Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos analgésicos
Mecanismos de dor e nocicepção
• A nocicepção é o mecanismo pelo qual estímulos periféricos nocivos são transmitidos ao
sistema nervoso central. Dor é uma experiência subjetiva, nem sempre associada à
nocicepção
• Nociceptores polimodais (NPM) são o principal tipo de neurônio sensitivo periférico que
responde a estímulos nocivos. A maioria é de bras C não mielinizadas, cujas terminações
respondem a estímulos térmicos, mecânicos e químicos
• Os estímulos químicos que atuam sobre os NPM para causar dor incluem bradicinina,
prótons, ATP e vaniloides (p. ex., capsaicina). Os NPM são sensibilizados pelas
prostaglandinas, o que explica o efeito analgésico de fármacos semelhantes ao ácido
acetilsalicílico, particularmente na presença de in amação
• O receptor TRPV1 responde ao calor nocivo, bem como a agonistas semelhantes à
capsaicina
• As bras nociceptivas terminam nas camadas super ciais do corno posterior, formando
conexões sinápticas com neurônios de transmissão que se dirigem ao tálamo
• Os neurônios NPM liberam glutamato (transmissor rápido) e vários peptídios que atuam
como transmissores lentos. Também são liberados peptídios perifericamente que
contribuem para in amação neurogênica
• A dor neuropática, associada à lesão dos neurônios da via nociceptiva, e não a estímulo
periférico excessivo, é frequentemente componente de estados dolorosos crônicos e pode
responder mal aos analgésicos opioides.
FÁRMACOS ANALGÉSICOS
FÁRMACOS OPIOIDES
O ópio é um extrato do suco da papoula Papaver somniferum, que contém
morfina, o agonista de opioides prototípico, e outros alcaloides
relacionados. Vem sendo usado com finalidades sociais e medicinais há
milhares de anos como agente promotor de euforia, analgesia e para evitar a
diarreia. Foi introduzido na Grã-Bretanha no final do século XVII; em
geral, é administrado por via oral como “tintura de láudano”, cuja
dependência adquiriu certo selo social durante os 200 anos seguintes. A
situação mudou quando foram inventadas a seringa hipodérmica e a agulha
em meados do século XIX, e a dependência de opioides começou a assumir
significado mais assustador (ver Capítulo 50).
A história da pesquisa sobre opioides é apresentada por Corbett et al.
(2006).
Aspectos químicos
A estrutura da morfina (Figura 43.7) foi determinada em 1902 e, desde
então, muitos compostos semissintéticos (alguns produzidos por
modificação química da morfina) e opioides totalmente sintéticos foram
aprimorados na tentativa de desenvolver melhores fármacos analgésicos
sem os efeitos acessórios indesejados da morfina.
A morfina é um derivado fenantrênico com dois anéis planares e duas
estruturas alifáticas em anel, que ocupam um plano aproximadamente em
ângulo reto com o restante da molécula (ver Figura 43.7). As partes mais
importantes da molécula para a atividade opioide são os grupamentos
hidroxila livres no anel benzênico que está ligado ao átomo de nitrogênio
por intermédio de dois átomos de carbono. Têm sido produzidas variantes
da molécula da morfina por substituição em um ou ambos os grupamentos
hidroxila (p. ex., diamorfina4 3,6-diacetilmorfina, codeína 3-
metoximorfina e oxicodona). A petidina e a fentanila representam mudanças mais drásticas à estrutura básica da morfina, enquanto a
metadona e os novos analgésicos opioides, oliceridina e PZM21, têm
pouca relação química óbvia com a morfina. A troca de um substituinte
volumoso no átomo de nitrogênio da morfina introduz a atividade
antagonista na molécula (p. ex., naloxona).
Figura 43.7 Estruturas químicas da morfina e fármacos relacionados. A área realçada indica a parte da molécula da morfina que é estruturalmente semelhante à tirosina, o aminoácido N-terminal nas endorfinas. Os átomos de carbono 3 e 6 na estrutura da morfina estão assinalados. A diamorfina (heroína) é a 3,6-diacetilmorfina e a morfina é metabolizada pela adição de um grupamento glicuronídeo, tanto na posição 3 quanto na posição 6.
Receptores opioides
A proposta de que os opioides induzem analgesia e seus outros efeitos por
meio da interação com receptores específicos surgiu pela primeira vez nos
anos 1950, e tinha como base os requisitos estruturais e estereoquímicos
específicos e essenciais para essa atividade. Entretanto, somente com o
desenvolvimento de moléculas com atividade antagonista (p. ex., a
naloxona) que a noção de um receptor específico foi aceita. Martin et al.
forneceram, então, a evidência farmacológica para múltiplos tipos de
receptores opioides. Eles propuseram três tipos de receptor, denominados , e
.5 Posteriormente, no início dos anos 1970, foi utilizada a ligação de
radioligantes (ver Capítulo 2) para demonstrar a presença dos receptores no
cérebro.
Por que existem receptores específicos no cérebro para morfina, um
fármaco que está presente na papoula? Hughes e Kosterlitz pensaram que
deve haver uma substância endógena ou substâncias no cérebro que ativam
esses receptores.6 Em 1975, eles descreveram o isolamento e a
caracterização dos primeiros ligantes endógenos, as encefalinas.
Atualmente, sabemos que as encefalinas são somente dois dos membros de
uma grande família de peptídios opioides endógenos conhecidos
coletivamente como endorfinas, todas com um resíduo de tirosina no N-
terminal. A estrutura química da tirosina inclui um grupamento amina
separado do anel fenólico por dois átomos de carbono. Essa mesma
estrutura (fenol-2 átomos de carbono-amina) também é encontrada na
estrutura da morfina (Figura 43.7). Provavelmente é apenas sorte (boa ou
má, dependendo do ponto de vista de cada um) que a papoula opiácea
sintetize uma molécula alcaloide semirrígida, a morfina, sendo que uma
parte se assemelha estruturalmente ao resíduo de tirosina nos peptídios
opioides endógenos.
Analgésicos opioides
• Terminologia:
– Opioide: qualquer substância, endógena ou sintética, que produza efeitos
semelhantes aos da mor na e que sejam bloqueados por antagonistas como a
naloxona
– Opiáceos: compostos como a mor na e a codeína que são encontrados na papoula
– Analgésicos narcóticos: termo antigo para opioides; o termo narcótico refere-se à
capacidade de induzir o sono. Infelizmente, esse termo foi subsequentemente
sequestrado e inadequadamente utilizado por alguns para se referir aos fármacos
com potencial abusivo (ver Capítulo 50)
• Os agonistas estruturalmente relacionados mais importantes incluem diamor na,
oxicodona e codeína
• Análogos sintéticos incluem petidina, fentanila, metadona, buprenor na
• Os analgésicos opioides podem ser administrados por via oral, parenteral ou intratecal,
para produzir analgesia.
