Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 310 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Ferro

frequente de anemia em partes da África e Ásia; ver Capítulo 56). Às vezes,

o tratamento consiste em interromper o uso da medicação agressora, como,

por exemplo, um fármaco anti-inflamatório não esteroide que esteja

causando hemorragia do trato gastrintestinal (ver Capítulo 27).

 

FERRO

O ferro é um metal de transição com duas propriedades importantes

relevantes para o seu papel biológico, a capacidade de existir em diversos

estados de oxidação e de formar complexos de coordenação estáveis.

O organismo de um homem de 70 kg contém aproximadamente 4 g de

ferro, 65% dos quais circulam no sangue em forma de hemoglobina. Cerca

de metade do restante encontra-se armazenada em fígado, baço e medula

óssea, principalmente como ferritina e hemossiderina. O ferro nessas

moléculas está disponível para síntese de hemoglobina. O restante, que não

está disponível para síntese de hemoglobina, é encontrado na mioglobina,

nos citocromos e em várias enzimas.

A distribuição e a renovação (turnover) do ferro no homem adulto

médio estão ilustradas na Tabela 26.1 e na Figura 26.1. Os valores

correspondentes para uma mulher são aproximadamente 45% inferiores.

Como a maior parte do ferro corporal faz parte – ou destina-se a ser parte –

da hemoglobina, o resultado clínico mais óbvio da deficiência de ferro é a

anemia, sendo que a única indicação para o tratamento com ferro é o

tratamento ou a profilaxia da anemia ferropriva.

 

Tabela 26.1 Distribuição de ferro corporal em homem sadio

de 70 kg.

Proteína Tecido Quantidade de ferro (mg)

Hemoglobina Eritrócitos 2.600

Mioglobina Músculo 400

Enzimas (citocromos, catalase, guanilato

Fígado e outros tecidos 25

ciclase etc.)

Transferrina Plasma e líquido extracelular 8

Fígado 410

Ferritina e hemossiderina Baço 48

Medula óssea 300

(Dados retirados de Jacobs, A., Worwood, M., 1982. Chapter 5. In: Hardisty, R.M., Weatherall, D.J. (Eds). Blood and Its Disorders.

Blackwell Scienti c, Oxford.)

Figura 26.1 Distribuição e renovação (turnover) do ferro corporal. As quantidades ao lado das setas indicam as quantidades normais transferidas a cada dia. A transferência de 6 mg de precursores de eritrócitos para fagócitos representa células “abortadas” que fracassaram em desenvolver-se para eritrócitos funcionais. Hb, hemoglobina; fmn, fagócitos mononucleares (principalmente em fígado, baço e medula óssea); ect., eritrócitos.

 

A hemoglobina é constituída de quatro subunidades de cadeias proteicas

(globinas), cada qual contendo um grupo heme. Este consiste em um anel

porfirínico tetrapirrólico que contém ferro no estado ferroso (Fe2+). Cada

grupo heme pode transportar uma molécula de oxigênio, que se liga

reversivelmente ao Fe2+ e a um resíduo de histidina da cadeia de globina.

Essa ligação reversível é a base do transporte de oxigênio.

 

Renovação e equilíbrio do ferro

As necessidades diárias normais de ferro são de aproximadamente 5 mg

para homens, 15 mg para crianças em fase de crescimento e mulheres em

idade fértil (que menstruam). Uma grávida precisa de uma quantidade de

ferro 2 a 10 vezes maior do que essa, em virtude da demanda fetal e do

aumento das necessidades maternas.1 A dieta média na Europa ocidental

fornece 15 a 20 mg/dia de ferro, basicamente por meio da carne vermelha.

O ferro na carne vermelha geralmente está presente na forma de heme, e

cerca de 20 a 40% do ferro do grupo heme estão disponíveis para absorção.

▼ O ser humano está adaptado para absorver ferro na forma de heme.

Acredita-se que uma das razões pelas quais o homem moderno enfrenta

dificuldades em manter o equilíbrio do ferro (estimam-se 500 milhões

de pessoas com deficiência de ferro no mundo) seja que a mudança da

caça para o cultivo de grãos há 10.000 anos fez com que a carne na

dieta fosse substituída por cereais, que possuem pouco ferro utilizável.

O ferro não hêmico na dieta se encontra principalmente no estado

férrico, o qual precisa ser convertido ao estado ferroso para ser

absorvido. Os sais de ferro têm baixa solubilidade no pH neutro do

intestino delgado; entretanto, o ferro se dissolve no estômago e se liga a

um transportador de mucoproteína. Na presença de ácido ascórbico,

frutose e vários aminoácidos, o ferro se desliga de seu carregador,

formando complexos solúveis de baixo peso molecular que permitem

que permaneça na forma solúvel no intestino. O ácido ascórbico

estimula a absorção do ferro em parte quelando ferro em complexos

solúveis de ferro-ascorbato e em parte pela redução do ferro no estado

férrico em sua forma mais solúvel, como ferroso. A tetraciclina forma

um quelato de ferro insolúvel, prejudicando a absorção de ambas as

substâncias.

