Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 221 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Diversidade dentro das famílias de peptídios

mistério se esses peptídios estão presentes, como estranhos em um funeral,

aguardando para declarar os seus propósitos ou se são meramente relíquias

tristes sem função. Existem também longos segmentos da sequência do pró-

hormônio, situados entre os fragmentos peptídicos ativos, com função

desconhecida.3

A abundância de mRNA que codifica distintos pré-pró-hormônios, que

refletem o nível da expressão gênica, é muito sensível às condições

fisiológicas. Esse tipo de controle de transcrição é um dos principais

mecanismos pelos quais a expressão e a liberação de peptídios são

reguladas a médio e longo prazos. A inflamação, por exemplo, aumenta a

expressão, e, consequentemente, a liberação de várias citocinas pelas

células imunológicas (ver Capítulo 7). Os neurônios sensitivos respondem à

inflamação periférica com o aumento da expressão de taquicininas

(substância P e neurocininas A e B), o que é importante na gênese da dor

inflamatória (ver Capítulo 43).

 

DIVERSIDADE DENTRO DAS FAMÍLIAS DE PEPTÍDIOS

Os peptídios costumam ocorrer formando famílias com sequências e ações

semelhantes ou relacionadas. Por exemplo, a pró-opiomelanocortina

(POMC) funciona como fonte de ACTH, hormônio melanócito-estimulante

(MSH) e de β-endorfina, todos tendo um papel no controle das respostas

inflamatórias (bem como em outros processos).

 

Splicing gênico como fonte de diversidade de peptídios

A diversidade de membros de uma família de peptídios também pode

ocorrer por meio de splicing gênico ou durante o processo de pós-tradução

do pró-hormônio. Os genes contêm regiões codificadoras (éxons) intercaladas com regiões intervenientes não codificadoras (íntrons) e,

quando o gene é transcrito, o RNA (RNA nuclear heterólogo [HnRNA]) é

processado (spliced) para remover os íntrons e alguns dos éxons, formando

o mRNA final que é traduzido. O controle do processo de splicing permite

uma medida de controle celular sobre os peptídios que são produzidos.

Por exemplo, o gene da calcitonina codifica a própria calcitonina,

importante no metabolismo ósseo (ver Capítulo 37) e também um peptídio

completamente distinto (CGRP, envolvido na patogênese da enxaqueca, ver

Capítulo 16). O splicing alternativo permite que células produzam pró-

calcitonina (expressa nas células da tireoide) ou pró-CGRP (expresso em

muitos neurônios) a partir do mesmo gene. A substância P e a neurocinina

A são duas taquicininas estreitamente relacionadas pertencentes à mesma

família e são codificadas pelo mesmo gene. O splicing alternativo dá

origem a duas proteínas precursoras; uma delas inclui ambos os peptídios, e

a outra inclui apenas a substância P. A proporção das duas varia

amplamente entre os tecidos que, correspondentemente, produzem um ou

ambos os peptídios.

 

Modificações pós-tradução como fonte de diversidade de peptídios

Muitos peptídios, como as taquicininas e os peptídios relacionados com o

ACTH (ver Capítulo 34), necessitam obrigatoriamente sofrer amidação

enzimática na extremidade C-terminal para adquirir a sua atividade

biológica plena. Os tecidos também podem gerar peptídios de tamanho

variável a partir da mesma sequência primária pela ação de peptidases

específicas que clivam a cadeia em diferentes pontos. Por exemplo, a pró-

colecistocinina (pró-CCK) contém as sequências de pelo menos cinco

peptídios semelhantes à CCK, com tamanhos variáveis entre 4 e 58 resíduos de aminoácidos, todos com a mesma sequência C-terminal. A própria CCK