No seguimento da descoberta das encefalinas, estudos farmacológicos e
sobre ligação de ligantes revelaram outro receptor, δ, e os três tipos
conhecidos de receptores ( , δ e ) foram clonados. Mais tarde, outro receptor
opioide (ORL1) que apresenta acentuado grau de homologia na sequência (> 60%) com os receptores opioides , δ e foi identificado, utilizando-se
técnicas de clonagem, embora o antagonista naloxona não se ligue a esse
novo receptor. A terminologia utilizada para os receptores opioides passou
por diversas revisões ao longo dos anos; neste capítulo, utilizaremos a
terminologia clássica. Os quatro receptores de opioides, , δ, e NOP
(originalmente referido como o receptor tipo opioide 1 ou ORL1) são todos
receptores ligados à proteína G (ver Capítulo 3).7 Os principais efeitos
comportamentais resultantes de suas ativações encontram-se resumidos na
Tabela 43.2. A interação de diferentes peptídios opioides endógenos com os
diferentes tipos de receptores encontra-se na Tabela 43.3. Alguns agentes
que são usados como ferramentas experimentais para distinguir os
diferentes tipos de receptores também são mostrados.
O desenvolvimento de cepas de camundongos transgênicos sem três dos
receptores opioides revelou que os principais efeitos farmacológicos da
morfina, incluindo a analgesia, são mediados pelo receptor .
Os quatro receptores opioides, aparentemente, formam conjuntos de
receptores tanto homoméricos quanto heteroméricos (ver Capítulo 3). Os
receptores opioides são, de fato, bastante promíscuos e podem formar
heterômeros com receptores não opioides. Foi demonstrado que a
heterodimerização entre receptores opioides resulta em características
farmacológicas diferentes das observadas nos receptores monoméricos e
pode explicar alguns dos subtipos de cada receptor que foram propostos
(Fujita et al., 2014). Outro nível de complexidade pode refletir vieses (ver
Capítulo 3) por meio dos quais diferentes ligantes que atuam no mesmo
receptor opioide podem provocar diferentes respostas celulares e
distribuição diferencial dos receptores (Kelly, 2013).8
Mecanismo de ação dos opioides
Provavelmente, os opioides têm sido estudados mais intensamente que
qualquer outro grupo de fármacos, no esforço de compreender seus efeitos
poderosos em termos moleculares, celular e fisiológicos e usar esses
conhecimentos para desenvolver novos fármacos que se tornem analgésicos
com vantagens significativas sobre a morfina. Ainda assim, a morfina – descrita por Osler como “o próprio medicamento de Deus” – continua a ser
o padrão contra o qual os novos analgésicos são ensaiados.
■ Ações celulares
Os quatro tipos de receptores opioides pertencem à família de receptores
acoplados à proteína Gi/Go, portanto, os opioides exercem efeitos poderosos sobre os canais iônicos presentes na membrana neuronal por intermédio do
acoplamento direto da proteína G ao canal. Os opioides promovem a
abertura dos canais de potássio (ver Capítulo 4) e inibem a abertura de
canais de cálcio controlados por voltagem. Esses efeitos de membrana
reduzem a excitabilidade neuronal (porque o aumento da condutância de K+
causa hiperpolarização da membrana, fazendo que seja menos provável que
a célula dispare potenciais de ação) e reduzem a liberação de transmissores
(pela inibição da entrada de Ca2+). O efeito global, portanto, é inibitório no
nível celular, porém os opioides aumentam a atividade em algumas vias
neuronais (ver p. 545, Figura 43.4). Eles causam excitação dos neurônios de
projeção por supressão da atividade de interneurônios inibitórios, o que
tonicamente inibe os neurônios de projeção (ver Capítulo 38, Figura 38.2).
Tabela 43.2 Efeitos funcionais associados aos principais
tipos de receptores opioides.
Receptor μ δ κ NOP
Analgesia
Supraespinal a +++ —? — Antiopioide
Espinal ++ ++ + ++
Periférica ++ — ++ —
Depressão respiratória +++ ++ — —
Constrição da pupila ++ — + —
Redução da
mobilidade ++ ++ + —
gastrintestinal
Euforia +++ — — —
Disforia e alucinações — — +++ —
Sedação ++ — ++ —
Catatonia — — — ++
Dependência física +++ — — —
a Inicialmente, acreditava-se que os agonistas do receptor NOP produzissem nocicepção ou hiperalgesia, porém, mais tarde, foi
mostrado que eles revertem os efeitos analgésicos supraespinais dos agonistas endógenos ou exógenos do receptor μ.
No nível bioquímico, os quatro tipos de receptores inibem a adenilato
ciclase e levam à ativação da MAP quinase (ERK; ver Capítulo 3). Essas
respostas celulares provavelmente são importantes na mediação das
alterações adaptativas a longo prazo que ocorrem em resposta à ativação
prolongada do receptor e que, para os receptores , podem ser responsáveis
pelo fenômeno de dependência física (ver Capítulo 50).
No nível celular, contudo, todos tipos de receptores opioides medeiam
efeitos muito semelhantes. É a sua distribuição anatomicamente
heterogênea pelo SNC que dá origem às diferentes respostas que ocorrem
com os agonistas seletivos para cada tipo de receptor.
Locais de ação dos opioides para produção de analgesia
Os receptores de opioides distribuem-se amplamente no cérebro e na
medula espinal. Os opioides são eficazes como analgésicos se injetados em doses mínimas dentro de um número de núcleos cerebrais específicos
(como córtex insular, amígdala, hipotálamo, região CPA e RMV), assim
como dentro do corno posterior da medula espinal (ver Figura 43.4).
Existem evidências que sugerem que a analgesia supraespinal dos opioides
envolva a liberação de peptídios opioides endógenos, tanto dos locais
supraespinais quanto dos espinais, e que, no nível espinal, existe também
um componente da analgesia que é resultado da liberação de serotonina (5-
HT) das fibras inibitórias descendentes. A interrupção cirúrgica da via
descendente, a partir da RMV até a medula espinal, reduz a analgesia
induzida pela morfina que foi administrada sistemicamente ou
microinjetada dentro dos pontos supraespinais, implicando o fato de que a
combinação dos efeitos dos pontos supraespinais e espinais contribui para a
resposta analgésica.
Tabela 43.3 Fármacos receptor-seletivos para os peptídios
opioides endógenos.
μ δ κ NOP
Peptídios
endógenos
β-endor na +++ +++ + —
Leuencefalina (++) +++ + —
Metencefalina ++ +++ + —
Dinor na + + +++ —
Orfanina
a — — — +++
FQ/noniceptina
Ferramentas de
pesquisa
Agonistas
DAMGO b +++ — — —
DPDPE b — ++ — —
Enadolina — — +++ —
Ro64-6198 — — — +++
Antagonistas
CTOP b +++ — — —
Naltrindol — +++ + —
Nor-binaltor mina + + +++ —
SB 612111 — — — +++
Nota: + representa atividade agonista ou antagonista; entre parênteses, são agonistas parciais; – representa ausência de
atividade ou atividade fraca. aO ligante endógeno para o receptor NOP é descrito na literatura tanto como orfanina quanto como
nociceptina. bDAMGO, DPDPE e CTOP são peptídios sintéticos.
No nível espinal, a morfina inibe a transmissão de impulsos
nociceptivos através do corno posterior e suprime os reflexos espinais
nociceptivos, mesmo nos pacientes com transecção da medula espinal. Pode
atuar de forma pré-sináptica para inibir a liberação de diferentes
neurotransmissores das terminações aferentes primárias nos neurônios do
corno posterior, assim como atuar de forma pós-sináptica para reduzir a
excitabilidade dos neurônios no corno dorsal.
