Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 280 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Usos clínicos dos fármacos vasoativos

Está além do âmbito deste livro fornecer um relato detalhado a respeito dos

usos clínicos dos fármacos vasoativos, mas é útil considerar brevemente o

tratamento de certos distúrbios importantes, notadamente:

 

• Hipertensão sistêmica

• Insuficiência cardíaca

• Choque vasodilatador

• Doença vascular periférica

• Doença de Raynaud

• Hipertensão pulmonar.

 

HIPERTENSÃO SISTÊMICA

A hipertensão sistêmica é um distúrbio comum que, se não for tratado com

eficiência, aumenta o risco de trombose coronariana, AVE e insuficiência

renal. Até cerca de 1950 não havia tratamento eficaz, e o desenvolvimento

de anti-hipertensivo saudável tem sido uma história de grande sucesso. A

pressão sanguínea sistêmica é um excelente “marcador substituto” para o

aumento do risco cardiovascular, no sentido de que há boas evidências,

obtidas em testes aleatórios (randomizados) controlados, de que os

fármacos anti-hipertensivos comuns (diuréticos, IECA, antagonistas do

cálcio), combinados com o estilo de vida, não somente prolongam a vida e

reduzem a pressão sanguínea como também reduzem o risco adicional de

eventos cardíacos e, em especial, AVE associados com a pressão sanguínea

elevada.

Tipos de vasodilatadores

 

Vasodilatadores de ação direta

• Antagonistas do cálcio (p. ex., nifedipino, diltiazem, verapamil): bloqueiam a entrada

de Ca2+ em resposta à despolarização. Os efeitos adversos comuns incluem edema pré-

tibial e (especialmente com o verapamil) constipação intestinal

• Ativadores dos canais K ATP (p. ex., minoxidil): abrem os canais de potássio, hiperpolarizam

as células musculares lisas vasculares. São comuns o edema pré-tibial e o aumento de

pelos corporais

• Fármacos que aumentam as concentrações de nucleotídios cíclicos citoplasmáticos:

– Aumentam a atividade da adenilil ciclase, por exemplo, a prostaciclina

(epoprostenol), agonistas β2-adrenérgicos, adenosina

– Aumentam a atividade da adenilato ciclase: nitratos (p. ex., trinitrato de glicerila,

nitroprussiato)

– Inibem a atividade de fosfodiesterases (p. ex., sildena la).

 

Vasodilatadores de ação indireta

• Fármacos que interferem na divisão simpática do sistema nervoso (p. ex., antagonistas α 1-

adrenérgicos). A hipotensão postural é um efeito adverso comum

• Fármacos que bloqueiam o sistema renina-angiotensina:

– Inibidores da renina (p. ex., alisquireno)

– Inibidores da enzima conversora da angiotensina (p. ex., ramipril); tosse seca pode

ser problemática

– Antagonistas dos receptores AT1 (p. ex., losartana)

• Fármacos ou mediadores que estimulam a liberação endotelial de NO (p. ex., acetilcolina,

bradicinina)

• Fármacos que bloqueiam o sistema das endotelinas:

– Síntese de endotelinas (p. ex., fosforamidona)

– Antagonistas do receptor das endotelinas (p. ex., bosentana)

• Fármacos que potencializam peptídios vasodilatadores bloqueando a sua degradação (p.

ex., sacubitril).

 

Vasodilatadores de mecanismo incerto

• Fármacos variados, incluindo álcool, propofol (ver Capítulo 42) e hidralazina.

 

Usos clínicos dos antagonistas dos receptores subtipo 1 da angiotensina II

 

(sartanas)

 

Os antagonistas de AT são extremamente bem tolerados. Seus usos incluem: 1

• Hipertensão, especialmente em:

– Homens jovens (a renina circulante diminui com o aumento da idade e as sartanas

são evitadas durante a gravidez)

– Pacientes diabéticos

– Hipertensão complicada por hipertro a ventricular esquerda

– Como agente adicional em pacientes hipertensos insu cientemente responsivos a

um diurético tiazídico

• Insu ciência cardíaca: especialmente a combinação de valsartana com sacubitril (inibidor

da NEP)

• Nefropatia diabética.

