Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 374 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos antieméticos

Existem vários agentes antieméticos disponíveis, em geral usados para

condições específicas, embora possa haver certa sobreposição. Tais

fármacos são de particular importância como complemento na

quimioterapia para câncer, em que as náuseas e os vômitos produzidos por

muitos citotóxicos (Capítulo 57) podem ser quase insuportáveis.7 O uso de

fármacos para alívio das náuseas matinais da gravidez sempre deve trazer à

mente o problema da potencial lesão ao feto. Em geral, todos eles devem

ser evitados durante os primeiros 3 meses da gestação, se possível. Detalhes

sobre as principais categorias de antieméticos serão discutidos adiante. As

principais utlidades clínicas e prováveis locais de ação estão resumidas no

boxe clínico e a Tabela 31-1.

 

Antagonistas de receptores

Muitos antagonistas de receptores H 1 (ver Capítulo 27), muscarínicos (ver

Capítulo 14), 5-HT3 (ver Capítulo 16), dopamina (ver Capítulo 47) e

neurocinina NK 1 exibem atividade antiemética clinicamente útil.

 

■ Antagonistas dos receptores H1

Os mais comumente empregados desse grupo são cinarizina, ciclizina e

prometazina, eficazes contra náuseas e vômitos originados de muitas

causas, incluindo cinetose e agentes irritantes no estômago. No entanto,

nenhum é muito eficaz contra substâncias que atuam diretamente sobre a

ZGQ. A prometazina é usada para náuseas matinais da gravidez (nas raras

ocasiões em que o estado nauseoso é tão grave a ponto de justificar

tratamento com fármacos) e tem sido utilizada pela NASA para o

tratamento da cinetose do espaço. Os principais efeitos adversos são sonolência e sedação, conquanto possivelmente contribuindo para a eficácia

clínica.

 

Tabela 31.1 Locais de ação dos fármacos antieméticos

comuns.

Classe Fármacos Local de ação Comentários

 

Receptores H no SNC 1 (causando sedação) e Amplamente e caz

Cinarizina, ciclizina,

Anti-histamínicos possíveis ações independentemente da

prometazina

anticolinérgicas no aparelho causa da êmese vestibular

Ações anticolinérgicas no

aparelho vestibular e

Antimuscarínicos Hioscina Principalmente cinetose

possivelmente em outros

locais

VIFC em pacientes nos quais

Provavelmente receptores

Canabinoides Nabilona outros fármacos não foram CB no trato GI 1 e cazes

Fenotiazinas:

proclorfenazina, perfenazina,

Tri uoperazina, Receptores D na ZGQ VIFC, NVPO, DR 2

clorpromazina

Antagonistas da dopamina

Fármacos relacionados:

droperidol, haloperidol Receptores D no trato GI VIFC, NVPO, DR 2

 

Receptores D na ZGQ e trato 2

Metoclopramida VIFC, NVPO

GI

Provavelmente múltiplos NVPO, VIFC; frequentemente

Glicocorticoides Dexametasona locais de ação, incluindo o usado em combinação com

trato GI outros fármacos

Antagonistas da 5-HT Granisetrona, ondasetrona, Receptores 5-HT na ZGQ e no NVPO, VIFC 3 3

palonosetrona trato GI

 

Receptores NK na ZGQ, no VIFC; administrado em 1

Antagonistas da neurocinina-

Aprepitanto, fosaprepitanto centro do vômito e combinação com outro

1

possivelmente no trato GI fármaco

5-HT, 5-hidroxitriptamina; VIFC, vômito induzido por fármacos citotóxicos; SNC, sistema nervoso central; ZGQ, zona de gatilho

quimiorreceptora; GI, gastrintestinal; NVPO, náuseas e vômitos do pós-operatório; DR, doença da radiação.

Mecanismo re exo do vômito

 

Os estímulos eméticos incluem:

• Substâncias químicas ou fármacos no sangue ou no intestino

• Impulsos aferentes provindos do trato gastrintestinal (GI), do labirinto e do sistema

nervoso central (SNC).