Também há evidências (Sawynok, 2003) de que os opioides inibam a
descarga de terminações aferentes nociceptivas na periferia, particularmente
sob condições de inflamação, nas quais aumenta a expressão dos receptores de opioides pelos neurônios sensitivos. A injeção de morfina no joelho,
após cirurgia dessa articulação, promove analgesia eficaz, solapando a
crença antiga de que a analgesia por opioides seja um fenômeno
exclusivamente central.
Ações farmacológicas
A morfina é típica de muitos opioides analgésicos e será tomada como
composto de referência. Seus efeitos são mediados predominantemente por
receptores .
Os efeitos mais importantes da morfina ocorrem no SNC e no trato
gastrintestinal, embora tenham sido descritos inúmeros efeitos de
significância menor sobre muitos outros sistemas.
Receptores de opioides
• Os receptores são responsáveis pela maioria dos efeitos analgésicos dos opioides e por
alguns dos principais efeitos adversos (p. ex., depressão respiratória, constipação
intestinal, euforia, sedação e dependência)
• A ativação dos receptores δ resulta em analgesia, mas também pode ser pró-
convulsivante
• Os receptores contribuem para a analgesia em nível espinal e podem causar sedação,
disforia e alucinações. Alguns analgésicos são mistura de agonistas /antagonistas
• Os receptores NOP também são membros da família de receptores opioides. A ativação
resulta em efeito antiopioide (supraespinal), analgesia (espinal), imobilidade e
di culdade de aprendizagem
• Os receptores não são receptores de opioides verdadeiros, mas são o local de alguns
fármacos psicotomiméticos, com os quais alguns opioides também interagem
Todos os receptores opioides são ligados por intermédio de proteínas Gi/Go e, portanto,
• abrem os canais de potássio (causando hiperpolarização) e inibem a abertura dos canais
de cálcio (inibem a liberação do transmissor). Além disso, eles inibem a adenilato ciclase e
ativam a via das MAP quinases (EKR)
• Os heterômeros funcionais, formados pela combinação de diferentes tipos de receptores
opioides ou com outros tipos de receptor acoplado à proteína G, podem ocorrer e dar
origem a uma futura diversidade farmacológica.
■ Efeitos sobre o sistema nervoso central
Analgesia
A morfina e outros opioides são altamente efetivos na maior parte dos tipos
de dor aguda, como na dor de “fim de vida” resultante do câncer. Eles são menos eficazes no tratamento da dor neuropática e em outros estados de dor
crônica.
Hiperalgesia
Tanto em estudos em animais quanto em pacientes que receberam opioides
para alívio da dor, a exposição prolongada aos opioides pode
paradoxalmente induzir o estado de hiperalgesia, no qual pode ocorrer
sensação de dor ou alodinia (Lee et al., 2011). Isso pode aparecer na forma
de redução da resposta analgésica a uma determinada dose de opioides,
porém não deve ser confundido com tolerância, que é a redução da
responsividade decorrente, em grande parte, da dessensibilização do
receptor (p. 553), e ocorre com outros efeitos induzidos por opioides como
euforia e, a um menor nível, depressão respiratória. A hiperalgesia parece
ter componentes periféricos, espinais e supraespinais. Em nível neuronal,
foi proposto que um conjunto de mediadores e mecanismos contribui para
esse fenômeno (Roeckel et al., 2016). Estes incluem ativação dos receptores
NO, PKC e NMDA. Além disso, a expressão do receptor P2X 4 na micróglia é aumentada, resultando em uma liberação de BDNF na via de sinalização
TrkB e em uma infrarregulação do cotransportador de K+/Cl- KCC2. Nos
ratos em que o BDNF foi suprimido da micróglia para que a hiperalgesia
por morfina não ocorresse, a tolerância e a antinocicepção não foram
afetadas. A hiperalgesia induzida por opioides pode ser reduzida com a
utilização da cetamina (um antagonista do NMDA), propofol (um
anestésico intravenoso), um agonista dos receptores α 2-adrenérgicos, e com inibidores da COX-2. A mudança para outro opioide também pode reduzir a
hiperalgesia; neste caso, a metadona pode ser uma boa escolha, visto que é
um antagonista fraco do receptor NMDA.
Euforia A morfina causa uma potente sensação de contentamento e bem-estar (ver
Capítulo 50). Isso pode contribuir para seu efeito analgésico. Se a morfina
ou a diamorfina (heroína) forem administradas por via intravenosa, o
resultado será um “ímpeto súbito” que se assemelha a um “orgasmo
abdominal”. A euforia produzida pela morfina depende consideravelmente
das circunstâncias. Nos pacientes angustiados, é pronunciada, mas nos
pacientes acostumados à dor crônica, a morfina causa analgesia com pouca
ou nenhuma euforia. Alguns pacientes relatam agitação, e não euforia, sob
tais circunstâncias.
A euforia é mediada pelos receptores , enquanto a ativação dos
receptores produz disforia e alucinações (ver Tabela 43.2). Desse modo,
diferentes opioides variam muito no grau de euforia que produzem. Isso não
ocorre com a codeína em grau acentuado. Existem evidências de que os
antagonistas no receptor apresentam propriedades antidepressivas, o que
pode indicar que exista a probabilidade de ocorrer, na depressão, a liberação
de agonistas endógenos.
Depressão respiratória
A depressão respiratória, resultando em aumento da P”CO2 arterial, ocorre com uma dose normal analgésica de morfina ou compostos relacionados,
embora em pacientes com dor grave o grau de depressão respiratória
produzido possa ser menor do que o antecipado. A depressão respiratória é
mediada por receptores . O efeito depressor está associado à diminuição da
sensibilidade do centro respiratório à P”CO2 arterial e à inibição da geração
do ritmo respiratório. As alterações na P”CO2 são detectadas por neurônios quimiossensíveis no tronco encefálico e no núcleo bulbar. O aumento do
CO 2 arterial (hipercapnia), portanto, normalmente resulta em aumento
compensatório na taxa de ventilação (VE) por minuto. Em algumas das regiões quimiossensíveis, os opioides exercem efeito depressivo na resposta hipercápnica, o que leva ao aumento da VE não ser suficiente para
contrabalançar o aumento de CO 2. Os movimentos respiratórios são originados da atividade de um gerador de ritmo (complexo pré-Bötzinger)
dentro da coluna respiratória ventral do bulbo. Os receptores dos opioides
estão localizados nessa região, e a injeção local de agonistas de opioides
reduz a frequência respiratória.
A depressão respiratória pelos opioides não é acompanhada por
depressão dos centros bulbares que controlam a função cardiovascular
(diferentemente da ação dos anestésicos gerais e outros depressores do
SNC). Isso significa que a depressão respiratória produzida pelos opioides é
muito mais tolerada que um grau semelhante de depressão causado por,
digamos, um barbitúrico. Não obstante, a depressão respiratória é um efeito
adverso perigoso desses fármacos e, diferentemente daquele causado por
depressores gerais do SNC, ocorre em doses terapêuticas, sendo a causa
mais comum de óbito na intoxicação aguda por opioides.
