Rang e Dale: Farmacologia
Controle autônomo do coração
As divisões simpática e parassimpática do sistema nervoso (ver Capítulos
13 a 15) exercem, independentemente, um efeito tônico sobre o coração em
repouso e influenciam cada um dos aspectos da função cardíaca discutidos
anteriormente, ou seja, a frequência e o ritmo, a contração, o metabolismo e
o fluxo sanguíneo do miocárdio.
SISTEMA SIMPÁTICO
Os principais efeitos de atividade simpática sobre o coração são:
• Aumento da força de contração (efeito inotrópico positivo; Figura 22.6)
• Aumento da frequência cardíaca (efeito cronotrópico positivo; Figura
22.7)
• Aumento do automatismo (i. e., tendência para gerar batimentos
ectópicos)
• Repolarização e restauração da função após despolarização cardíaca
generalizada
• Redução da eficiência cardíaca (i. e., o consumo de oxigênio aumenta
mais que o trabalho cardíaco)
• Hipertrofia cardíaca (que parece ser mediada diretamente pela
estimulação dos receptores adrenérgicos α e β do miocárdio, e não por
alterações hemodinâmicas).
Figura 22.6 O transiente de cálcio em músculo cardíaco de rã. Um grupo de células recebeu injeção de um indicador fosforescente de Ca2+, a equorina, que permite que a [Ca 2+] seja monitorada opticamente. A isoprenalina causa grande aumento na tensão e da
i
[Ca 2+] transitória causada por um estímulo elétrico ( ). (De Allen, D.G., Blinks, J.R., 1978.
i
Nature 273, 509.)
Fluxo coronariano, isquemia e infarto agudo do miocárdio
• Em relação ao consumo de oxigênio, o coração tem irrigação menor do que a maioria dos
órgãos
• O uxo coronariano é controlado principalmente por:
– Fatores físicos, incluindo a pressão transmural durante a sístole
– Metabólitos vasodilatadores
• A inervação autônoma é de importância menor
• A isquemia coronariana geralmente decorre de aterosclerose e causa angina. Isquemia
súbita geralmente é causada por trombose e pode resultar em IAM (morte de uma região
do miocárdio)
• O espasmo coronariano pode causar angina (angina variante)
• 2+ A isquemia causa sobrecarga celular de Ca e pode ser responsável por:
– Morte celular
– Arritmias.
▼ Esses efeitos resultam principalmente da ativação dos receptores β1-
adrenérgicos. Os efeitos β1 das catecolaminas sobre o coração, embora
complexos, provavelmente ocorrem todos por intermédio da ativação da
adenilato ciclase, resultando no aumento do cAMP intracelular (ver
Capítulo 3). O cAMP ativa a proteinoquinase A, que fosforila pontos
nas subunidades α1 dos canais de cálcio. Isso aumenta a probabilidade
de que os canais se abram, elevando a corrente de entrada de Ca2+ e,
assim, a força de contração cardíaca (ver Figura 22.6). A ativação dos
receptores β1-adrenérgicos também aumenta a sensibilidade do
maquinário contrátil ao Ca2+, possivelmente pela fosforilação da
troponina C; além disso, facilita a captura de Ca2+ pelo retículo
sarcoplasmático, desse modo aumentando a quantidade de Ca2+
disponível para liberação pelo potencial de ação. A resultante da ação
das catecolaminas é elevar e tornar mais inclinada a curva de função
ventricular (ver Figura 22.4). O aumento da frequência cardíaca resulta
do aumento da inclinação do potencial do marca-passo (ver Figuras 22.1
e 22.7A). O aumento da entrada de Ca2+ também eleva o automatismo
em virtude do efeito da [Ca2+]i sobre a corrente de entrada transitória, o
que pode resultar em uma salva de potenciais de ação após um único
estímulo (ver Figura 22.2).
A ativação dos receptores β1-adrenérgicos repolariza o miocárdio
lesionado ou hipóxico por estímulo da bomba de Na+/K+. Isso pode
restaurar a função se tiver ocorrido assistolia após IAM, e a epinefrina
é um dos fármacos mais importantes usados durante a parada cardíaca.
A redução da eficiência cardíaca pelas catecolaminas é importante
porque significa que as necessidades de oxigênio do miocárdio
aumentam. Isto limita o uso de agonistas β, como a epinefrina e a
dobutamina para choque circulatório (ver Capítulo 23). O IAM ativa a
divisão simpática do sistema nervoso (Figura 22.8), provocando o efeito
indesejável de aumentar as necessidades de oxigênio do miocárdio
comprometido.