Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 49 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Mecanismos de liberação de cálcio

sem significado terapêutico.

O cálcio também é retirado da célula em troca do Na+, por intermédio

do mecanismo de troca Na+-Ca2+. O transportador transfere três íons Na+ em

troca de um íon Ca2+, produzindo uma corrente resultante de despolarização

enquanto transporta o Ca2+. O gradiente eletroquímico do Na+, e não a

hidrólise de ATP, fornece a energia para a extrusão de Ca2+. Isso significa

que uma redução no gradiente de concentração de Na+, decorrente da

entrada desse íon, reduz a extrusão de Ca2+ pelo transportador, levando ao

aumento secundário em [Ca2+]i, um mecanismo particularmente importante

no músculo cardíaco (ver Capítulo 22). A digoxina (derivada da planta

Digitalis ou “Foxglove”), que inibe a extrusão de Na+, atua no músculo

cardíaco dessa maneira (ver Capítulo 22), conduzindo ao aumento de

[Ca2+]i.

 

MECANISMOS DE LIBERAÇÃO DE CÁLCIO

Existem dois tipos principais de canais de cálcio na membrana do RE e do

RS que desempenham papel relevante no controle da liberação de Ca2+

dessas reservas.

 

• O receptor de trifosfato de inositol (IP R) é ativado pelo trifosfato de 3

inositol (IP ), um segundo mensageiro produzido pela ação de diversos 3

ligantes nos receptores acoplados à proteína G (ver Capítulo 3). O IP R 3

é um canal iônico regulado por ligante, embora sua estrutura molecular

seja diferente da estrutura dos canais regulados por ligantes da

membrana plasmática (Berridge, 2016). Este é o principal mecanismo

pelo qual a ativação dos receptores acoplados a Gq leva ao aumento da

[Ca2+]i

O receptor de rianodina (RyR) é assim chamado porque foi

• inicialmente identificado mediante bloqueio específico causado pelo

alcaloide vegetal rianodina. Existem três isoformas – RyR1–3 (Van

Petegem, 2012) que estão expressas em muitos tipos de células

diferentes. RyR1 é altamente expressado no músculo estriado, RyR2 no

coração e RyR3 nos neurônios cerebrais. No músculo estriado, os RyR

no RS estão fisicamente acoplados a receptores de di-hidropiridina dos

túbulos T (ver Figura 4.9); esse acoplamento resulta na liberação rápida

de Ca2+ após um potencial de ação na fibra muscular. Em outros tipos de

músculo, os RyR respondem ao Ca2+ que entra na célula, através de

canais de cálcio da membrana, por um mecanismo conhecido como

liberação de cálcio induzida por cálcio (CICR; do inglês, calcium-

induced calcium release).

 

A função dos IP 3R e RyR é modulada por uma variedade de outros sinais intracelulares (Berridge, 2016; Van Petegem, 2012) que afetam a magnitude

e o padrão espaço-temporal dos sinais de Ca2+. Técnicas de visualização por

fluorescência revelaram um nível extraordinário de complexidade de sinais

de Ca2+, mas são necessários mais estudos para desvendar a importância

desse padrão em relação aos mecanismos fisiológicos e farmacológicos. A

cafeína aumenta a sensibilidade dos RyR ao Ca2+, causando sua liberação

do RS, até mesmo com níveis de [Ca2+]i de repouso. Isso é utilizado experimentalmente, mas raras vezes ocorre em seres humanos, pois os

outros efeitos farmacológicos da cafeína (ver Capítulo 49) ocorrem em

doses muito menores. O bloqueio causado pelo dantroleno, um composto

relacionado à rianodina, é usado terapeuticamente para aliviar o espasmo

muscular que ocorre na hipertermia maligna (Capítulo 42), uma condição

rara associada a anormalidades hereditárias da proteína RyR.

A Figura 4.2A mostra um sinal típico da [Ca2+]i resultante da ativação de um receptor acoplado a Gq. A resposta produzida na ausência de Ca2+

extracelular representa a liberação dos depósitos intracelulares. A resposta

maior e mais prolongada, que ocorre na presença de Ca2+ extracelular,

mostra a contribuição da entrada de Ca2+ mediada por SOC. Os diversos

mecanismos de retroalimentação (feedback) positiva e negativa que

regulam a [Ca2+] i dão origem a uma variedade de padrões oscilatórios

temporais e espaciais (Figura 4.2B) que são responsáveis pela atividade

rítmica espontânea na musculatura lisa e nas células nervosas (Berridge,

2008).

 

Outros segundos mensageiros

▼ Dois metabólitos intracelulares, a ADP-ribose cíclica (ADPRc) e o

ácido nicotínico dinucleotídio fosfato (NAADP), formados pelas

coenzimas ubíquas nicotinamida adenina dinucleotídio (NAD) e NAD

fosfato, também afetam a sinalização do Ca2+ (Morgan et al., 2015;

Parrington et al., 2015). A ADPRc acentua a sensibilidade dos RyR ao

Ca2+, aumentando o “ganho” do efeito CICR, enquanto se propôs que o

NAADP libere Ca2+ dos lisossomos por ativação de canais de cálcio

com domínio de dois poros (ver Figura 4.1).

Os níveis desses mensageiros nas células dos mamíferos podem ser

regulados principalmente em resposta a alterações no estado metabólico

da célula, embora, até então, os detalhes ainda não tenham sido

esclarecidos. A sinalização anormal de Ca2+ está envolvida em muitas

condições fisiopatológicas, como morte celular por isquemia, alterações

endócrinas e arritmias cardíacas, em que os papéis de ADPRc e de

NAADP, bem como sua interação com outros mecanismos que regulam

a [Ca2+] i, estão, atualmente, sob intensa investigação.

Figura 4.2 A. Aumento na concentração de cálcio intracelular em resposta à ativação de receptor. Os registros foram obtidos de um único neurônio sensitivo de rato cultivado em cultura de tecido. As células foram expostas ao indicador fluorescente de Ca2+, o Fura-2, e o sinal emitido por uma única célula foi monitorado com um microscópio de fluorescência. Uma breve exposição à bradicinina, um peptídio que excita os neurônios sensitivos (ver

 

Capítulo 43), causa aumento transitório na [Ca2+] a partir do valor de repouso, que é cerca

i

de 150 nmol/l. Quando o Ca2+ é removido da solução extracelular, ainda ocorre aumento da [Ca2+] induzido pela bradicinina, mas é de menor importância e dura menos. A resposta

i

na ausência de Ca2+ 2+ extracelular representa a liberação do Ca intracelular armazenado, resultante da produção intracelular de trifosfato de inositol. Acredita-se que a diferença entre essa resposta e a resposta mais acentuada, que ocorre na presença de Ca 2+ extracelular, represente a entrada desse íon através de canais de íons operados por armazenamento presentes na membrana plasmática. (Figura gentilmente cedida por G. M. Burgess e A. Forbes, Novartis Institute for Medical Research.) B. Oscilações espontâneas de cálcio em células marca-passo da uretra de coelho que regulam as contrações rítmicas da musculatura lisa. Os sinais cessam quando o Ca 2+ extracelular é removido, mostrando o envolvimento da ativação dos canais de Ca2+ de membrana no mecanismo. (De McHale N et al., 2006. J. Physiol. 570, 23-28.)

 

Papel das mitocôndrias

▼ Em condições normais, as mitocôndrias acumulam Ca2+

passivamente, como resultado do potencial intramitocondrial, que é

fortemente negativo em relação ao citosol. Essa negatividade é mantida

pela extrusão ativa de prótons, sendo perdida – liberando, assim, Ca2+