Depressão do reflexo da tosse
A supressão da tosse (efeito antitosse; ver Capítulo 29),
surpreendentemente, não se relaciona estreitamente com as ações
analgésicas e depressoras dos opioides, e seu mecanismo no nível dos
receptores não está claro. Em geral, aumentar a substituição no grupo
hidroxila fenólico da morfina aumenta a atividade antitussígena em relação
à atividade analgésica. A codeína e a folcodina suprimem a tosse em doses
subanalgésicas, porém causam constipação intestinal como efeito adverso.
▼ O dextrometorfano, o isômero dextro do analgésico opioide
levorfanol, suprime a tosse, mas tem muito baixa afinidade pelos
receptores de opioides, e a sua ação de supressão da tosse, ao contrário
da dos opioides, não é antagonizada pela naloxona. É um antagonista
não competitivo do receptor NMDA – isso pode explicar o porquê de,
em altas doses, invocar efeitos do SNC semelhantes aos da cetamina e
poder ser alvo de uso abusivo – e tem ações putativas nos receptores .
Acredita-se que funcione em diferentes locais no tronco encefálico e no
bulbo para suprimir a tosse. Além da sua ação antitussígena, o
dextrometorfano é neuroprotetor (ver Capítulo 41) e apresenta ação
analgésica sobre a dor neuropática.
Náuseas e vômitos
Ocorrem náuseas e vômitos em até 40% dos pacientes a quem se administra
morfina, e não parecem ser efeitos separáveis do efeito analgésico entre
uma variedade de analgésicos opioides. O local de ação é a área postrema
(zona quimiorreceptora do gatilho), região do bulbo em que muitos tipos de
estímulos químicos podem iniciar vômitos (ver Capítulo 31).9 Náuseas e
vômitos após a injeção de morfina geralmente são transitórios e
desaparecem com a repetição da administração, embora, em alguns
indivíduos, persistam e possam limitar a adesão do paciente.
Constrição pupilar
A constrição pupilar (miose) é causada por estimulação do núcleo do nervo
oculomotor mediada pelos receptores e . Pupilas puntiformes são
características importantes para diagnóstico na intoxicação por opioides,10
porque a maioria das outras causas de coma e depressão respiratória produz
dilatação pupilar. A tolerância não se desenvolve para constrição pupilar
induzida pelos opioides e, portanto, pode ser observada em usuários de
drogas ilícitas dependentes de opioides que estejam utilizando opioide por
tempo considerável.
■ Efeitos no trato gastrintestinal Os opioides aumentam o tônus e reduzem a motilidade em muitas partes do
sistema gastrintestinal, resultando em constipação intestinal, que pode ser
grave e problemática para o paciente.11 O atraso resultante no esvaziamento
gástrico pode consideravelmente retardar a absorção de outros fármacos. A
pressão no trato biliar aumenta em virtude da contração da bexiga e da
constrição do esfíncter biliar. Os opioides devem ser evitados em pacientes
que sofrem de cólicas biliares devido a cálculos, nos quais a dor pode ser
aumentada em vez de aliviada. O aumento na pressão intrabiliar pode
causar elevação transitória da concentração de amilase e lipase no plasma.
É provável que a ação da morfina no músculo visceral liso seja mediada
principalmente pelo plexo nervoso intramural, pois o aumento no tônus é
reduzido ou abolido pela atropina. Também é parcialmente mediada pela
ação central, pois a injeção intracerebroventricular de morfina inibe os
movimentos propulsivos gastrintestinais. O brometo de metilnaltrexona
(ver Capítulo 9), o alvimopan e o naloxegol são opioides antagonistas que
não ultrapassam a barreira hematencefálica, tendo sido desenvolvidos para
reduzir os efeitos adversos periféricos dos opioides, como a constipação
intestinal, sem reduzir significativamente a analgesia ou precipitar a retirada
em indivíduos dependentes.
■ Outras ações dos opioides
A morfina libera histamina dos mastócitos por meio de ação não
relacionada com os receptores opioides. A petidina e a fentanila não
produzem esse efeito. A liberação de histamina pode causar efeitos locais,
como urticária e prurido no local da injeção, ou efeitos sistêmicos,
denominados broncoconstrição e hipotensão.
A hipotensão e a bradicardia ocorrem com doses elevadas da maioria
dos opioides, devido à ação sobre o bulbo. Com a morfina e fármacos similares, a liberação de histamina pode contribuir para a hipotensão.
Os efeitos no músculo liso, exceto nos tratos gastrintestinal e brônquico,
são leves, embora possam ocorrer espasmos uterinos, da bexiga e dos
ureteres. Os opioides exercem efeitos imunossupressores complexos, que
podem ser importantes, como ligação entre o sistema nervoso e a função
imunológica. O significado farmacológico disso ainda não está claro, mas
há evidências, em humanos, de que o sistema imunológico seja deprimido
por uso abusivo dos opioides por longo tempo e que, em toxicodependentes
com AIDS, o uso de opioides possa agravar a deficiência imunitária.
Tolerância e dependência
A tolerância às muitas ações dos opioides (i. e., aumento da dose necessária
para produzir dado efeito farmacológico) desenvolve-se em alguns dias,
com administrações repetitivas. Existe controvérsia em relação a quando se
desenvolve a tolerância significativa para os efeitos analgésicos da morfina,
especialmente em casos de pacientes em cuidados paliativos, com dor grave
causada por câncer (McQuay, 1999; Ballantyne e Mao, 2003). A
rotatividade de fármaco (mudança de um opioide para outro) é
frequentemente utilizada na clínica para superar a perda da eficácia. Na
medida em que a tolerância provavelmente depende do nível de ocupação
do receptor, o grau de tolerância observado pode refletir o acesso à resposta
(p. ex., analgesia versus depressão respiratória), a eficácia intrínseca do
fármaco e a dose que está sendo administrada (Hayhurst e Durieux, 2016).
A dependência física refere-se a um determinado estado em que a
retirada do fármaco causa efeitos fisiológicos adversos, ou seja, a síndrome
de abstinência.
Os diferentes mecanismos adaptativos celulares são responsáveis por
tolerância e dependência (Williams et al., 2013; ver Capítulos 2 e 50). Tais fenômenos ocorrem, em certo grau, sempre que os opioides são
administrados por mais que alguns dias. Não podem ser confundidos com
vício (ver Capítulo 50), no qual a dependência física é muito mais
pronunciada e a dependência psicológica (ou “desejo compulsivo”) é a
força principal.
■ Tolerância
Em experimentos em animais, a tolerância pode ser detectada mesmo com
uma única dose de morfina. A tolerância estende-se à maioria dos efeitos
farmacológicos da morfina, incluindo analgesia, êmese, euforia e depressão
respiratória, mas afeta muito menos as ações constipantes e constritora da
pupila. Portanto, os dependentes podem tomar dose 50 vezes acima da dose
analgésica normal de morfina, com depressão respiratória relativamente
pequena, mas acentuadas constipação intestinal e constrição pupilar.
