Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 319 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Efeitos terapêuticos

Figura 27.2 Diagrama esquemático comparando os pontos de ligação de COX-1 e

 

COX-2. O desenho mostra as diferenças nos pontos de ligação dos AINE nas duas isoformas. Observe que o ponto de ligação da COX-2 caracteriza-se por um “bolso lateral” que pode acomodar grupos relativamente volumosos, tais como o grupamento sulfonamida do celocoxibe, o que impediria seu acesso ao local COX-1. Outros AINE, como o flurbiprofeno (mostrado aqui), podem entrar no local ativo de qualquer das duas enzimas. (Segundo Luong et al., 1996.)

 

EFEITOS TERAPÊUTICOS

 

Efeitos anti-inflamatórios

Como descrito nos Capítulos 18 e 19, muitos mediadores coordenam as

reações inflamatórias e alérgicas. Os AINE reduzem aqueles componentes em que as prostaglandinas, principalmente as derivadas de COX-2,

desempenham um papel significativo. Entre esses componentes estão não

só a vasodilatação característica (pela redução da síntese de prostaglandinas

vasodilatadoras), mas também o edema da inflamação, pois a vasodilatação

facilita e potencializa a ação dos mediadores que aumentam a

permeabilidade das vênulas pós-capilares, como a histamina (ver Capítulo

18).

▼ Apesar de eliminarem os sinais e sintomas da inflamação, os AINE

apresentam pouca ou nenhuma atividade sobre a doença crônica de base

propriamente dita. Como uma classe, eles geralmente não apresentam

efeito direto sobre outros aspectos da inflamação, como liberação de

citocinas/quimiocinas, migração de leucócitos, liberação de enzimas

lisossômicas e produção de radicais tóxicos de oxigênio, todos

contribuindo para o dano tecidual de condições inflamatórias crônicas

como artrite reumatoide, vasculite e nefrite.

Outras ações além da inibição da COX podem contribuir para os efeitos

anti-inflamatórios de alguns AINE. Os radicais de oxigênio reativos

produzidos por neutrófilos e macrófagos estão implicados em danos aos

tecidos em algumas condições, e alguns AINE (p. ex., sulindaco) têm

efeitos de eliminação de radicais de oxigênio, bem como atividade inibidora

de COX; portanto, podem diminuir os danos nos tecidos. O ácido

acetilsalicílico também inibe a expressão do fator de transcrição NFκB (ver

Capítulo 3), que tem papel fundamental na transcrição dos genes dos

mediadores inflamatórios.

 

Efeitos antipiréticos

Os neurônios no hipotálamo controlam o equilíbrio entre a produção e a

perda de calor, regulando, assim, a temperatura corporal normal. A febre ocorre quando há um desequilíbrio deste “termostato” hipotalâmico que

aumenta a temperatura corporal. Os AINE reajustam o termostato. Uma vez

que haja retorno ao ponto de ajuste normal, os mecanismos reguladores da

temperatura (dilatação de vasos superficiais, sudorese etc.) entram em ação

para reduzir a temperatura. A temperatura corporal normal no homem sadio

não é afetada pelos AINE.2

▼ Os AINE exercem sua ação antipirética fundamentalmente por meio

da inibição da produção de prostaglandinas no hipotálamo. Durante a

infecção, endotoxinas bacterianas provocam a liberação da IL-1 dos

macrófagos (ver Capítulo 18). No hipotálamo, essa citocina estimula a

geração de prostaglandinas do tipo E que elevam o ponto de ajuste da

temperatura. A COX-2 pode ter participação no processo, porque a IL-1

induz essa enzima no endotélio vascular no hipotálamo. Há evidências

de que as prostaglandinas não sejam os únicos mediadores de febre e,

por isso, os AINE podem ter um efeito antipirético adicional por

mecanismos ainda desconhecidos.

 

Efeitos analgésicos

Os AINE são eficazes contra a dor leve ou moderada, especialmente aquela

originada de inflamação ou lesão tecidual. Foram identificados dois locais

de ação.

Na periferia, os AINE reduzem a produção de prostaglandinas que

sensibilizam os nociceptores para mediadores da inflamação como a

bradicinina (ver Capítulos 19 e 43), e são, portanto, eficazes no tratamento

de artrite, bursite, dores de origem muscular e vascular, odontalgia,

dismenorreia, a dor do pós-parto e a dor por metástases ósseas. Todas as

afecções estão associadas a aumento da síntese local de prostaglandinas

como resultado de indução da COX-2. Isoladamente ou em combinação com opioides, diminuem a dor do pós-operatório e, em alguns casos, podem

reduzir a necessidade de opioides em até um terço. Sua capacidade de

aliviar a cefaleia pode estar relacionada à redução do efeito vasodilatador

das prostaglandinas sobre a vasculatura cerebral.

