Rang e Dale: Farmacologia
Outros fármacos que afetam os canais de sódio
TETRODOTOXINA E SAXITOXINA
▼ A tetrodotoxina (TTX) é produzida por uma bactéria marinha e
acumula-se nos tecidos de um peixe venenoso do Pacífico, o baiacu
(puffer fish). O baiacu é visto no Japão como iguaria especial, em parte
pela sensação de formigamento que vem depois que se come a carne do
peixe. Para servi-lo em restaurantes públicos, contudo, o chef precisa ser
registrado como suficientemente habilitado a remover os órgãos tóxicos
(especialmente fígado e ovários), de modo a tornar a carne segura para
ser consumida. A intoxicação acidental por TTX, não obstante, é muito
comum. Registros históricos de longas viagens marítimas continham
referência a crises intensas de fraqueza, evoluindo para paralisia
completa e morte, causadas pela ingestão de baiacu. Foi sugerido que os
pós utilizados por praticantes de vudu para induzir a zumbificação
podem conter TTX, porém isso é contestado.
A saxitoxina (STX) é produzida por um microrganismo marinho que,
algumas vezes, prolifera em grande número e até muda a cor do mar,
causando o fenômeno da maré vermelha. Em tais ocasiões, moluscos
com conchas podem acumular a toxina e tornar-se venenosos para o
homem.
Essas toxinas, diferentemente dos anestésicos locais, atuam
exclusivamente pelo lado de fora da membrana. Ambas são moléculas
complexas, exibindo uma metade guanidínio com carga positiva. O íon
guanidínio é capaz de passar pelos canais de sódio controlados por
voltagem, e essa parte da molécula de TTX ou STX aloja-se no canal,
enquanto o restante da molécula bloqueia sua abertura externa. A
maneira como a TTX inibe os canais de sódio pode ser comparada a
uma rolha de champanhe. Diferentemente dos anestésicos locais, não há
interação do controle de ativação e das reações de bloqueio com TTX
ou STX – suas associação e dissociação são independentes de o canal
estar aberto ou fechado. Alguns canais sensíveis à voltagem, expressos
no músculo cardíaco ou suprarregulados nos nervos sensoriais na dor
neuropática (i. e., Na V1.5, NaV1.8 e NaV1.9), são relativamente
insensíveis à TTX (ver Capítulo 43).
Tanto a TTX quanto a STX são inadequadas para uso clínico na função
de anestésicos locais, sendo caras de se obter a partir de suas fontes
exóticas e por terem pequena penetração nos tecidos, em virtude de sua
lipossolubilidade muito baixa. Contudo, têm sido importantes como
instrumentos experimentais para isolamento e clonagem de canais de
sódio (ver Capítulo 4).