Ações da mor na
• Os principais efeitos farmacológicos são:
– Analgesia
– Euforia e sedação
– Depressão respiratória
– Supressão da tosse
– Náuseas e vômitos
– Constrição pupilar (miose)
– Redução da motilidade gástrica, levando à constipação intestinal
– Liberação de histamina, causando coceira, constrição brônquica e hipotensão
• Os efeitos adversos mais problemáticos são náuseas e vômitos, constipação intestinal e
depressão respiratória
• A superdosagem aguda com a mor na produz coma e depressão respiratória
• A diamor na (heroína) apresenta-se inativa nos receptores opioides, mas é rapidamente
metabolizada no cérebro em 6-acetilmor na e mor na
• A codeína também é convertida em mor na por intermédio do metabolismo hepático,
porém mais lentamente.
Os mecanismos celulares responsáveis pela tolerância são discutidos no
Capítulo 2. A tolerância é resultado, em parte, da dessensibilização dos
receptores (i. e., no nível do alvo do fármaco) e, em parte, devido às
alterações adaptativas em níveis celular, sináptico e de rede (Williams et al.,
2013). A tolerância é fenômeno geral dos ligantes de receptores de
opioides, independentemente do tipo de receptor sobre o qual atuem.
Ocorre tolerância cruzada entre fármacos que atuam no mesmo receptor, mas não entre opioides que atuam sobre diferentes receptores. Em
ambientes clínicos, a dose de opioide necessária para alívio efetivo da dor
pode aumentar em decorrência do desenvolvimento de tolerância, mas não
constitui grande problema.
■ Dependência física
A dependência física caracteriza-se por síndrome de abstinência nítida. Em
animais de experimentação (como os ratos), a retirada abrupta de morfina
depois da administração repetitiva por alguns dias, ou a administração de
um antagonista como a naloxona, causa aumento da irritabilidade, perda de
peso, diarreia e vários padrões anômalos de comportamento, como
estremecimentos do corpo (fibrilações musculares), contorções, saltos e
sinais de agressividade. Essas reações diminuem depois de alguns dias, mas
a irritabilidade anômala e a agressividade persistem por muitas semanas. Os
sinais de dependência física serão muito menos intensos se a retirada do
opioide for gradual. O ser humano costuma experimentar a síndrome de
abstinência quando os opioides são retirados após serem usados para alívio
da dor durante dias ou semanas, com sintomas de agitação, coriza, diarreia,
tremores e piloereção.12
Têm sido descritas muitas alterações fisiológicas com relação à
síndrome de abstinência. Por exemplo, ocorre hiperexcitabilidade reflexa
espinal em animais dependentes de morfina e pode ser produzida pela
administração intratecal ou sistêmica crônica de morfina. As vias
noradrenérgicas que saem do LC (ver Capítulo 40) também podem
desempenhar papel importante na causa da síndrome de abstinência. A taxa
de disparo dos neurônios LC é reduzida pelos opioides e aumentada durante
a síndrome da abstinência. O agonista dos α2-adrenorreceptores lofexidina
(ver Capítulo 15) pode ser usado para aliviar os sintomas de privação. Em modelos animais e também em humanos, a síndrome de abstinência
também pode ser reduzida quando são administrados antagonistas dos
receptores NMDA (p. ex., cetamina).
Tolerância e dependência
• A tolerância desenvolve-se rapidamente
• O mecanismo de tolerância envolve a dessensibilização do receptor. Não é de origem
farmacocinética
• A dependência compreende dois componentes:
– Dependencia sica, associada a sindrome de abstinencia e perdurando por alguns
dias
– Dependencia psicologica, associada ao desejo e podendo permanecer por meses ou
ate anos, raramente ocorrendo em pacientes que estejam utilizando os opioides
como analgesicos
• A dependência física, caracterizada pela síndrome da abstinência na interrupção de
administração do fármaco, ocorre com os agonistas dos receptores
• A síndrome de abstinência é precipitada pelos antagonistas dos receptores
• Os agonistas do receptor de ação longa, como a metadona e a buprenor na, podem
ser utilizados para aliviar os sintomas da síndrome de abstinência
• Alguns analgésicos opioides, como codeína, buprenor na e tramadol, têm muito
menos probabilidade de causar dependência física ou psicológica.
Aspectos farmacocinéticos
A Tabela 43.4 resume as propriedades farmacocinéticas dos principais
analgésicos opioides. A absorção de congêneres da morfina por via oral é
variável. A própria morfina é absorvida lenta e erraticamente, sendo comumente administrada por via intravenosa para tratar dor aguda intensa;
a morfina por via oral, contudo, costuma ser usada para tratar a dor crônica,
e existem preparações de liberação lenta para aumentar sua duração de
ação. A oxicodona encontra-se amplamente disponível em preparação oral
de liberação lenta. A codeína é bem absorvida e, habitualmente,
administrada por via oral. A maioria dos fármacos semelhantes à morfina
passa por considerável metabolismo de primeira passagem, e, portanto, eles
são muito menos potentes quando usados por via oral, e não injetados.
A meia-vida plasmática da maioria dos análogos da morfina é de 3 a 6
horas. O metabolismo hepático é a principal modalidade de inativação,
geralmente por conjugação com glicuronídeo. Isso ocorre nos grupos 3 e 6-
OH (ver Figura 43.7), e estes glicuronídeos constituem fração considerável
do fármaco na corrente sanguínea. Alega-se que a morfina-6-glicuronídeo
seja mais ativa como analgésico que a própria morfina, e contribua pelo
efeito farmacológico. Argumenta-se que a morfina-3-glicuronídeo
antagoniza o efeito analgésico da morfina, mas não se tem certeza sobre a
significância desse achado experimental, visto que esse metabólito
apresenta pouca ou nenhuma afinidade pelos receptores opioides. Os
glicuronídeos de morfina são eliminados na urina, de modo que a dose
precisa ser reduzida em casos de insuficiência renal. Os glicuronídeos
também alcançam o intestino por intermédio de eliminação biliar, sendo lá
hidrolisados, e a maior parte da morfina é reabsorvida (circulação êntero-
hepática). Em razão da baixa capacidade de conjugação dos recém-
nascidos, fármacos semelhantes à morfina têm duração de ação muito mais
longa; como até mesmo pequeno grau de depressão respiratória pode ser
arriscado, os congêneres da morfina não devem ser usados no período
neonatal nem usados como analgésicos durante o parto. A petidina (p. 557)
é a alternativa mais segura para tal finalidade.
Os análogos que não possuem grupo hidroxila livre na posição 3 (i. e.,
diamorfina, codeína) são convertidos em morfina, o que influencia toda ou
parte da sua atividade farmacológica. No caso da heroína, a conversão
ocorre rapidamente no cérebro, mas, no caso da codeína, o efeito é mais
lento e ocorre por metabolismo no fígado. A morfina produz analgesia
muito eficaz quando administrada por via intratecal e é usada desse modo
pelos anestesiologistas; a vantagem disso é que os efeitos sedativos e
depressores respiratórios se reduzem, embora não sejam completamente
evitados. A remifentanila é rapidamente hidrolisada e eliminada com meia-
vida de 3 a 4 minutos. A vantagem é que, quando administrada por infusão
intravenosa, durante anestesia geral, o nível do fármaco pode ser
manipulado rapidamente quando necessário (ver Capítulo 11 para uma
descrição de como, para infusão intravenosa, tanto a taxa de elevação
quanto a de redução da concentração plasmática são determinadas pela
meia-vida de eliminação).