Além desses efeitos periféricos, há uma segunda ação central, na

medula espinal e possivelmente em outro local no SNC, menos bem

caracterizada. As lesões inflamatórias periféricas aumentam a expressão da

COX-2 e a liberação de prostaglandinas na medula, facilitando a

transmissão das fibras de dor aferentes para os interneurônios no corno

posterior (ver Capítulo 43).

 

Efeitos adversos

De maneira geral, a carga de efeitos colaterais indesejáveis é alta,

provavelmente pelo fato de os AINE serem usados extensamente, por

períodos prolongados, e frequentemente na população idosa, mais

vulnerável. Quando são usados em doenças articulares (que em geral

necessitam de doses razoavelmente elevadas e uso contínuo e prolongado),

há alta incidência de efeitos colaterais – sobretudo no trato GI, mas também

em fígado, rim, baço, sangue e medula óssea.

Como as prostaglandinas estão envolvidas na citoproteção gástrica,

agregação plaquetária, autorregulação vascular renal e indução de trabalho

de parto, todos os AINE compartilham um perfil semelhante de efeitos

colaterais nesses processos, dependentes de seus mecanismos de ação.

Contudo, pode haver outros efeitos indesejáveis adicionais, próprios de

membros individuais do grupo. Os fármacos seletivos para COX-2

apresentam menor (porém não desprezível) toxicidade GI.

 

■ Distúrbios gastrintestinais Os eventos GI adversos são os efeitos indesejáveis mais comuns dos AINE.

Acredita-se que resultem principalmente da inibição da COX-1 gástrica,

que sintetiza as prostaglandinas que normalmente inibem a secreção de

ácido e protegem a mucosa (ver Capítulo 31, Figura 31.2).

A lesão na mucosa gástrica provoca leves sintomas de desconforto

gástrico (“dispepsia”) e náuseas, o que em alguns casos progride para a

manifestação de hemorragia e ulceração gástrica. Estima-se que 34 a 46%

dos usuários de AINE vão sofrer alguma lesão GI que, embora possa ser

assintomática, pode associar-se a risco de hemorragia grave e/ou

perfuração. Relata-se que esses efeitos GI graves resultam na hospitalização

de mais de 100.000 pacientes por ano nos EUA, sendo que cerca de 15%

desses pacientes morrem dessa doença iatrogênica (Fries, 1998). Observa-

se lesão tanto quando os fármacos são administrados por via oral quanto

sistêmica. No entanto, em alguns casos (sendo o ácido acetilsalicílico um

bom exemplo), a irritação local da mucosa gástrica causada diretamente

pelo próprio fármaco pode provocar a lesão. A administração oral de

análogos de prostaglandina de “reposição”, como o misoprostol (ver

Capítulo 31), diminui a agressão gástrica produzida por esses agentes, e, em

certas ocasiões, ambos são coprescritos ou combinados em um único

comprimido.

Com base em numerosas evidências experimentais, era previsto que os

agentes seletivos para COX-2 proporcionassem bom nível de efeitos anti-

inflamatórios e analgésicos, com menos dano gástrico. Dois grandes

estudos prospectivos compararam os efeitos GI adversos de dois inibidores

altamente seletivos da COX-2 (o celecoxibe e o rofecoxibe) com aqueles

causados por AINE-padrão em pacientes com artrite. Os coxibes mostraram

algum benefício, embora os resultados não tenham sido tão claros quanto o

esperado. No seguimento da terapia, a situação é complexa porque o grau de inibição das duas isoformas COX depende não apenas da atividade

intrínseca do fármaco e da cinética inibitória, mas também da

farmacocinética. Warner e Mitchell (2008) sugeriram que a melhor medida

de “seletividade” dos AINE consiste no grau em que estes inibem a COX-1

na concentração em que inibem a COX-2 em 80%. No seguimento do

tratamento com AINE, pode ocorrer também lesão do intestino delgado.

Não é claro se um mecanismo dependente da COX está envolvido.

 

■ Reações cutâneas

Os rashes cutâneos são efeitos indesejáveis idiossincráticos comuns dos

AINE, particularmente com o ácido mefenâmico (10 a 15% de frequência)

e o sulindaco (5 a 10% de frequência). Os efeitos vão desde reações

eritematosas leves, urticária e fotossensibilidade até doenças mais graves e

potencialmente fatais, incluindo a síndrome de Stevens-Johnson (um rash

bolhoso que se estende para o intestino, ver Capítulo 58), e sua forma mais

grave, a necrólise epidérmica tóxica3 (felizmente muito rara). O mecanismo

é incerto.

