Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos antiarrítmicos
Os fármacos com ação importante sobre o coração podem ser divididos em
três grupos.
1. Fármacos que afetam diretamente as células do miocárdio. Estes
incluem:
a. Neurotransmissores autônomos e fármacos relacionados.
b. Antiarrítmicos.
c. Glicosídios cardíacos e outros fármacos inotrópicos.
d. Fármacos e hormônios variados; estes são tratados em outros
capítulos (p. ex., doxorrubicina, ver Capítulo 57; tiroxina, ver
Capítulo 35; glucagon, ver Capítulo 32).
2. Fármacos que afetam indiretamente a função cardíaca. Estes têm ações
em outras partes do sistema vascular. Alguns antianginosos (p. ex.,
nitratos) caem nesta categoria, assim como muitos fármacos usados no
tratamento da insuficiência cardíaca (p. ex., diuréticos e IECA).
3. Antagonistas do cálcio. Estes afetam a função cardíaca por ação direta
sobre as células do miocárdio e também, indiretamente, por relaxamento
da musculatura lisa vascular.
FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS
Vaughan Williams propôs, em 1970, uma classificação de antiarrítmicos
com base em seus efeitos eletrofisiológicos (Tabela 22.1). Este é um bom
início para discutir mecanismos, embora muitos fármacos úteis não se
encaixem nessa classificação (Tabela 22.2). Além disso, o tratamento de
emergência de arritmias graves geralmente se faz por meios físicos (p. ex.,
marca-passo ou cardioversão elétrica por aplicação de um choque de
corrente direta ao tórax ou por meio de um aparelho implantado), e não por
fármacos.
Existem quatro classes (ver Tabela 22.1):
• Classe I: fármacos que bloqueiam canais de sódio sensíveis a voltagem.
São subdivididos em: Ia, Ib e Ic
• Classe II: antagonistas dos receptores β-adrenérgicos
• Classe III: fármacos que prolongam, substancialmente, o potencial de
ação cardíaco
• Classe IV: antagonistas do cálcio.
A Figura 22.9 mostra a fase do potencial de ação em que cada uma dessas
classes de fármaco tem seu principal efeito.
Tabela 22.1 Resumo dos antiarrítmicos (classificação de
Vaughan Williams).
Classe Exemplo(s) Mecanismo
Ia Disopiramida Bloqueio de canais de sódio (dissociação intermediária)
Ib Lidocaína Bloqueio de canais de sódio (dissociação rápida)
Ic Flecainida Bloqueio dos canais de sódio (dissociação lenta)
II Propranolol Antagonismo dos receptores beta-adrenérgicos
III Amiodarona, sotalol Bloqueio de canais de potássio
IV Verapamil Bloqueio de canais de cálcio
Tabela 22.2 Antiarrítmicos não classificados no sistema de
Vaughan Williams.
Fármaco Uso
Atropina Bradicardia sinusal
Epinefrina (adrenalina) Parada cardíaca
Isoprenalina Bloqueio cardíaco
Digoxina Fibrilação atrial rápida
Adenosina Taquicardia supraventricular
Cloreto de cálcio Taquicardia ventricular por hiperpotassemia
Cloreto de magnésio Fibrilação ventricular, toxicidade por digoxina
Mecanismos de ação
■ Fármacos da classe I
Os fármacos da classe I bloqueiam os canais de sódio, assim como fazem os
anestésicos locais, ligando-se a pontos na subunidade alfa (ver Capítulos 4 e
44). Como isso inibe a propagação do potencial de ação em muitas células
excitáveis, é denominado atividade “estabilizadora de membrana”, termo
que é melhor evitar agora que o mecanismo iônico já foi compreendido. O
efeito característico sobre o potencial de ação é reduzir a velocidade
máxima de despolarização durante a fase 0.
▼ A razão para a subdivisão desses fármacos em classes Ia, Ib e Ic é que
os mais antigos, quinidina e procainamida (classe Ia), têm efeitos
diferentes de muitos dos fármacos desenvolvidos mais recentemente,
embora todos compartilhem o mesmo mecanismo básico de ação. Uma
explicação parcial para essas diferenças funcionais vem de estudos
eletrofisiológicos sobre as características do bloqueio de canais de sódio
produzido por diferentes fármacos da classe I.
O conceito central é de bloqueio de canais uso-dependentes. É esta
característica que possibilita que todos os fármacos da classe I
bloqueiem a estimulação de alta frequência do miocárdio que ocorre nas
taquiarritmias, sem impedir que o coração bata em frequências normais.