As vias e os mediadores incluem:

• Impulsos da zona de gatilho quimiorreceptora (ZGQ) e de vários outros centros do SNC

retransmitidos ao centro dos vômitos

• Transmissores químicos, como histamina, acetilcolina (ACh), dopamina, 5-

hidroxitriptamina (5-HT), e substância P, atuando sobre receptores H 1, muscarínicos, D2, 5-

HT 3 e NK1, respectivamente.

Os antieméticos incluem:

• Antagonistas dos receptores H1 (p. ex., cinarizina)

• Antagonistas muscarínicos (p. ex., hioscina)

• Antagonistas dos receptores 5-HT3 (p. ex., ondansetrona)

• Antagonistas dos receptores D 2 (p. ex., metoclopramida)

• Canabinoides (p. ex., nabilona)

• Antagonistas da neurocinina-1 (p. ex., aprepitanto, fusaprepitanto).

Os principais efeitos adversos dos antieméticos mais usados incluem:

• Sonolência e efeitos muscarínicos (hioscina, nabilona > cinarizina)

• Reações distônicas (metoclopramida)

• Distúrbios gerais do SNC (nabilona)

• Cefaleia, desconfortos do trato GI (ondansetrona).

Uso clínico dos antieméticos

 

• Antagonistas dos receptores H1 da histamina (ver também boxe clínico no Capítulo 27):

– Ciclizina: enjoo do movimento, distúrbios vestibulares, náuseas e vômitos

associados a cirurgia e uso de analgésicos narcóticos no pós-operatório

– Cinarizina: enjoo do movimento, distúrbios vestibulares (p. ex., doença de Ménière)

– Prometazina: enjoo grave matinal da gravidez, enjoo do movimento, distúrbios

vestibulares

• Antagonistas dos receptores muscarínicos:

– Hioscina: enjoo do movimento

• Antagonistas do receptor de dopamina D2:

– Fenotiazinas (p. ex., proclorperazina): vômitos causados por enxaqueca, distúrbios

vestibulares, radiação, gastrenterite viral, enjoo grave matinal da gravidez

– Metoclopramida: vômito causado por enxaqueca, radiação, distúrbios

gastrintestinais (GI), fármacos citotóxicos, prevenção de náuseas e vômitos no

período pós-operatório

– Domperidona: é menos propensa a causar efeitos colaterais no sistema nervoso

central (SNC) em pacientes com doença de Parkinson, uma vez que penetra mal na

barreira hematencefálica

• Antagonistas dos receptores 5-hidroxitriptamina (5-HT)3 (p. ex., ondansetrona):

fármacos ou radiação citotóxica, vômito no pós-operatório

• Canabinoides (p. ex., nabilona): fármacos citotóxicos (ver Capítulo 20)

• Antagonistas do receptor NK1 (p. ex., fosaprepitanto): fármacos citotóxicos.

 

A betaistina tem efeitos complexos na ação da histamina,

antagonizando os receptores H 3, mas com uma atividade agonista fraca nos receptores H 1. É usada no controle das náuseas e da vertigem associadas à

doença de Ménière.8

 

■ Antagonistas de receptores muscarínicos

A hioscina (escopolamina) é empregada principalmente para profilaxia e

tratamento de cinetose e pode ser administrada por via oral ou em adesivo

transdérmico. Os efeitos adversos mais comuns são secura da boca e visão

embaçada. Também ocorre sonolência, mas o fármaco tem menos ação

sedativa que os anti-histamínicos devido à fraca penetração no SNC.

 

■ Antagonistas dos receptores 5-HT 3

A granisetrona, a ondansetrona e a palonosetrona (ver Capítulo 16) são

particularmente valiosas na prevenção e no tratamento de vômitos e, em

menor proporção, de náuseas comumente observados no pós-operatório ou

causados por radioterapia ou administração de fármacos citotóxicos como a

cisplatina. O local primário de ação desses fármacos é a ZGQ. Eles podem

ser administrados por via oral ou parenteral (às vezes útil se as náuseas já

estiverem presentes), e os efeitos adversos, como cefaleia e desconforto GI,

são relativamente incomuns.