 

As causas corrigíveis de hipertensão incluem feocromocitoma,10

tumores secretores de esteroides do córtex da suprarrenal e estreitamento

(coarctação) da aorta, mas a maioria dos casos não envolve causa óbvia e se agrupa como hipertensão essencial (assim chamada porque, originalmente,

se pensava, embora incorretamente, que a elevação da pressão arterial fosse

“essencial” para manter a perfusão adequada dos tecidos). O aumento do

débito cardíaco pode ser uma característica precoce, mas quando é

estabelecida a hipertensão essencial (comumente na meia-idade),

geralmente há aumento da resistência periférica e o débito cardíaco é

normal. O controle da pressão arterial está intimamente relacionado com os

rins, conforme demonstrado em indivíduos que precisem de transplante

renal: a hipertensão “acompanha” o rim de um doador hipertenso, e doar

um rim de um normotenso para um hipertenso corrige a hipertensão no

receptor (ver também Capítulo 30). Parece provável que a causa da maioria

dos casos de hipertensão essencial seja uma combinação de variações

hereditárias na absorção tubular do íon sódio e no consumo de sal na dieta

(Meneton et al., 2005). A pressão arterial persistentemente elevada leva a

hipertrofia do ventrículo esquerdo e remodelação das artérias de resistência,

com estreitamento da luz, e predispõe à aterosclerose em artérias de

condução maiores.

A Figura 23.9 resume os mecanismos fisiológicos que controlam a

pressão arterial e mostra pontos de ação dos anti-hipertensivos,

notadamente a divisão simpática do sistema nervoso, o sistema renina-

angiotensina-aldosterona e mediadores derivados do endotélio. A

remodelação das artérias de resistência em resposta à elevação da pressão

reduz a proporção entre o diâmetro da luz e a espessura da parede, e

aumenta a resistência vascular periférica. O papel dos fatores de

crescimento celulares (inclusive a angiotensina II) e inibidores do

crescimento (p. ex., NO) na evolução dessas alterações estruturais é de

grande interesse para os biólogos vasculares e tem importância potencial

para IECA e BRA.

O prognóstico de pacientes com hipertensão é significativamente

melhorado pela redução da pressão arterial. Controlar a hipertensão (que é

assintomática) sem produzir efeitos colaterais inaceitáveis, portanto, é uma

necessidade clínica importante, que, em geral, é bem atendida pelos

fármacos modernos. O tratamento envolve medidas não farmacológicas (p.

ex., aumento dos exercícios, redução do sal da dieta e das gorduras

saturadas com aumento de frutas e fibras, redução do peso e do consumo de

álcool), seguidas pela introdução gradual de fármacos, iniciando com

aqueles que tenham benefício comprovado e menor probabilidade de

produzir efeitos colaterais. Alguns dos fármacos usados para reduzir a

pressão arterial nos primeiros tempos da terapia anti-hipertensiva, incluindo

bloqueadores ganglionares, bloqueadores de neurônios adrenérgicos e

reserpina (ver Capítulo 15), produziam um conjunto temível de efeitos

adversos e agora estão obsoletos. Os esquemas preferidos mudaram

progressivamente à medida que fármacos mais bem tolerados se tornaram

disponíveis. Uma estratégia racional é iniciar o tratamento com um IECA

ou um BRA em pacientes que provavelmente tenham a renina plasmática

normal ou aumentada (p. ex., pessoas mais jovens e brancas) e com um

diurético tiazídico ou um antagonista do cálcio nos mais idosos e em

pessoas de origem africana (que têm mais probabilidade de apresentar

renina plasmática baixa). Se o alvo de pressão arterial não for atingido, mas

o fármaco for bem tolerado, então poderá ser acrescentado um fármaco de

outro grupo. A boa prática determina não aumentar a dose de qualquer

fármaco excessivamente, pois isso costuma causar efeitos adversos e ativar

mecanismos de controle homeostático (p. ex., liberação de renina por um

diurético) que limitam a eficácia.

Figura 23.9 Principais mecanismos envolvidos na regulação da pressão arterial

(linhas pretas) e os locais de ação dos anti-hipertensivos (boxes sombreados + linhas em vermelho). ECA, enzima conversora de angiotensina; AI, angiotensina I; AII, angiotensina II; ET-1, endotelina-1; NE, norepinefrina; NO, óxido nítrico.