Os canais de sódio existem em três estados funcionais distintos:
repouso, aberto e inativado (ver Capítulo 4). Os canais mudam
rapidamente do repouso para abertos em resposta à despolarização; isso
é conhecido como ativação. A despolarização mantida, como no
músculo isquêmico, faz com que os canais mudem mais lentamente de
abertos para inativados, e a membrana, que está refratária, precisa então
ser repolarizada por algum tempo para restauração do canal ao estado de
repouso antes que possa ser ativada novamente. Os fármacos da classe I
se ligam aos canais, mais fortemente, quando estão no estado aberto ou
inativado, e com menos força aos canais no estado em repouso. Sua
ação, portanto, mostra a propriedade de “dependência do uso” (p. ex.,
quanto mais frequentemente os canais são ativados, maior o grau de
bloqueio produzido).
Os fármacos da classe Ib, por exemplo a lidocaína, associam-se e
desassociam-se rapidamente no decurso de tempo do batimento
cardíaco normal. O fármaco liga-se a canais abertos durante a fase 0 do
potencial de ação (afetando muito pouco a velocidade de elevação, mas
deixando muitos dos canais bloqueados no momento em que o potencial
de ação chega ao pico). Ocorre dissociação no momento do potencial de
ação seguinte, desde que o ritmo cardíaco seja normal. Um batimento
prematuro, contudo, será abortado porque os canais ainda estão
bloqueados. Além disso, os fármacos da classe Ib se ligam,
seletivamente, aos canais inativados, e, assim, bloqueiam ■ Fármacos da classe II
preferencialmente quando as células estão despolarizadas, por exemplo,
na isquemia.
Os fármacos da classe Ic, como a flecainida e a encainida, associam-se
e dissociam-se muito mais lentamente, chegando, assim, a um nível de
equilíbrio que não varia de forma apreciável durante o ciclo cardíaco. A
condução é acentuadamente inibida por meio do sistema His-Purkinje.
A classe Ia, que é o grupo mais antigo (p. ex., quinidina,
procainamida, disopiramida), encontra-se a meio caminho em suas
propriedades entre Ib e Ic, mas, além disso, prolonga a repolarização,
embora menos acentuadamente que os fármacos da classe III (ver
adiante).
Figura 22.9 Efeitos dos antiarrítmicos sobre as diferentes fases (como definidas na
Figura 22.1) do potencial de ação cardíaco.
Os fármacos da classe II compreendem os antagonistas dos receptores β-
adrenérgicos (p. ex., metoprolol).
A epinefrina pode causar arritmias por seus efeitos sobre o potencial de
marca-passo e sobre a corrente lenta de entrada de Ca2+ (pp. 276-277). As
arritmias ventriculares após IAM são decorrentes, em parte, do aumento da
atividade simpática (ver Figura 22.8), fornecendo uma fundamentação para
usar betabloqueadores nessa situação. A condução AV depende,
criticamente, da atividade simpática; os betabloqueadores aumentam o
período refratário do nó AV e podem, portanto, impedir crises recorrentes
de TSV. Os betabloqueadores também são usados para prevenir crises
paroxísticas de FA quando estas ocorrem em situação de ativação simpática.
■ Fármacos da classe III
A categoria da classe III baseou-se, originalmente, no comportamento
incomum de um único fármaco, a amiodarona (p. 282), embora outros,
com propriedades semelhantes (p. ex., sotalol) já tenham sido descritos.
Tanto a amiodarona como o sotalol têm mais de um mecanismo de ação
antiarrítmica. A característica especial que os define como fármacos da
classe III é que prolongam, substancialmente, o potencial de ação cardíaco.
O mecanismo desse efeito não foi ainda inteiramente compreendido, mas
envolve bloqueio de alguns dos canais de potássio envolvidos na
repolarização cardíaca, incluindo o retificador (tardio) de saída. O
prolongamento do potencial de ação aumenta o período refratário, sendo
responsável por atividade antiarrítmica potente e variada, por exemplo,
interrompendo as taquicardias reentrantes e suprimindo a atividade
ectópica. No entanto, os fármacos que prolongam o potencial de ação
cardíaco (detectado clinicamente como intervalo QT prolongado no ECG; ver anteriormente) podem, paradoxalmente, ter também efeitos pró-
arrítmicos, notadamente uma forma polimórfica de taquicardia ventricular
chamada (um tanto extravagantemente) torsade de pointes (porque se diz
que o aspecto do traçado do ECG lembra esta sequência de balé). Isso
ocorre particularmente em pacientes que estejam tomando outros fármacos
que possam prolongar o QT, incluindo vários antipsicóticos; aqueles com
distúrbios eletrolíticos envolvidos em repolarização (p. ex., hipopotassemia,
hipercalcemia); ou indivíduos com QT prolongado hereditário (síndrome de
Ward-Romano).5 O mecanismo da arritmia não foi ainda completamente
elucidado; as possibilidades incluem aumento da dispersão da repolarização
(p. ex., falta de homogeneidade espacial) e aumento da entrada de Ca2+
durante o potencial de ação prolongado, levando a aumento da pós-
despolarização.
