinase, a quinase da cadeia leve da miosina (MLCK; do inglês, miosin light chain kinase), que é ativada

quando se liga à Ca2+-calmodulina (p. 63, Figura 4.9). Uma segunda

enzima, a fosfatase de miosina, reverte a fosforilação, causando

relaxamento. Assim, a MLCK e a fosfatase da miosina têm efeitos que se

contrabalançam, promovendo contração e relaxamento, respectivamente. As

duas enzimas são reguladas por nucleotídios cíclicos (cAMP e GMPc; ver

Capítulo 3), e muitos fármacos que causam contração ou relaxamento do

músculo liso mediado pelos receptores acoplados à proteína G ou pelos

receptores ligados à guanilil ciclase atuam dessa forma. A Figura 4.10

apresenta um resumo dos principais mecanismos pelos quais os fármacos

controlam a contração do músculo liso. A complexidade desses

mecanismos de controle e interações explica por que os farmacologistas

têm estado fascinados por tanto tempo pelo músculo liso. Muitos fármacos

usados no âmbito terapêutico atuam causando contração ou relaxamento do

músculo liso, especialmente aqueles que afetam os sistemas cardiovascular,

respiratório e gastrintestinal, como será visto em outros capítulos, nos quais

são apresentados detalhes de fármacos específicos e seus efeitos

fisiológicos.