A quantidade de ferro na dieta e os vários fatores que afetam sua

disponibilidade são, pois, determinantes importantes da sua absorção,

mas a regulação da absorção de ferro é função da mucosa intestinal,

influenciada pelos depósitos corporais de ferro. Como não existe

nenhum mecanismo regulador da eliminação de ferro, o mecanismo

absortivo desempenha papel essencial no equilíbrio do ferro, dado ser o

único mecanismo pelo qual o ferro corporal é controlado.

A absorção de ferro ocorre no duodeno e na porção proximal do jejuno, e é

um processo de dois estágios envolvendo a captura através da “borda em

escova” para as células da mucosa, e depois a sua transferência para o

plasma. O segundo estágio, que é o limitante da velocidade, é dependente

de energia. O ferro hêmico da dieta é absorvido em forma de heme intacta,

sendo o ferro liberado na célula mucosa pela ação da heme-oxidase. O ferro

não hêmico é absorvido no estado ferroso. Dentro da célula, o ferro ferroso

é oxidado a íon férrico, que se liga a um transportador intracelular, uma

proteína semelhante à transferrina; o ferro é então ou armazenado na célula mucosa como ferritina (se os estoques corporais de ferro forem altos), ou

passa para o plasma (se os estoques forem baixos).

▼ O ferro é transportado no plasma ligado à transferrina, uma

betaglobulina com dois pontos de ligação para o ferro em estado férrico.

Normalmente, os pontos de ligação estão saturados em cerca de 30%

apenas. A qualquer momento, o plasma contém 4 mg de ferro, sendo

que a renovação diária é de cerca de 30 mg (ver Figura 26.1). A maior

parte do ferro que entra no plasma deriva de fagócitos mononucleares,

após a degradação de eritrócitos senescentes. A absorção e a

mobilização intestinal de ferro dos depósitos corporais contribuem

apenas com pequenas quantidades. A maior parte do ferro que sai do

plasma a cada dia é usada para a síntese de hemoglobina por

precursores eritrocitários (eritroblastos). Estes possuem receptores que

se ligam à transferrina, liberando-a novamente quando sua carga de

ferro foi capturada.

O ferro é armazenado em duas formas: ferritina solúvel e hemossiderina

insolúvel. A ferritina está presente em todas as células, mas em especial

nos fagócitos mononucleares do fígado, baço e medula óssea, onde

ocorre em concentrações elevadas. Ela também está presente no plasma.

O precursor da ferritina, a apoferritina, é uma proteína de peso

molecular 450.000, constituída por 24 subunidades polipeptídicas

idênticas que formam uma cavidade onde podem ser armazenados 4.500

átomos de ferro. A apoferritina capta ferro no estado ferroso, oxida o

mesmo e deposita o íon férrico no seu interior. Nessa forma, ela

constitui a ferritina, a forma primária de armazenamento do ferro, a

partir da qual este pode ser mais rapidamente mobilizado. O tempo de

vida dessa proteína repleta de ferro é de apenas alguns dias. A

hemossiderina é uma forma de degradação da ferritina em que os

núcleos com ferro de várias moléculas de ferritina se agregam, após a

desintegração parcial das porções externas das proteínas.

O ferro não é dos metais mais solúveis, explicando a necessidade de

ligação à transferrina (enquanto transportado pelo corpo) e à ferritina

para a utilização intracelular (a ferritina é encontrada sobretudo dentro

das células, mas também pode existir no plasma, transportando o ferro

para dentro das células). No plasma, a ferritina contém pouco ferro, uma

vez que dois terços dos depósitos corporais de ferro estão dentro dos

eritrócitos, existindo mais ferritina do que ferro livre não ligado no

corpo. O processamento lento do ferro absorvido da dieta, transportado

no corpo pela transferrina e armazenado dentro das células pela

ferritina, significa que a maior parte do ferro útil encontra-se nos

eritrócitos, sendo o processamento rápido deste a principal fonte de

ferro liberado. O ferro ligado à ferritina plasmática, no entanto, se

encontra em equilíbrio com a ferritina armazenada nas células, e sua

concentração no plasma (margem normal 40 a 100 ng/ml) é um

indicador clínico útil para estimar os estoques corporais totais de ferro;

valores inferiores a 40 ng/ml indicam deficiência moderada de ferro,

mesmo com hemoglobina, morfologia dos eritrócitos, concentração de

ferro sérico e saturação de transferrina normais; valores inferiores a 20 e

10 ng/ml indicam anemia moderada a grave, respectivamente.