■ Fármacos da classe IV
Os agentes da classe IV atuam bloqueando canais de cálcio sensíveis à
voltagem. Os fármacos da classe IV em uso terapêutico para arritmias (p.
ex., verapamil) atuam sobre os canais do tipo L. Os fármacos da classe IV
tornam mais lenta a condução nos nós SA e AV, em que a propagação do
potencial de ação depende da corrente de entrada de Ca2+, tornando mais
lento o coração e extinguindo a TSV por meio de bloqueio AV parcial.
Abreviam o platô do potencial de ação e reduzem a força de contração. A
redução da entrada de Ca2+ reduz a pós-despolarização e, desse modo,
suprime os batimentos ectópicos prematuros. São expressas classes
funcionalmente distintas de canais de cálcio controlados por voltagem do
tipo L no coração e na musculatura lisa vascular, e os bloqueadores dos
canais de cálcio do tipo L, que atuam principalmente na musculatura lisa vascular (p. ex., nifedipino), aumentam indiretamente o tônus simpático
mediante seu efeito hipotensivo, causando o reflexo da taquicardia.
Detalhes dos fármacos individuais
■ Quinidina, procainamida e disopiramida (classe Ia)
A quinidina e a procainamida, agora majoritariamente de interesse
histórico, são farmacologicamente semelhantes. A disopiramida se
assemelha à quinidina, apresentando efeito atropínico, ação distinta da sua
classe Ia, que pode causar visão embaçada, boca seca, constipação intestinal
e retenção urinária. Apresenta mais ação inotrópica negativa do que a
quinidina, porém é menos provável que cause reações de hipersensibilidade.
■ Lidocaína (classe Ib)
A lidocaína, também muito conhecida como anestésico local (ver Capítulo
43), tem sido administrada por infusão intravenosa no tratamento e
prevenção de arritmias ventriculares em consequência imediata de IAM,
mas agora é raramente utilizada. É quase inteiramente extraída da
circulação porta por metabolismo hepático pré-sistêmico (ver Capítulo 10)
e, portanto, não tem utilidade quando administrada por via oral (contudo, se
for administrada por via oral para produzir anestesia local, pode ser
absorvida diretamente na circulação sistêmica e causar efeitos sistêmicos).
Sua meia-vida plasmática é normalmente de cerca de 2 h, mas sua
eliminação fica mais lenta se o fluxo sanguíneo hepático for reduzido, por
exemplo, por diminuição do débito cardíaco após IAM ou por fármacos que
reduzam o débito cardíaco (p. ex., antagonistas de receptores β-
adrenérgicos). A dosagem precisa ser apropriadamente reduzida para
impedir acúmulo e toxicidade. De fato, sua depuração tem sido usada para
estimar o fluxo sanguíneo hepático, análogo ao uso da depuração de ácido para-amino-hipúrico (PAH) para medir o fluxo sanguíneo renal (ver
Capítulo 10).
Os efeitos adversos da lidocaína são causados principalmente por suas
ações sobre o sistema nervoso central e incluem sonolência, desorientação e
convulsões. Pelo fato de sua meia-vida ser relativamente curta, a
concentração plasmática pode ser ajustada de maneira razoavelmente
rápida, variando-se a taxa de infusão.
■ Flecainida e encainida (classe Ic)
A flecainida e a encainida suprimem extrassístoles. Apresentam ação
prolongada e reduzem a frequência das extrassístoles ventriculares quando
administradas por via oral. No entanto, em ensaios clínicos, aumentam
inesperadamente a incidência de morte súbita associada à FV depois de
IAM, de modo que já não são usadas nessa situação. Esse resultado
contraproducente teve profundo impacto sobre o modo pelo qual os
médicos e instituições que aprovam os fármacos veem o uso de desfechos
intermediários aparentemente razoáveis (neste caso, a redução da
frequência das extrassístoles ventriculares) como evidência de eficácia em
ensaios clínicos.