 

■ Antagonistas da dopamina

Os antipsicóticos fenotiazínicos (ver Capítulo 47), como clorpromazina,

perfenazina, proclorperazina e trifluoperazina, são antieméticos eficazes

comumente usados para tratar as manifestações mais intensas de náuseas e

vômitos associados a câncer, radioterapia, citotóxicos, opioides, anestésicos

e outros fármacos. Podem ser administrados por via oral, intravenosa ou por

supositório. Atuam, principalmente, como antagonistas dos receptores D2 da

dopamina na ZGQ (ver Figura 31.5), mas também bloqueiam receptores de

histamina e muscarínicos.

Os efeitos adversos são comuns e incluem sedação (especialmente

clorpromazina), hipotensão e sintomas extrapiramidais, inclusive distonias e

discinesia tardia (ver Capítulo 47).

Outros fármacos antipsicóticos, como o haloperidol, o composto

relacionado droperidol e a levomepromazina (ver Capítulo 47), também

atuam como antagonistas D 2 na ZGQ e podem ser usados para êmese aguda induzida por quimioterapia.

 

■ Metoclopramida e domperidona

A metoclopramida é um antagonista do receptor D2 (ver Figura 31.5) e é estreitamente relacionada com o grupo dos fenotiazínicos, atuando

centralmente sobre a ZGQ e tendo ação periférica sobre o próprio trato GI,

aumentando a motilidade do esôfago, do estômago e do intestino. Isso não

somente é acrescentado ao efeito antiemético, mas também explica seu uso

no tratamento do refluxo gastresofágico e dos distúrbios hepáticos e

biliares. Como a metoclopramida também bloqueia os receptores de

dopamina em outras regiões do SNC, produz alguns efeitos adversos,

inclusive distúrbios do movimento (mais comuns em crianças e adultos

jovens), cansaço, inquietação motora, torcicolo espasmódico (torção

involuntária do pescoço) e crises oculógiras (movimentos oculares

involuntários para cima). Além disso, estimula a liberação de prolactina

(ver Capítulos 34 e 36), causando galactorreia e distúrbios menstruais.

A domperidona é um fármaco semelhante, usado para tratar vômitos

causados por citotóxicos, bem como sintomas GI. De modo diferente da

metoclopramida, não atravessa facilmente a barreira hematencefálica e, por

consequência, tem menos propensão a produzir efeitos colaterais centrais.

No entanto, a domperidona está associada a um pequeno aumento do risco de ações adversas cardíacas graves (particularmente em doses mais altas e

em pacientes mais idosos), estando o seu uso restrito na atualidade.

Ambos os fármacos são administrados por via oral, têm meia-vida

plasmática de 4 a 5 h e são eliminados na urina.

 

■ Antagonistas do receptor NK 1

A substância P causa êmese quando injetada intravenosamente e é liberada

pelos nervos aferentes vagais GI, assim como pelo próprio centro do

vômito. O aprepitanto bloqueia os receptores da substância P (receptores

NK 1; ver Capítulo 19) na ZGQ e no centro do vômito. Ele é administrado por via oral, sendo eficaz no controle da fase tardia da êmese causada por

fármacos citotóxicos, com poucos efeitos adversos significativos. O

fosaprepitanto é um profármaco do aprepitanto e é administrado por via

intravenosa.

 

Outros fármacos antieméticos

Evidências esparsas originalmente sugeriram a possibilidade de usar

canabinoides (ver Capítulo 19) como antieméticos (Pertwee, 2001).

Verificou-se que o canabinol sintético nabilona diminui os vômitos

causados por agentes que estimulam a ZGQ e, algumas vezes, é eficaz

quando outros fármacos falham. O efeito antiemético é antagonizado pela

naloxona, o que significa que os receptores opioides podem ser importantes

no mecanismo de ação. A nabilona é administrada por via oral, sendo bem

absorvida no trato GI e metabolizada em muitos tecidos. Sua meia-vida

plasmática é de aproximadamente 120 min, e seus metabólitos são

eliminados na urina e nas fezes.

São comuns os efeitos adversos, especialmente sonolência, tonturas e

boca seca. Alterações do humor e hipotensão postural também são razoavelmente frequentes. Alguns pacientes apresentam alucinações e