 

Os antagonistas β-adrenérgicos são menos bem tolerados que os IECA

ou BRA, e as evidências que sustentam seu uso de rotina são menos fortes

do que para outras classes de anti-hipertensivos. São úteis para hipertensos

com alguma indicação adicional para um bloqueio beta, como angina ou

insuficiência cardíaca.

Muitas vezes, é necessário o acréscimo de um terceiro ou quarto

fármaco (p. ex., combinação BRA/diurético ou BRA/antagonista do cálcio).

Nessa situação, um antagonista α1-adrenérgico de ação prolongada (ver

Capítulo 15) como a doxazosina, 1 vez/dia, é uma opção. Adicionalmente,

os agonistas α1 melhoram os sintomas da hiperplasia prostática (também

conhecida como hipertrofia benigna da próstata) (ver Capítulos 15, 30 e

36), que é comum em homens mais velhos, embora com risco de hipotensão

postural, que é o principal efeito indesejado desses agentes. A

espironolactona, cujo metabólito ativo canrenona é um antagonista

competitivo da aldosterona (ver Capítulo 30), apresentou uma espécie de

regresso como agente adicional no tratamento da hipertensão grave. É

preciso monitorar cuidadosamente a concentração plasmática de K+, porque

a espironolactona inibe a eliminação urinária de K+ e causa efeitos adversos

relacionados aos estrógenos, mas geralmente é bem tolerada em doses

baixas. Atualmente, a metildopa é usada principalmente para hipertensão

durante a gravidez, em razão da falta de efeitos adversos documentados

sobre o bebê (ao contrário dos IECA, os BRA e os β-bloqueadores-padrão,

que estão contraindicados durante a gravidez e, portanto, muitas vezes são

evitados em mulheres com potencial para engravidar). Na atualidade, a

clonidina (agonista α2 de ação central) raramente é usada. A moxonidina

(agonista de receptores I1 de imidazolinas de ação central, que causa menos

sonolência que os agonistas α 2) está aprovada para emprego na hipertensão leve ou moderada, mas há poucas evidências de ensaios clínicos para

respaldar seu uso. O minoxidil, combinado com um diurético e um β-

bloqueador, algumas vezes tem efeito nos casos em que outros fármacos

falharam na hipertensão grave resistente a outros agentes. O fenoldopam,

um agonista seletivo do receptor D 1 da dopamina, está aprovado nos EUA para o tratamento hospitalar de hipertensão grave por tempo limitado. Seu efeito tem magnitude semelhante à do nitroprussiato intravenoso, mas não

apresenta a toxicidade associada ao tiocianato e tem início e término de

ação mais lentos.

 

Tabela 23.5 Anti-hipertensivos usuais e seus efeitos

adversos.

 

Efeitos adversosa

Fármaco Hipotensão postural Impotência Outros

Tiazida (p. ex., bendro umetiazida)

Frequência urinária, gota, intolerância à

e diuréticos relacionados (p. ex., ± ++

glicose, hipopotassemia, hiponatremia

clortalidona)

Tosse, hipotensão na primeira dose,

teratogenicidade, disfunção renal

Inibidores da ECA (p. ex., enalapril) ± –

reversível (na presença de estenose

bilateral da artéria renal)

Teratogenicidade, disfunção renal

Antagonistas AT (p. ex., losartana) – – reversível (na presença de estenose 1

bilateral da artéria renal)

Antagonistas do Ca 2+ (p. ex.,

– ± Edema de tornozelo

nifedipino)

Antagonistas β-adrenérgicos (p. ex., Broncospasmo, cansaço, mãos/pés frios,

– +

metoprolol) bradicardia

 

Antagonistas α-adrenérgicos (p. 1 ++ – Hipotensão na primeira dose ex., doxazosina)

a± indica que o efeito adverso ocorre apenas em circunstâncias especiais (p. ex., a hipotensão postural ocorre com um diurético

tiazídico somente se o paciente estiver desidratado por alguma outra razão, se estiver usando algum fármaco adicional ou se

sofrer de algum distúrbio adicional).