■ Antagonistas de receptores β-adrenérgicos (classe II)
Os antagonistas β-adrenérgicos são descritos no Capítulo 15. Seu uso
clínico para distúrbios do ritmo é mostrado no boxe clínico. O propranolol,
como vários outros fármacos desse tipo, tem certa ação de classe I além de
bloquear os receptores β-adrenérgicos. Isso pode contribuir para seus efeitos
antiarrítmicos, embora provavelmente não muito, porque um isômero com
pouca atividade β-antagonista tem pouca atividade antiarrítmica, apesar de
atividade semelhante como agente da classe I.
Os efeitos adversos incluem a piora de broncospasmo nos pacientes
com asma, um efeito inotrópico negativo, bradicardia e fadiga. Esperava-se
que o uso de fármacos seletivos β1 (p. ex., metoprolol, atenolol) eliminasse o risco de broncospasmo, mas sua seletividade é insuficiente para atingir
esse objetivo na prática clínica, embora a conveniência da ingestão 1
vez/dia, de vários destes fármacos, tenha levado a seu uso generalizado.
Usos clínicos dos antiarrítmicos da classe I
• Classe Ia (p. ex., disopiramida)
– Arritmias ventriculares
– Prevenção de FA paroxística recorrente desencadeada por hiperatividade vagal
• Classe Ib (p. ex., lidocaína intravenosa)
– Agora raramente utilizado
• Classe Ic
– Prevenção de FA paroxística ( ecainida)
– Taquiarritmias recorrentes associadas a vias de condução anormais (p. ex., síndrome
de Wolff-Parkinson-White).
Usos clínicos dos antiarrítmicos da classe II (p. ex., propranolol, timolol)
• Reduzir mortalidade após IAM
• Impedir a recorrência de taquiarritmias (p. ex., brilação atrial paroxística) provocada por
aumento da atividade simpática
• No controle do hipertireoidismo, enquanto o controle com fármacos antitireoidianos está
sendo estabelecido (ver Capítulo 35).
■ Classe III
A amiodarona é altamente eficaz para suprimir arritmias (ver boxe clínico
adiante). Assim como com outros fármacos que interferem na repolarização
cardíaca, é importante monitorar as concentrações plasmáticas de eletrólitos
(especialmente de K+). Infelizmente, várias peculiaridades complicam o seu
uso. Liga-se extensamente nos tecidos, apresenta meia-vida de eliminação
longa (10 a 100 dias) e se acumula no organismo durante doses repetidas.
Por essa razão, usa-se dose de ataque, e para arritmias que coloquem a vida
em risco, é administrada IV através de uma veia central (causa flebite se
administrada em um vaso periférico). Os efeitos adversos são numerosos e
importantes; incluem rashes fotossensíveis e um distúrbio de coloração
cinza-azulada da pele; anormalidades da tireoide (hipo e hipertireoidismo,
em conexão com seu conteúdo de iodo); fibrose pulmonar, que tem início
tardio, mas pode ser irreversível; depósitos na córnea; e distúrbios
neurológicos e gastrintestinais, incluindo hepatite. Surpreendentemente
(uma vez que atrasa a repolarização e prolonga o intervalo QT) é muito rara
a ocorrência de relatos de torsade de pointes e taquicardia ventricular. A
dronedarona é um correlato benzofurano com alguns efeitos diferentes nos canais iônicos individuais. Ela não incorpora iodo e foi projetada para ser
menos lipofílica do que a amiodarona, na esperança de reduzir as
toxicidades tireoidiana e pulmonar. Sua t1/2 de eliminação é menor que a da amiodarona e é indicada para manter o ritmo sinusal após a cardioversão da
fibrilação atrial, mas apenas como último recurso, devido a preocupações
de segurança: aumentou as taxas de acidente vascular encefálico (AVE),
insuficiência cardíaca e morte por causas cardiovasculares em pacientes
com fibrilação atrial permanente e fatores de risco para eventos vasculares e
é perigosa nesses pacientes (Connolly et al., 2011).
O sotalol é um antagonista β-adrenérgico não seletivo, residindo esta
atividade no isômero L. Ao contrário de outros β-bloqueadores, prolonga o
potencial de ação cardíaco e o intervalo QT, retardando a corrente lenta de
saída de K+. Essa atividade da classe III está presente nos isômeros L e D. O
sotalol racêmico (a forma prescrita) parece ser um tanto menos eficaz que a
amiodarona para prevenir taquiarritmias ventriculares crônicas ameaçadoras
à vida. Pode causar torsade de pointes; tem valor para pacientes nos quais
os β-bloqueadores não estejam contraindicados. O monitoramento atento de
K+ plasmático é importante.