Na dor pós-operatória e naquela associada ao câncer, os opioides são
muitas vezes administrados “conforme a demanda” (analgesia controlada
pelo paciente). Os pacientes recebem uma bomba de infusão que eles
controlam, sendo a taxa máxima possível de administração limitada para
evitar toxicidade aguda. Os pacientes mostram pouca tendência a usar doses
excessivamente elevadas e tornar-se dependentes; em vez disso, a dose é
ajustada para oferecer analgesia sem sedação excessiva e é reduzida à
medida que a dor vai desaparecendo. Estando no controle de sua própria
analgesia, a ansiedade e o estresse dos pacientes são reduzidos, e o
consumo do analgésico, na verdade, tende a reduzir-se. Na dor crônica, os
pacientes geralmente experimentam aumento súbito e agudo no nível de
dor. Isso é referido como limiar de dor. Para combater isso, existe
necessidade terapêutica de que se possa ser capaz de aumentar rapidamente a quantidade de opioides que estão sendo administrados. Essa necessidade
levou ao desenvolvimento de adesivos transdérmicos sensíveis ao toque,
que contêm potentes opioides, como a fentanila, que rapidamente liberam o
fármaco na corrente sanguínea. Pastilhas e uma espécie de pirulito de
fentanila, os quais produzem rápida absorção através da mucosa oral,
também são usados.
O antagonista opioide naloxona apresenta meia-vida biológica mais
curta que a maioria dos opioides. No tratamento da superdosagem de
opioides, ela precisa ser administrada repetidamente para evitar o efeito
depressivo respiratório do agonista, que recomeça uma vez que a naloxona
seja eliminada. A naltrexona apresenta meia-vida mais longa.
Efeitos adversos
Os principais efeitos adversos da morfina e fármacos relacionados são
mostrados na Tabela 43.4.
A superdosagem aguda com morfina resulta em coma e depressão
respiratória, caracteristicamente com constrição pupilar. É tratada com o
uso de naloxona por via intramuscular ou intravenosa. Isso também serve
como teste para diagnóstico, pois a falha de resposta à naloxona sugere
outra causa, que não a intoxicação por opioide, para o estado comatoso.13
Há o risco de precipitar a síndrome de abstinência intensa com a naloxona,
porque a intoxicação por opioide ocorre principalmente em dependentes.
Tabela 43.4 Características dos principais analgésicos
opioides.
Principais
Via(s) de Aspectos
Fármaco Uso(s) efeitos Notas
administração farmacocinéticos
adversos
Mor na Amplamente Oral, incluindo a Meia-vida de 3 a 4 Sedação Tolerância e
usada para dores forma de horas Convertida Depressão sintomas de crônica e aguda liberação em metabólito respiratória abstinência não
sustentada ativo (mor na 6- Cnstipação são comuns Injeçãoa glicuronídeo) intestinal quando usada para Intratecal Náuseas e analgesia
vômitos Prurido
(liberação de
histamina)
Tolerância e
dependência
Euforia
Atua mais Não disponível em
rapidamente que a todos os países
Diamor na Dor aguda e mor na, em Metabolizada em
Oral Injetável Como a mor na
(heroína) crônica virtude da rápida mor na e em
penetração outros metabólitos
cerebral ativos
Como a mor na, O levorfanol é
Meia-vida de 2 a 4
Dor aguda e porém alega-se semelhante, com
Hidromorfona Oral Injetável horas Não tem
crônica que seja menos maior duração de
metabólitos ativos
sedativa ação
Tornou-se um
Oral, incluindo a grande fármaco de
forma de uso abusivo A
Dor aguda e Meia-vida de 3 a
Oxicodona liberação Como a mor na hidrocodona,
crônica 4,5 horas
sustentada usada Injetável primariamente nos
EUA, é semelhante
Metadona Dor crônica Oral Injetável Meia-vida longa (> Como a mor na, Recuperação lenta
Manutenção de 24 horas) Início de porém menor resulta em dependentes ação lento efeito eufórico síndrome de
abstinência
Pode ocorrer atenuada em
acúmulo consequência da
meia-vida longa
Meia-vida de 2 a 4 Conhecida como
Como a mor na
horas Metabólito meperidina nos
Efeitos
ativo (norpetidina) EUA Interage com
Oral Injeção anticolinérgicos
Petidina Dor aguda pode ser inibidores da
intramuscular Risco de
responsável pelos monoamina
excitação e
efeitos oxidase (ver
convulsões
estimulantes Capítulo 48)
Como a mor na,
porém menos
pronunciados
Depressão
Meia-vida de
respiratória não
aproximadamente
Dor aguda e Sublingual revertida pela Útil na dor crônica
12 horas Início
crônica Injeção Adesivo naloxona com sistemas de
Buprenor na lento Oralmente
Manutenção de transdérmico (portanto, não injeção controlados
inativa por causa
dependentes Intratecal adequada para pelo paciente
do metabolismo de
uso) Pode
primeira passagem
precipitar a
retirada do
opioide (agonista
parcial)
Comercializada em
Meia-vida de 3,5
Além dos efeitos combinação com
horas (embora
Dor moderada a semelhantes aos ciclasina e tornou-
Dipipanona Oral existam registros
grave da mor na, se um fármaco
de valores
provoca psicose intravenoso de uso
superiores)
abusivo popular
Fentanila Dor aguda Intravenosa Meia-vida de 1 a 2 Como a mor na Alta potência
Anestesia Sublingual horas permite
administração
Adesivo transdérmica
transdérmico Sufentanila é
semelhante
Início e
Infusão Meia-vida de 5 Depressão
Remifentanila Anestesia recuperação muito
intravenosa minutos respiratória
rápidos
E caz somente em
Atua como dor moderada
Principalmente
profármaco Também usada
constipação
Codeína Dor moderada Oral Metabolizada em para suprimir a
intestinal Baixa
mor na e outros tosse Di-
dependência
opioides ativos hidrocodeína é
semelhante
Meia-vida de cerca
Depressão
de 4 horas
respiratória Pode
Metabólito ativo Semelhante à
Principalmente causar convulsões
Dextropropoxifeno Dor moderada (norpropoxifeno) codeína Não é mais
oral (possivelmente
com meia-vida de recomendado
por ação do
aproximadamente
norpropoxifeno)
24 horas
Mecanismo de
ação incerto
Agonista fraco nos
Dor aguda Tontura Pode
Bem absorvido receptores de
(principalmente causar convulsões
Tramadol Oral Intravenosa Meia-vida de 4 a 6 opioides Também
pós-operatória) e Sem depressão
horas inibe a captação de
crônica respiratória
monoaminas O
tapentadol é
semelhante
a Injeções podem ser administradas por via intravenosa, intramuscular ou subcutânea para a maioria dos fármacos.
