Rang e Dale: Farmacologia
7 Mecanismos Celulares | Defesa do Hospedeiro
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Todas as pessoas já passaram por um episódio inflamatório em algum
momento da vida, motivo pelo qual estão familiarizadas com os sintomas
característicos de rubor, intumescimento, calor, dor e perda da função no
local da lesão, por vezes acompanhada de febre e mal-estar. Os mediadores
inflamatórios são considerados à parte, nos Capítulos 18 e 19; aqui nos
centramo nos componentes celulares envolvidos na resposta de defesa do
hospedeiro, explicando a estrutura básica desse crucial e sofisticado
mecanismo. A compreensão dessas respostas celulares e de suas funções
fornece a base essencial que permite o entendimento das ações dos
fármacos anti-inflamatórios e imunossupressores – uma das principais
classes de agentes terapêuticos com múltiplas aplicacões clínicas (ver
Capítulo 27).
INTRODUÇÃO
Todas as criaturas vivas vêm à luz em um mundo que impõe desafios
constantes a seu bem-estar e sobrevivência. A evolução nos tem provido de
sistemas homeostáticos para a manutenção de um ambiente interno estável
diante das variações das temperaturas externas e das flutuações de
suprimento de alimento e água. Do mesmo modo, a evolução fornece
mecanismos para combater a ameaça sempre presente da infecção, bem
como promover a cicatrização e a restauração da função normal no caso de
eventos lesivos. Nos mamíferos, essa função é auxiliada pelos sistemas
imunes inato e adquirido (ou adaptativo). Esses sistemas trabalham em
conjunto com uma variedade de mediadores e mecanismos que, quando
implantados coletivamente, dão origem ao que chamamos de resposta
inflamatória. Em geral, essa resposta atua no sentido de nos proteger,
embora ocasionalmente apresente falhas, levando a um espectro de doenças
autoimunes e inflamatórias que requerem terapia medicamentosa para
restaurar a ordem.
Por conseguinte, as principais funções dessa resposta inflamatória do
hospedeiro são defesa e reparação – em outras palavras, nada menos que a
biossegurança e a sobrevivência do organismo em andamento. A
imunodeficiência decorrente, por exemplo, de causas genéticas (p. ex.,
deficiência de adesão de leucócitos), infecção por organismos como HIV,
exposição excessiva a radiação ou fármacos imunossupressores é, em geral,
uma condição com risco à vida.
Assim como os sistemas de segurança aeroportuária no mundo material,
o corpo tem os equivalentes celulares e moleculares de guardas,
verificações de identidade, sistemas de alarme e uma rede de comunicação
com a qual convocar o back-up quando necessário. Também tem acesso a
um banco de dados surpreendente que armazena detalhes moleculares
precisos de intrusos ilegais anteriores e os impede de retornar. Essa resposta do hospedeiro tem dois componentes principais, que trabalham lado a lado.
Estas são:
• Resposta inata, “não adaptativa”. Esta desenvolveu-se cedo na evolução
e está presente em praticamente todos os organismos. De fato, algumas
das principais famílias de genes de mamíferos e outros componentes
foram primeiramente identificadas em plantas e insetos. Essa é a
primeira linha de defesa
• Resposta imune adaptativa. Trata-se de uma resposta que apareceu bem
mais tarde em termos evolucionários, sendo encontrada apenas nos
vertebrados. Fornece a base física para nossa “memória” imunológica e
constitui a segunda, e extremamente eficaz, linha de defesa.
Resposta in amatória
• A resposta in amatória ocorre nos tecidos após lesão ou exposição a um patógeno ou
outra substância nociva
• Em geral, contém dois componentes: uma resposta inata não adaptativa e uma resposta
imunológica adaptativa (adquirida ou especí ca)
• Tais reações são geralmente protetoras, embora passem a ser deletérias quando se
desenrolam de maneira inadequada
• O resultado normal da resposta é a cura, com ou sem formação de cicatriz. De modo
alternativo, mediante a persistência da causa subjacente, o resultado é uma in amação
crônica
• Um número signi cativo de doenças que requerem tratamento farmacológico envolve
in amação. Para entender a ação e o uso dos fármacos anti-in amatórios e
imunossupressores, é necessário compreender a reação in amatória.