Usos clínicos dos antiarrítmicos da classe III
• Amiodarona: taquicardia associada à síndrome de Wolff-Parkinson-White. Tem efeito,
também, em muitas outras taquiarritmias supraventriculares e ventriculares, mas
apresenta graves efeitos adversos
• Sotalol (racêmico) combina ações das classes III e II. É usado nas arritmias
supraventriculares paroxísticas e suprime extrassístoles ventriculares e períodos breves de
taquicardia ventricular.
■ Verapamil e diltiazem (classe IV)
O verapamil é administrado por via oral. (As preparações intravenosas
estão à disposição, mas são perigosas e quase nunca necessárias.) Apresenta
meia-vida plasmática de 6 a 8 h e está sujeito a metabolismo de primeira
passagem muito extenso, que é mais acentuado para o isômero responsável
por seus efeitos cardíacos. Existe uma preparação de liberação lenta para
uso 1 vez/dia, mas tem menos efeito quando utilizada para prevenção de
arritmia do que a preparação regular, porque a biodisponibilidade do
isômero cardioativo se reduz por meio da apresentação de uma
concentração baixa de equilíbrio às enzimas que metabolizam o fármaco no
fígado. Se o verapamil for acrescentado à digoxina em pacientes com
fibrilação atrial mal controlada, a dose de digoxina deverá ser reduzida;
convém também monitorar a concentração plasmática de digoxina depois
de alguns dias, porque o verapamil desloca a digoxina de locais de ligação
teciduais e reduz sua eliminação renal, assim predispondo a acúmulo de
digoxina e efeitos tóxicos.
▼ O verapamil está contraindicado para pacientes com a síndrome de
Wolff-Parkinson-White (uma síndrome pré-excitatória causada por uma
via rápida de condução entre os átrios e ventrículos, anatomicamente
distinta da via de condução fisiológica, e que predispõe a taquicardia
reentrante) e é ineficaz e perigoso em arritmias ventriculares. Os efeitos
adversos do verapamil e do diltiazem são descritos, a seguir, no tópico
sobre antagonistas dos canais de cálcio.
O diltiazem é semelhante ao verapamil, mas tem relativamente mais efeito
relaxante da musculatura lisa e produz menos bradicardia (assim dito
“neutro” sobre a frequência).
■ Adenosina (não definida na classificação de Vaughan Williams)
A adenosina é produzida endogenamente e é um importante mediador
químico (ver Capítulo 17), com efeitos sobre a respiração, o músculo
cardíaco e liso, os nervos aferentes vagais e as plaquetas, além dos efeitos
sobre o tecido de condução cardíaco, que é subjacente ao seu uso
terapêutico. O receptor A1 é responsável por seu efeito no nó AV. Esses receptores estão ligados ao mesmo canal de potássio cardíaco ativado pela
acetilcolina, e a adenosina hiperpolariza o tecido de condução cardíaco e,
consequentemente, torna mais lenta a velocidade de elevação do potencial
de marca-passo. É administrada por via intravenosa para extinguir TSV
caso esse ritmo persista a despeito de manobras, como a massagem no
corpo carotídeo para aumentar o tônus vagal. Para essa finalidade, a
adenosina substituiu amplamente o verapamil, pois mostra-se mais segura
pelo fato de seu efeito ser menos duradouro. Isso é consequência da sua
farmacocinética: é captada por meio de um transportador específico de
nucleosídios pelas hemácias e metabolizada por enzimas na superfície
luminal do endotélio vascular. Consequentemente, os efeitos de uma dose
em bolus intravenosos de adenosina duram apenas 20 a 30 s. Uma vez
extinta a TSV, o paciente geralmente permanece em ritmo sinusal, embora a
adenosina já não esteja presente no plasma. Seus efeitos adversos de curta
duração incluem precordialgia, falta de ar, tonturas e náuseas. A
regadenosona é um agonista do receptor de adenosina A 2A que é usado como diagnóstico em testes farmacológicos de estresse cardíaco
(mencionado mais adiante, p. 285). Afirma-se que sua seletividade e curta
duração de ação sejam vantagens sobre a adenosina para essa indicação.
Tem meia-vida biológica de 2 a 3 min e é administrada em bolus.