■ Variabilidade individual
▼ A sensibilidade aos analgésicos opioides varia em até 10 vezes entre
os indivíduos. Isso pode ser devido a alterações no metabolismo ou
sensibilidade dos receptores (para revisão extensa, ver Rollason et al.,
2008). Para a morfina, a redução da responsividade pode ser resultado
de mutações em certo número de genes, incluindo aquele para o gene do
transportador do fármaco, a glicoproteína P (ver Capítulos 10 e 12),
para a glicuroniltransferase, que metaboliza a morfina, e para o próprio
receptor . Mutações em diferentes enzimas citocromo P450 (CYP)
influenciam o metabolismo de codeína, oxicodona, metadona, tramadol
e dextrometorfano. A genotipagem poderia ser usada de início para
identificar indivíduos resistentes aos opioides, mas, primeiramente, a
contribuição da genotipagem para o resultado clínico deve ser
confirmada na população em geral.
Outros analgésicos opioides
A diamorfina (heroína), que é a 3,6-diacetilmorfina, pode ser considerada
um profármaco, visto que sua grande potência analgésica é atribuída à sua
rápida conversão a 6-monoacetilmorfina e morfina. Seus efeitos são
indistinguíveis dos causados pela morfina após a administração oral. No
entanto, em virtude de sua maior lipossolubilidade, atravessa a barreira
hematencefálica mais rapidamente que a morfina e dá “onda” (sensação da
“droga”) maior quando injetada por via intravenosa. Diz-se que é menos
emética que a morfina, mas são discretas as evidências disso. Ainda é
encontrada na Grã-Bretanha para uso como analgésico, embora tenha sido
vetada em muitos países. Sua única vantagem sobre a morfina é a maior
solubilidade, que permite que menores volumes sejam administrados por
via oral, subcutânea ou intratecal. Exerce o mesmo efeito depressor respiratório que a morfina e, se aplicada por via intravenosa, tem mais
probabilidade de causar dependência.
A codeína (3-metoximorfina) é também um profármaco mas, ao
contrário da heroína, sofre demetilação pelo CYP2D6 no fígado para
produzir morfina. Tem 20% ou menos da potência analgésica da morfina,
uma vez que uma grande proporção do fármaco absorvido não é convertida
em morfina, mas, em vez disso, é submetida à glicuronidação hepática e
depois excretada. Seu efeito analgésico não aumenta de forma apreciável
em níveis de dosagem mais elevados, presumivelmente devido à conversão
limitada a morfina e, portanto, é por vezes referida como um agonista fraco.
É mais bem absorvida por via oral do que a morfina e é, portanto, usada
principalmente como analgésico oral para tipos leves de dor (cefaleia, dor
dorsal etc.). Cerca de 10% da população é resistente ao efeito analgésico da
codeína por não conter a enzima responsável pela desmetilação que
converte a codeína em morfina. Diferentemente da morfina, causa pouca ou
nenhuma euforia. Costuma ser combinada ao paracetamol em preparações
analgésicas patenteadas (ver adiante a seção sobre uso combinado dos
opioides e AINE). Quanto ao seu efeito analgésico, a codeína produz o
mesmo grau de depressão respiratória que a morfina, mas sua resposta
limitada até em doses elevadas significa que quase nunca é problema na
prática. No entanto, causa constipação intestinal. A codeína tem acentuada
atividade antitussígena e costuma ser usada em misturas para tosse (ver
Capítulo 29). A di-hidrocodeína é farmacologicamente muito semelhante,
não tendo vantagens ou desvantagens substanciais sobre a codeína.
A oxicodona é utilizada para o tratamento de dor aguda e crônica. A
sugestão de que atue em um subtipo do receptor opioide não é aceita por
toda a comunidade científica. Afirmações de que tenha menos efeito
eufórico e menor potencial de uso abisivo são infundadas. Está disponível como preparação oral de liberação lenta, tal como a hidrocodona, que tem
ação semelhante. A má conduta na prescrição dessas substâncias levou-as a
se tornarem grandes fármacos de abuso, especialmente na América do
Norte (ver Capítulo 50).
Fentanila, alfentanila, sufentanila e remifentanila são derivados
fenilpiridínicos altamente potentes, com ações semelhantes às da morfina,
porém com início mais rápido e menos duradouro, particularmente a
remifentalina. São amplamente utilizados na anestesia e podem ser
administrados por via intratecal. A carfentanila é um análogo mais potente
para sedar animais de grande porte. Fentanila, alfentanila, sufentanila e
remifentanila também são utilizadas em sistemas de infusão controlados
pelo paciente e para dor crônica grave, quando são administradas por meio
de adesivos aplicados à pele. O rápido início de seus efeitos é vantajoso no
caso de dor extrema. A fentanila tem efeitos cardiovasculares mínimos e
não libera histamina. Em anos recentes, a fentanila de produção ilegal,
carfentanila e um conjunto de outros análogos tornaram-se grandes
fármacos de uso abusivo, especialmente nos EUA (ver Capítulo 50). Ao
contrário de outros opioides, elas são facilmente sintetizadas, sem a
necessidade de se colherem papoulas.
A metadona é oralmente ativa e farmacologicamente semelhante à
morfina, sendo que a principal diferença é que a duração de sua ação é
consideravelmente mais longa (meia-vida plasmática > 24 horas). O
aumento da duração parece ocorrer devido ao fato de o fármaco ligar-se ao
compartimento extravascular e ser lentamente liberado. Na retirada, a
abstinência física é menos aguda que a da morfina, embora a dependência
psicológica não seja menos pronunciada. A metadona é amplamente
utilizada como forma de tratamento do vício em heroína (ver Capítulo 50).
É possível desabituar os viciados em heroína por meio da administração
regular de doses orais de metadona – alguma melhora, se não a cura.14 A
metadona apresenta ações em outros locais do SNC, incluindo o bloqueio
dos canais de potássio, receptores NMDA e 5-HT, o que pode explicar seu
perfil de efeitos adversos no SNC. Também existe variação interindividual
na resposta à metadona, provavelmente devido à variabilidade genética
entre os indivíduos em relação ao seu metabolismo.
A petidina (meperidina) é muito semelhante à morfina em seus efeitos
farmacológicos, exceto que tende a causar agitação, e não sedação. Foi
originalmente investigada como um novo agente antimuscarínico, mas
percebeu-se que tinha atividade analgésica opioide; sua ação
antimuscarínica residual é responsável por seus efeitos acessórios de boca
seca e visão turva. Produz efeito eufórico muito semelhante e é igualmente
passível de causar dependência. Sua duração de ação é a mesma ou um
pouco mais curta que a da morfina, mas a via de degradação metabólica é
diferente. A petidina é parcialmente N-desmetilada no fígado, tornando-se
norpetidina, e possui efeitos alucinogênico e convulsivante, que se tornam
significativos com doses orais expressivas de petidina, produzindo a
síndrome de superdosagem um pouco diferente daquela da morfina. A
petidina é preferida à morfina para analgesia durante o trabalho de parto,
porque não reduz a força de contração uterina. A petidina é eliminada
apenas lentamente no recém-nascido, e pode ser necessário o uso de
naloxona para reverter a depressão respiratória no recém-nascido (a morfina
é ainda mais problemática a esse respeito, porque as reações de conjugação
das quais depende a eliminação da morfina, mas não a da petidina, são
deficientes nos recém-nascidos). Têm sido relatadas várias reações,
consistindo em agitação, hipertermia e convulsões, quando a petidina é
administrada a pacientes que estão recebendo inibidores da monoamina
oxidase. Isso parece ser causado pela inibição de uma via metabólica alternativa, levando a aumento da formação de norpetidina, mas os detalhes
não são claros.