O organismo não tem como eliminar o ferro ativamente. Pequenas

quantidades deixam o organismo por meio da descamação das células

da mucosa contendo ferritina, e quantidades ainda menores saem na

bile, no suor e na urina. Perde-se diariamente um total de cerca de 1 mg.

O equilíbrio de ferro é, portanto, essencialmente dependente do

mecanismo de absorção ativo da mucosa intestinal. Essa absorção é

influenciada pelos estoques de ferro no organismo, mas o mecanismo

preciso desse controle não está esclarecido. O equilíbrio do ferro está

ilustrado na Figura 26.1. Visto que os eritrócitos contêm

aproximadamente 0,6 mg de ferro por mililitro de sangue, a perda de

apenas alguns mililitros por dia aumenta substancialmente a

necessidade diária de ferro.

 

Administração de ferro

O ferro é geralmente administrado por via oral, por exemplo, na forma de

sulfato ferroso. Outros sais para administração oral são os sais ferrosos

succinato, gliconato ou fumarato.

Em indivíduos incapazes de absorver o ferro oral em virtude de

síndromes de má absorção ou como resultado de procedimentos cirúrgicos

ou condições inflamatórias acometendo o trato gastrintestinal, pode ser

necessária a administração parenteral (fora do canal alimentar) de ferro (p.

ex., ferrodextrana, sacarato de hidróxido férrico). Essas formas também

são usadas em pacientes que não toleram preparações orais e em pacientes

com insuficiência renal crônica ou anemia induzida por quimioterapia sob

tratamento com eritropoetina (pp. 339-341). A ferrodextrana pode ser

administrada por injeção intramuscular profunda ou infusão intravenosa

lenta; o sacarato de hidróxido férrico é administrado lentamente IV. Fez-se

uma pequena dose inicial por causa do risco de reação anafilactoide.

 

■ Efeitos adversos

Os efeitos adversos da administração oral de ferro são dose-dependentes e

incluem náuseas, cólicas abdominais e diarreia. O ferro parenteral pode

causar reações anafilactoides (ver Capítulo 58). O ferro é um nutriente

importante para alguns patógenos e existe a preocupação de que poderia agravar o curso clínico da infecção. Por esse motivo, geralmente evita-se

tratamento com ferro durante infecções.

A toxicidade aguda por ferro, normalmente observada em crianças

pequenas que ingeriram comprimidos de ferro atrativamente coloridos

como se fossem balas, pode provocar gastrite necrosante grave com

vômitos, hemorragia e diarreia, seguida de colapso circulatório.

 

Usos clínicos dos sais de ferro

 

Para tratamento de anemia ferropriva, que pode ser causada por:

• Perda sanguínea crônica (p. ex., menorragia, ancilostomose, câncer de cólon)

• Aumento da demanda (p. ex., na gravidez e na primeira infância)

• Ingesta dietética inadequada (incomum em países desenvolvidos)

• Absorção inadequada (p. ex., após gastrectomia ou em doenças como a doença celíaca,

uma intolerância à proteína do trigo, o glúten, mediada imunologicamente que lesa a

mucosa intestinal).

 

■ Sobrecarga de ferro

A toxicidade crônica por ferro, ou sobrecarga de ferro, ocorre nas anemias

hemolíticas crônicas que requerem transfusões de sangue frequentes, como

as talassemias (um grande grupo de anomalias genéticas da síntese da

cadeia de globina) e a hemocromatose (uma doença genética de

armazenamento de ferro com aumento da absorção de ferro, acarretando

lesões em fígado, ilhotas de Langerhans, articulações e pele).2

O tratamento da toxicidade aguda e crônica por ferro inclui o uso de

agentes quelantes de ferro, como a desferroxamina. Esses fármacos

formam um complexo com ferro no estado férrico que, ao contrário do ferro não ligado, é excretado na urina. A desferroxamina não é absorvida pelo

intestino. Para tratar a sobrecarga de ferro crônica (p. ex., na talassemia), é

necessário ser administrada por infusão subcutânea lenta, várias vezes por

semana. Para tratar a sobrecarga de ferro aguda, é necessária a

administração por via intramuscular ou intravenosa (bem como intragástrica

para sequestrar o ferro não absorvido). A deferiprona é um quelante de

ferro absorvida VO, usada como tratamento alternativo para a sobrecarga de

ferro em pacientes com talassemia maior, incapazes de receber a

desferroxamina. Entre os efeitos adversos potencialmente graves estão a

agranulocitose e outras discrasias sanguíneas. O deferasirox é semelhante,

mas pode causar hemorragia gastrintestinal.