 

■ Efeitos adversos renais

Doses terapêuticas de AINE em indivíduos saudáveis praticamente não

interferem na função renal, mas, em pacientes suscetíveis, causam

insuficiência renal aguda, que é reversível por suspensão da terapia (ver

Capítulo 58, Tabela 58.1). Isso ocorre devido à inibição da biossíntese dos

prostanoides (PGE2 e PGI2; prostaciclina) envolvidos na manutenção do fluxo sanguíneo renal, especificamente na vasodilatação compensatória

mediada por PGE2 que ocorre em resposta à ação da norepinefrina ou da

angiotensina II (ver Capítulo 30). O risco é maior em recém-nascidos e idosos, assim como em pacientes com doenças cardíacas, hepáticas ou

renais ou com redução do volume de sangue circulante.

O consumo crônico de AINE, especialmente seu uso abusivo,4 pode

causar nefropatia analgésica, caracterizada por nefrite crônica e necrose

papilar renal (ver Capítulo 30). A fenacetina (já retirada do mercado) foi o

principal vilão; o paracetamol, um de seus principais metabólitos, é muito

menos tóxico. O uso regular de doses prescritas de AINE é menos

prejudicial para o rim do que o consumo intenso e prolongado de

analgésicos de venda livre no contexto social.

 

■ Efeitos adversos cardiovasculares

Embora o ácido acetilsalicílico seja amplamente utilizado na clínica pelos

seus efeitos antiplaquetários de longa duração (ver adiante), outros AINE

geralmente não apresentam essa propriedade e contrapõem-se aos efeitos de

alguns fármacos anti-hipertensivos, elevando, portanto, a pressão arterial

em pacientes que não estejam sob medicação anti-hipertensiva e levando a

eventos cardiovasculares adversos, como acidente vascular encefálico

(AVE) e infarto agudo do miocárdio (IAM). O efeito hipertensivo depende

da dose e do tempo e raramente ocorre com uma administração a curto

prazo (i. e., dias). Atualmente, sabe-se que (com exceção do ácido

acetilsalicílico em baixa dose) esses efeitos são comuns à maioria dos

AINE, em especial após utilização prolongada. Os pacientes com risco

cardiovascular preexistente encontram-se particularmente em risco. Alguns

fármacos (p. ex., o naproxeno) parecem ser mais bem tolerados no que diz

respeito a esses efeitos adversos do que outros (Ray et al., 2009).

▼ De forma surpreendente, dado que alguns desses fármacos já estão

sendo utilizados há cerca de meio século ou mais, isso apenas foi

reconhecido como um problema grave durante os ensaios com o

rofecoxibe, um inibidor da COX-2, em 2000, após o qual a permanente

preocupação com o risco cardiovascular levou à adição de um “aviso no

rótulo” em 2002. Os resultados de um ensaio posterior a longo prazo,

desenhado para avaliar a atividade anticancerígena do rofecoxibe,

confirmaram um aumento significativo do risco de eventos

cardiovasculares após 18 meses de tratamento com o fármaco. Como

resultado, a fármaco foi retirado do mercado em 2004.

Os motivos para esses efeitos adversos cardiovasculares foram objeto de

grande debate e controvérsia. Uma ideia atrativa era a de que a inibição

da produção da prostaciclina (um potente vasodilatador) pela COX-2 no

tecido vascular poderia levar a um efeito hipertensivo final (Grosser et

al., 2006). Essa ideia ganhou atenção quando se demonstrou que os

coxibes diminuíam a eliminação urinária dos metabólitos da

prostaciclina, sugerindo que a COX-2 era a isoforma dominante

responsável pela produção de prostaciclinas na vasculatura. Outros

argumentavam que a COX-1 era a isoforma principal no tecido vascular

e que os metabólitos da prostaciclina encontrados na urina refletiam,

predominantemente, a síntese intrarrenal e não a produção vascular

global (Kirby et al., 2015). As prostaglandinas são importantes na

regulação da liberação da renina pelas células na região da mácula

densa e, logo, para a pressão arterial. Desse modo, a inibição da COX-2

no local poderá ser o mecanismo responsável. Uma explicação

alternativa recente é a de que a COX-2 renal controla o sistema

metilarginina, suprimindo a liberação da dimetil-arginina assimétrica

(ADMA; do inglês, asymmetrical dimethyl arginate) pela enzima

constitutiva óxido nítrico sintase (NOS; do inglês, nitric oxide synthase)

(Kirby et al., 2016; ver Capítulo 21). O problema ainda não foi