A etorfina é um análogo da morfina com uma potência de mais de
1.000 vezes a da morfina, mas, de outra forma, muito semelhante em suas
ações. Sua potência não confere vantagem clínica em seres humanos em
particular, mas é usada na prática veterinária, especialmente no caso de
animais grandes. Pode ser utilizada em conjunto com agentes sedativos
(neuroleptanalgesia) na imobilização de animais selvagens para aprisioná-
los.15
A buprenorfina é um agonista parcial nos receptores que produz uma
forte analgesia, porém existe limite de uso devido ao seu forte efeito
depressivo respiratório. Em virtude de sua ação antagonista, pode produzir
sintomas leves de abstinência em pacientes com dependência de outros
opioides. Dissocia-se lentamente dos receptores, pelo que tem uma longa
duração de ação e pode ser difícil de reverter com a naloxona. Apresenta a
possibilidade de levar ao uso abusivo, porém, assim como a metadona,
também é utilizada no tratamento do vício em heroína. Quando a heroína é
injetada “sobre” a buprenorfina, obtém-se menos euforia, pois a
buprenorfina é agonista parcial. É comercializada sob a forma de preparado
sublingual combinado com naloxona no tratamento de manutenção na
dependência de opioides; quando administrada dessa forma, a naloxona não
é absorvida e não influencia o efeito da buprenorfina, mas, se for
administrada por via parenteral, os efeitos da buprenorfina são reduzidos
pela naloxona, desencorajando o uso abusivo. Tem-se questionado o quanto
isso é eficaz na clínica.
O meptazinol é um opioide com estrutura química incomum. Pode ser
administrado por via oral ou parenteral e tem duração de ação mais curta
que a da morfina. Parece relativamente livre de efeitos adversos semelhantes aos da morfina, não causando disforia nem euforia, tampouco
depressão respiratória grave. Produz, contudo, náuseas, sedação e tontura e
tem ações semelhantes às da atropina. Em virtude da curta duração da sua
ação e da ausência da depressão respiratória, pode ter vantagens para a
analgesia obstétrica.
O tramadol e o tapentadol são amplamente usados como analgésicos
para a dor pós-operatória. O tramadol tem dois enantiômeros estruturais –
(+)-tramadol inibe a recaptação de 5-HT e (–)-tramadol inibe a recaptação
de NA – e o metabólito principal do tramadol (+)-tramadol, O-
desmetiltramadol, ativa o receptor . O tapentadol inibe a recaptação de NE e
ativa o receptor . Eles são analgésicos eficazes e parecem ter um perfil
melhor de efeitos acessórios do que a maior parte dos opioides, embora
tenham sido relatadas reações psiquiátricas. Eles são administrados pela
boca ou por injeção intravenosa ou intramuscular para a dor aguda e
crônica, incluindo dor musculoesquelética e dor associada com a neuropatia
diabética.
A nalbufina é um analgésico que tem atividade nos receptores , e com
menos intensidade nos δ. Atua como agonista nos receptores e como
agonista parcial nos receptores . A pentazocina, raramente usada
clinicamente na atualidade, também combina um grau de atividade de
agonista e antagonista (ou agonista parcial fraco). Tais agentes produzem
menos euforia do que os agonistas dos receptores . O cebranopadol,
atualmente nos últimos estágios de ensaios clínicos, é um agonista de todos
os quatro receptores de opioides.
A loperamida é um agonista do receptor expelido do cérebro pela
glicoproteína P e que, por isso, não tem atividade analgésica. Ela inibe o
peristaltismo e é utilizada para o controle de diarreia (ver Capítulo 31). Antagonistas dos opioides
A naloxona foi o primeiro antagonista puro de opioides, tendo afinidade
pelos três receptores de opioides clássicos ( > δ). Bloqueia as ações dos
peptídios opioides endógenos, bem como as dos fármacos semelhantes à
morfina, e tem sido amplamente usada como instrumento experimental para
determinar o papel fisiológico desses peptídios, particularmente na
transmissão da dor.
Isoladamente, a naloxona produz muito pouco efeito em indivíduos
normais, mas causa reversão rápida dos efeitos da morfina e de outros
opioides. Tem pouco efeito sobre o limiar doloroso sob condições normais,
mas causa hiperalgesia sob condições de estresse ou inflamação, quando
são produzidos opioides endógenos. Isso ocorre, por exemplo, em pacientes
submetidos à cirurgia dental ou em animais submetidos a estresse físico. A
naloxona também inibe a analgesia pela acupuntura, o que se sabe estar
associado à liberação de peptídios opioides endógenos, mas não reduz a
analgesia induzida pela meditação. A analgesia produzida por estimulação
da área CPA também é prevenida pela naloxona.
Os principais usos clínicos da naloxona são para tratar a depressão
respiratória causada por superdosagem de opioides (ver Capítulo 50) e,
ocasionalmente, reverter o efeito dos analgésicos opioides usados durante o
trabalho de parto sobre o recém-nascido. Pode ser administrada por via
nasal, intramuscular ou intravenosa, e seus efeitos são de início rápido. É
rapidamente metabolizada pelo fígado e seu efeito dura apenas 2 a 4 horas,
o que é consideravelmente menor que para a maioria dos fármacos
semelhantes à morfina, portanto, pode precisar ser administrada
repetidamente.
A naloxona não apresenta efeitos adversos importantes por si própria,
mas precipita os sintomas de abstinência nos dependentes. Pode ser usada para detectar dependência a opioides.
A naltrexona é muito semelhante à naloxona, mas tem a vantagem de
apresentar duração de ação muito mais longa (meia-vida de cerca de 10
horas). Pode ser útil no caso de viciados que foram “desintoxicados”, pois
anula o efeito de uma dose de opioides, caso o paciente tenha recaída. Por
esse motivo, encontra-se disponível como formulação para implante
subcutâneo de liberação lenta. Também é eficaz para a redução do consumo
de álcool em alcoólatras (ver Capítulo 50); o motivo para isso é que parte
do efeito do álcool é devido à liberação de peptídios opioides endógenos. O
nalmefeno, outro antagonista de opioides não seletivo, também é usado
para tratar dependentes de álcool. A naltrexona pode também apresentar
efeitos benéficos no choque séptico. É eficaz no tratamento de coceira
crônica (prurido) que ocorre no caso de doença hepática crônica.
Novamente, pode indicar o envolvimento de peptídios opioides endógenos
na fisiopatologia dessas condições de prurido.
O brometo de metilnaltrexona, o alvimopan e o naloxegol são
antagonistas dos receptores que não atravessam a barreira hematencefálica.
Podem ser utilizados em combinação com agonistas de opioides para
bloquear efeitos adversos, mais acentuadamente na redução da motilidade
intestinal, náuseas e êmese.
Agonistas específicos dos receptores , δ e estão disponíveis para uso
experimental (ver Tabela 43.3), porém não são utilizados clinicamente.